segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Marcha base


O desejo utópico de retornar em lembrança,
De consertar o que já foi feito, não me desgasta,
Coberto por tantos pontos, pintas e sinais de luz.
Sei que existem mais, para além do que a vista alcança.
Pressinto que existem actos mudos de uma outra casta,
Que me sustentam e desprendem da cruz.
Acredito, sobre tudo, na força da determinação
E na invencibilidade benigna de ter coração.

Tremo no frio do limiar da brandura e compadecimento
Das palavras alvas em frases sem elos, sem modelos.
O outrora receio das tramas de existências em novelos
Cede, sem sede, a posição a um novo livre sentimento.


06 de Novembro de 2011

domingo, 6 de novembro de 2011

O elo e ela


O elo e ela 

Este cachorro sem mato,
Que corre, o vira lata,
Que salta, brinca, não mata.
Bebe da água do sentido lato.

Passa para lá do regato,
Em busca do ouro, não da prata.
Consciente que se perder a regata,
Fica sem a sopa no prato.

Assentar o pé na fina tala,
Sem rodeio, nem canto de galo.
À pura flor, não parte o talo,
Porque a inteireza é a maior gala.

O risco, que não o cala,
Nem pela lei do estalo,
Sem receios, nem do calo,
Não foge do açoite, que estala.

A aliança quebrada e sem pernas,
Assumida ante divindades aos ternos,
É um mecanismo sem pernos,
Por mais que usem palavras ternas.

____________



O elo e ela.
O elo é cada um dos anéis de uma cadeia.
Ela é a mulher!

O elo representa a união.
Ela representa a amada.
A união com ela.

O elo aparenta o vínculo.
Ela figura a dificuldade.
O vínculo difícil!


18 de Abril de 2007


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Chuva mole


Vem juntar-te ao remanso da chuva serena,
Ininterrupta, e à quietude aberta da noite
Negra. Anda, encurta a extensão da nossa inexistência
E persevera o infinito que todos os pontos une.
Observa o corro de noctívagos seres alados indiferentes
Aos intentos dos ambientes de todo o círculo.

Assoma-te dos amenos trejeitos de solos
Encharcados, com sinais de aridez impressos
Em flora sem viço mas tenaz.

Mais do que um desvio, aparece,
Brandos modos crescem no elo da água onde
Repousa o gemido da atmosfera branda.
Contempla os indícios de um afecto ideado
Pelo frio pleno de um inverno que se avizinha
E se faz anunciar no absoluto do nosso seio.

04 de Novembro de 2011

E hoje… (XIII)


     …blá-blá. Ready-made, blá e muita chuva. Resquícios de ontem e listas. A originalidade lavada e a escorrer, num dia mecânico, cinzento e comum, de uma semana comum, de um mês comum, de um ano comum…

     Breve arrastar de verificações.

     Lista de tarefas por fazer: Em crescimento. Mãos à obra!

     Lista de espera: Galiza, Ferrol, antigo El Ferrol, mais antigo El Ferrol del Caudillo, anterior El Ferrol…  Aquele chocolate quente acompanhado com churros… Reservar (a lista, o desejo…)!

     Lista negra: Desocupada e velha, mas sem rasuras. Vende-se!

O amor da natureza


O amor da natureza

Em verdade, posso já não acreditar no, ou num grande, amor!
Pela falta da verdade, pelo individualismo cego e sagrado
Que me mostram, ostensivamente, em quase tudo e por todo o lado.
Falta-lhes a paciência, a conquista e resta a pressa e o fervor!


Ficam os olhos, vagos e indecisos, com a sensação de ardor.
Faz sentido a nova agitação, o bulício longo e abnegado,
Na procura de um bem que é tranquilo, doce e amado:
A natureza, quase pura, cheia de cores, gosto e odor.


Faz sentido andar sozinho nesta mata, mas não estou só.
Não é uma fuga, aqui encontro a paz, sem pressão ou urgência.
Está toda uma imensidão de seres e sentidos, não tenham dó.


Este Buçaco é de uma beleza que me confere uma nova decência.
O espaço, onde se pode fugir das pessoas e encontra-las sem nó,
Apenas com o deslumbramento, o pasmo alegre e a feliz consciência.

19 de Março de 2007

À procura de sapiência



À procura de sapiência

Calei-me. Incorporei, com ligeireza, a arte de bem engolir sapos.
Vou escrever como quem escreve o que quer, sem preocupação:
Tudo é belo, tudo é desengraçado, depende da suposição.
Mas para quem é pobre ou quase nada tem, como eu, servem os trapos.
Mesmo remendado, em rodilhas, coçado ou passado, não urdo,
Não arquitecto um astuto embuste, não importa se aturdo.

A cabeça, o meu único e importante bem, embora em farrapos,
Lateja com a miragem de uma altaneira e quimérica alucinação:
Ser o que sou, sem perder o ser natural do que é genuíno e em paixão.
Como se fosse possível sê-lo sem ficar trucidado e em fiapos.
Porque não inventar ironias sarcásticas e a despropósito do absurdo,
Se, na falta da resolução do paradoxo, fico calado e o outro fica surdo.

Procuro. O silêncio não é propriamente um descuidado alheamento.
Falta-me a sapiência para descortinar as verdades encapotadas
E o sossego apazigua-me os receios de incriminações veladas,
Repetidas e transmitidas com certeza, encobertas por sentimento,
Tantas vezes que, para os outros, soam a autênticas e exactas.
A mim ferem, abatem a minha alegria e as intenções pacatas.

O aperto. A angústia de andar perdido e de perdido perder a razão.
Vagueio sem vagar para olhar os rostos dos que por mim passam
E também não questiono, nem me inquietam, as causas que abraçam.
Hoje estou eu desapontado, incrédulo e com os demónios que me dão.
Sei que vai passar, compreendo o despojo e a sensação de vazio.
Vai doer durante mais algum tempo mas, aprendi a fazer o desvio.

05 de Março de 2007

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

E hoje… (XII)


     …As ciladas giram numa rotunda de espelhos côncavos.

     Confirmo que, célere, passaram vários anos e testemunho que ando em círculos, cada vez mais cingidos. As mesmas decorrências, derivações e verdades de facto. Atalhos e desvios, retalhos e fracções semelhantes. A certeza de ter vivido no passado a situação actual.

     Retorno, eterno retorno.

Um olhar


Um olhar à hora do almoço


Estou sereno no meu canto,
Com uma folha em branco,
Lúcido e a procura de um encanto.

Como o outro, escuto as conversas.
Paira no ar o cheiro de várias comidas
Da zona de restauração, de lojas diversas.
E eu escuto quem tosse, o som dos talheres,
Os risos, as dissertações de homens e mulheres.

Perece que estou só e que só sou invisível.
Só as crianças me vêem e me olham com demora.
Quererão saber por que sou diferente neste nível
Onde ninguém olha ninguém e quem olha apavora.

Autenticidade. Porque falta a autenticidade?
Porque descrevem castelos onde só vejo choças?
Vão-me dizer que estou possuído pela excentricidade,
E que não é bem assim, que são apalaçadas palhoças.

Estou no meu canto, sereno.
A folha já não está em branco.
Continuo lúcido, sem encanto ameno.

Hoje é o primeiro dia do segundo mês,
Neste ano de dois mil e sete.
Fevereiro, penso uma e outra vez,
Enquanto um bebé chora e se repete.

Já não sou e já não estou tão invisível como estava.
Estou a incomodar a paz dos meus vizinhos,
Questionam, baixinho, o que tanto me demorava.
Admiram-se com as folhas, como se fossem pergaminhos.

Com a pressa do costume, tenho que abalar
(Saudades do Alentejo, da autenticidade exposta,
Onde passeio e vagueio sem me enfadar.
O seu povo é gente, de quem, facilmente, se gosta).

Saio sereno de um canto que não é meu,
Com uma folha rabiscada nas mãos vazias.
Estou lúcido e o encanto não apareceu.

01 de Fevereiro de 2007


Breviário [XIV]


     Afinal, a vespa, não passava de uma mosca metediça e empertigada com o início do frio e eu tranquilo, sem armadilhas, sem ardis, sem pressas e sem destinatário.

     Não são recados. O sobressalto: Sim, subsiste modelado em conjuntos de letras, as palavras que desenho e pinto.

     Sinto-me pronto a partir e pronto a chegar. Nauseado, também, rodeado por quatro elementos em quatro estações; quatro pilares em quatro cantos; quatro ginetes de quatro costados; quatro tempos em quatro luas. Mas não nutro a cobiça, só, pontualmente, a preguiça, no evitar do esforço, e afectos de sentimento frontal.


Sei lá!


«Sei lá!»


Eu sei, mas lá.
Aonde?
Nem eu sei pá!
Onde!?

Eh, lá! Na pauta, …Lá!
Encontrei-o afinal!
Bom, não me parece.
Esse é de cá,
E o outro é algures, sem sinal,
Um qualquer sítio que me esquece.

E, porque a dúvida me aperta,
O «sei lá!» é
Em parte incerta,
Em algum lugar,
Mas não “aqui ao pé”.
Remoto, inatingível. No mar?
Improvável, vago,
Sei lá!
(Mais uma folha que esmago!)
Épa!
É possível que alguém saiba…
Eu não sei!
E quero saber. Que raiva!
Aonde é que ainda não procurei?

Hum…Sei lá! Sei lá!

19 de Janeiro de 2007

terça-feira, 1 de novembro de 2011

E hoje… (XI)


     ... Feriado!
     
     Espontaneamente, o Aurorar continua lento ou a bloquear o computador. A escrita tenebrosa, sombria, e a carga das palavras mais pesadas, numa conjuntura de lapso contínuo, a convalescença clareada, têm um desfecho impossível.
     
     Rectificações, alterações, limpezas: sem sucesso, sem alteração. O merecer ou desmerecer o esforço…
     

Fonte



Fonte do presente, popular passado e sem futuro?

Crescem valados na velha fonte abandonada,
Fonte de encontro de escondidos calores.
Perdeu a pureza da água, que ganhou cores,
Talvez, por ouvir tantas e falsas promessas, cansada.

Ainda se ouve a melodia líquida arrastada,
Já sem os beijos, os abraços, as alegrias anteriores.
Foi a Fonte do Arneiro, nunca a Fonte dos Amores,
Que os acolheu na ânsia fresca e apressada.

Muito sonhei, ali, despreocupado e demoradamente
E, também, ali, amei só, um pedacinho de gente,
Aspirava às alegrias, que sempre foram ilusões.

Não te culpo, nem a ninguém, por não estar contente
E não te esqueci, fonte esquecida e sem ambições,
Onde formulo desejos e prometo não enjeitar convicções.


Outubro/Novembro 2007

Soneto sobre uma certa fonte.