segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Fala-me mar [O mar não fala (?!)]


Fala-me mar [O mar não fala (?!)]


E o mar falou-me de ti
E falou-me das cores
E das flores das Flores.
Falou-me do que não vi.
Falou e cantou salteado
No seu contínuo vai e vem
De fôlego mareado.


E atento, e só, não entendi
Que dele ouvia rumores,
Por íntimos humores,
Em sentidos que perdi
Com um olhar alheado,
Num breve instante, de alguém
Que já foi apaixonado.


E o mar falou-me de ti,
Avivando os rubores,
Enquanto um Sol de ardores
Caía na linha que bani,
Por mágoa e angústia, também.
Horizonte sempre ali
Mas, sempre, sempre tão além.


Fala-me mar, diz-me mais,
Sê confidente e amigo.
Serei um porto de abrigo,
Mesmo nos temas banais.
Mostra-me o que não vejo,
Como só tu sabes, mar,
Patrocina-me o ensejo.


E no embalo balanço.
Ouço-te, claramente,
Num murmúrio contente,
Completo no remanso.
Cursa, esbarra na barra,
Agita o meu interesse
E renova-me a garra.


E tu flor, das Flores que és,
Desconheço-te traços,
Formas, teus embaraços.
Trouxe-te o mar nas marés,
Tua amizade e consolo,
Meu mantimento vital.
Sou um sargaço sem dolo.


domingo, 13 de novembro de 2011

Como deve ser


Como deve ser


Aterrorizado acordei.
No sobressalto ergui-me, em nudez,
E em redor, receoso, olhei.
Pulei da cama de uma só vez.
Tremo, temo pelo que fantasiei.
Realidade, crueldade, insensatez...:


«Há muitos filhos da luta
A manobrar a verdade,
Plenos de orgulho e vaidade.


Sonho, noutro sonho, com uma República,
(e pode ser uma Monarquia (?!))
Onde quero uma verdadeira democracia.


Uma democracia que prime pela transparência,
Onde os concursos públicos sejam isentos
De “convites” e “cunhas”. Haja decência!
Não gemo por gostar de lamentos,
Não clamo por falta de paciência,
Incrédulo nos decretos, diplomas… Documentos.


Vi-os viver numa luta pela tolerância,
Onde o tempo passa sem glória.
Tratados como perdidos pela demência,
Como parasitas sem memória,
Transportados para a insolvência,
Como um fatalismo da história.


A voz, que não se cala, avisa e denuncia
A imposição de regras obtusas e anacrónicas
Aos servidores do Estado, em mnemónicas.


Não alinho por uma qualquer moda,
Não estou na torrente do contra,
É esta falta que, medonha, me incomoda,
Vejo-a, já fora da protectora montra,
Com os olhos de quem não se acomoda.
Falta uma liberdade que não se encontra.


– “Governo do povo, pelo povo e para o povo”.
Não era um fanático arrojo desvairado,
Mas um grito de oprimido e de angustiado.


Um povo chora com os sintomas de totalitarismo
E de repressão da opinião dos cidadãos.
Uns preocupados a camuflar e em cinismo,
Outros, aos céus, erguem crentes as suas mãos.
Outros, ainda, vivem no nacional clubismo,
Ora unindo, ora separando os irmãos.»


Como tudo isso é simplesmente ridículo,
Fruto de uma mente fechada.
Vou ser feliz, amar e viver a alvorada.


Está tudo como deve ser, sem guerras, sem fomes…
Afinal vivo num mundo lindo e justo,
Onde o terror e a injustiça são inventadas a custo.


Não?!


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Dito de outro modo…


Dito de outro modo…


Dito de outro modo, e porque não,
O meio ambiente influencia-me.
O ambiente impele e sentencia-me
As vontades, o ânimo, a disposição.
Nos opostos e nos concordantes,
Nada será igual ao que era antes.


O vento, que me serena a indignação,
E a lânguida e imperiosa bonança,
Que me hostiliza a temperança
E desorganiza a compreensão,
Num frio que de longe me aquece,
Por um calor que de perto me esquece.


Partindo desta invernia que é o meu Estio,
Rogo por uma Primavera sem Outono.
Quero um amar e um mar sem posse, nem dono.
Um querer verde viçoso e maduro esguio,
Sem malvadez, figurado, sem figuração,
Manifesto aurorar, no ocaso da emoção.


Em boa verdade, da maresia e em marejada,
Retenho o odor e os balanços afectuosos,
Os amparos e resguardos de abraços oficiosos,
De beija-flor de fidelidade dissimulada. 
Sebes de cedros que cederam à acalmia
E um pinheiro manso que enraizou na ventania.


Dito isto e dito de outro modo e outra vez,
A flor da laranjeira ficou em branco pérola,
O anjo, resplandecente, perdeu a auréola.
Mas, o espinheiro deu viço e melhorou a tez.
Do jardim, que agora é um bravio valado,
Não colho flores, colho amoras descansado.



O fardo da noite


O fardo da noite

Nuns versos descarnados, em acto inacabado,
Recolho os fragmentos de um brio caído,
Mas sempre em construção e em sentido.
Procurei saber para onde vou tão apressado,
Sem conseguir obter uma razão ou fundamento.
Já sem pressa, mas com urgência em dormir,
Carrego o peso do desconhecido, num lamento.

Apago a luz, respiro fundo, fecho os olhos.
Fico a sentir o frio da cama.
Abandono-me no escuro, que não me engana, nem ama,
Cansado de um dia sombrio e cheio de escolhos.
De olhos fechados, ao abandono,
Tento ser fiel aos meus princípios e sentidos,
Dispondo das palavras e ideias sem dono.

Arruíno a frase da prosa, com a proposição,
Poética e, despudoradamente, propositada.
Sentença da alheia sentença, minada e mimada.
A noite envolve-me em absoluta desproporção,
Fiel a sua grandeza e antiguidade.
Acomodo o corpo, com a mente torturada,
Não durmo, não descanso e perco a serenidade.

Por cada letra ou palavra, na ideia alinhavada,
Percorro vários caminhos, de forma indecisa.
Procuro-te, longamente, sem direcção precisa,
Numa ânsia de abrigo e protecção ajustada.
Não tenho medo da escuridão, 
Não sou um protagonista audacioso,
É esta angústia existencial, sem alegação.


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Só para dizer [XIV]:


     Livra-te do peso dispensável e retardador das promessas por cumprir. Não faças juras fúteis e inúteis!



Esqueces que te esqueceste


Esqueces que te esqueceste


Talvez não te recordes, mas eu, também, choro.
Esqueces que te esqueceste de mim, um dia,
Nos dias de uma vida, ainda verde, que se erguia.
Ficou uma dor que remedeio e onde me demoro.


Uma mágoa que me quer e que não exploro.
Não quero construir uma vida estéril e arredia.
Não me perdi, nem me entrego à revelia.
Estampo na face um sorriso frágil, que melhoro.


Como os outros fazem, ergo-me quando esbarro.
Querem ver-me feliz e não posso fingir sê-lo,
Porque logo me atraiçoo, desmascaro e desgarro.


Sigo tranquilo, ciente, informado e não bizarro.
O siso, com prudência, pretendo não perdê-lo.
Esqueces que te esqueceste como eu me agarro.



Prenda antiga


Dupla prenda


Ainda não realizei em mim o fundamento.
Posso dar muitas voltas para entender a razão,
E ir e voltar sem perceber, sem encontrar explicação.
Posso, apenas, ficar com o meu descontentamento,
Porque o acto não mereceu um simples comentário,
Ou uma palavra atirada, simples, medíocre ou grosseira.
Porque a acção foi perpetrada com um rancor ordinário
De quem desfaz, orgulhosamente, uma bondade interesseira.


Na passagem desse vendaval, de desmedida confusão,
Estranho muito a tua estranha forma de dar,
Que é oferecer um presente para depois o tirar.
Não falo de amor, amar, sentimentos, afeição.
Não falo do hipotético valor, mas de valores.
Falo do objecto dado em nome de outra pessoa,
Depois retirado em nome próprio, sem clamores.
Sem pensar ou a desejar que a acção pese, doa!


Se por acaso foi dado sob alguma inexplicada condição
E o uso, o apreço, o apego e afecto que lhe dediquei,
O lugar, que tão junto a mim e carinhosamente, lhe reservei,
Não estiveram à altura da imaginária e velada pretensão,
Será motivo para que, manifesto e aclarado o intuito,
Seja retirada a oferenda, sem qualquer reparo ou indicação?!
Ou é um acto reles, rapinador, cobarde, violento e gratuito?
(Concedo-me um breve, mas reparador, momento de exaltação.)


Claro que, quando me apercebi, fiquei fulo, enfadado!
Mas, cravo a intenção no desprezo que é merecido.
Não peço de volta o gesto sincero de agradecido.
Não é por desuso que não desejo o provérbio realizado.
( «Quem dá e volta a tirar ao Inferno vai parar» )
É por não acreditar e não ser essa a minha consciência.
É por não querer e não desejar o tormento de odiar.
É por ter mais onde gastar o tempo e pela decência.




Primeiro, o presente recebido. Depois, o presente que é o facto de ficar sem ele.



Breviário [XV]


   A jornada precipitou-me para a orla do precipício. Abismo!

   À beira do abismo coloco um espelho, não para me poder contemplar mas, para, quando o pretender, poder ver mais chão em frente.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O meu mundo é pequeno


O meu mundo é pequeno
  
Porque querem ver-me acossado e acusado,
Se nos pensamentos sigo nu e desprendido?
Se o meu nó é de correr e sou perseguido,
Porque me tratam como a um alheado e atado?
Para quê ler e entender à letra e de forma mordaz,
Se não é assim que o digo, escrevo e sinto?
Sigo, desprendido, sei que estou ávido por paz.

Sei que o meu mundo é pequeno, enfezado,
Em comparação com o mundo desconhecido,
Em comparação com o mundo vivido
Entre fomes, guerras, enfado e o ser desprezado.
Quero ouvir a sinceridade e a justiça sagaz,
Sem comprometimentos com a falsa cortesia,
Sem alianças com a inveja e o ciúme, que desfaz.

Jurisprudência. Vejo a imprudência com desagrado.
Olho à volta e confirmo que estou só, perdido,
No desejo, na procura, na vontade, no ouvido.
Mas isso não me deixa mal-humorado, zangado.
Curiosamente, ganho uma força ignorada e audaz
Que me leva ingénua, arrebatada e decididamente,
Por outro caminho e absorto por um espírito sagaz.




Vontade acautelada


Reservemos todas as palavras, depois destas,
E desvendemos os mistérios das curvas dos sorrisos.
Agarremo-nos aos contentamentos precisos,
E aos concretos, também, ainda, e sem arestas.

Saciemo-nos, sem saciar, com as carícias honestas,
Perlongadas e em paridade com os improvisos.
Escutemos os batimentos fortes e concisos,
Num êxtase consciente de horas modestas.

Afastemos os preconceitos próximos e distantes;
Consideremos cuidar dos afectos que disponho,
Que dispões, e juntos sermos seres felizes e errantes.

Por bem, numa missiva que não imponho,
Não importam as sentenças dos comediantes.
Poderia, acordado, perpetuar este sonho.

09 de Novembro de 2011.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

E hoje… (XIV)


     …Trejeitos! Ouvir desculpas esfarrapadas, ver enganos estampados, sentir cortes a direito e computar!

     Autocontrolo: Activado!

     Mais um dia rápido com comida rápida!

     Controlo de ponto: Em sentido único!

     Pelo caminho, um ser humano sentado num cartão sobre o chão, por bem, enxuto, apelava à piedade, comiseração, e o meu sofrimento comum, compaixão, levou a minha mão ao bolso onde aguardavam as moedas sem conta e desprendidas, e o ar que saia dos pulmões levou às palavras que queriam acarinhar e inquirir sobre necessidade de uma refeição. As locuções e o pão eram dispensáveis. Só o dinheiro importa!

     Seguir em frente, sem resquícios de arrependimento, só um pensamento, de pronto, a pronto, um ponto a pensar, um pronto a pensar: Uma vida social não é tão simpática como uma rede social.

     Controlo remoto: Sem pilhas! Adicionar pilhas à lista de compras com o estado de prioridade baixa.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011