domingo, 11 de dezembro de 2011

Fim de linha!


Fim de linha!
ou 
o primeiro retorno


Um dia pediram-me a Lua
E eu fui
Ao céu
Buscá-la.
Quando regressei
Com ela
Já não era desejada
Já não era necessária
E não consegui devolvê-la.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Geração homógrafa


As crianças chamam-lhe «Bruxa»
E os adultos que, embora com desejo,
Não a possuem, também.
Finge não ouvir e do xaile puxa.
Por vezes, afirmam ouvir-lhe um bocejo,
Mas eu vejo que a fada não se detém.

Para não se enganar, sem rosto,
Lança o xaile sobre os ombros,
Como se fosse uma rede.
Rede onde se esconde e ao desgosto;
Onde se resguarda dos assombros;
Onde se afaga sem sede;
Onde, por fim, se aprisiona,
Achando-se a salvo,
Mas um continuo alvo,
Do mundo que desmorona.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cinzento


Sem dúvida, sem peso, sem surpresa,
Sou, ó mar, tua presa,
Nesta praia, sob o Sol morno.
Sinto-me desprovido de qualquer destreza;
Despojado da raiva e da frustração,
Sem perder de vista o farol, adorno,
Para mim e para a minha condição.

Toco nesta água, salgada e inquieta;
Nesta areia submissa e concreta;
Neste ar envolvente, carregado de mar, a dividir;
Neste fogo que arde em mim e me afecta,
A uma vontade de serenar e partir,
E permaneço com uma convicção completa,
Preso por uma pequena pena de subtrair.

Não sei ao certo quantas aves contém uma pena;
Nem sei dizer se as aves outras penas têm
E, nesta hora que me resta, pena é o que menos me convém.

Não vou mudar o Mundo, nem, tão pouco, contorna-lo.
Não espelho o que sou, apenas o que pareço
E figuro, seguro, mais do que um adereço.

Barra (Ílhavo), 29 de Outubro de 2009.

Ilustração associada


     Por vezes, as gaivotas adoptam um porte de silêncio e de quase imobilidade, que adaptam aos meus sentidos e à sua natural curiosidade, perante a minha natural intrusão, para manifestar e significar termos de doutrinas ancestrais, tácitas, que expõem e descarnam sem enunciar. Aparentam alimentar intimidade e cumplicidade comigo, numa relação de cautelas, avanços e recuos, e uma total inutilidade perante a força dos elementos, violentados e compelidos por intensivas práticas humanas e caprichos próprios e antigos.

     Da noite anterior ficou o travo da sofisticação e requinte da sociedade engalanada. De toilette a traje, de gala dotada de alarde; de eau de toilette a água de toucador, essências para municiar…

     Clap! Clap! Clap!

     Aplausos! Anuências, risos, sorrisos e trejeitos de circunstância. Uma nova aranha, nova, tece a sua teia sobre um rosto, por caridade. Rosto improvisado e inexacto; teia a transportar como um véu; caridade descartável. A face da teia da compaixão. Urdir.

     O crepitar da lenha de pinho na lareira mistura-se com o estralejar dos sentidos que reúnem, agrupam e caracterizam, uma vez mais, as sensações já várias vezes analisadas, impregnadas de vida, instruções e orientações, por vezes, imprecisas. Agradeço o calor que me cinge e retempera.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Explica-me, amor


Explica-me, amor, para que eu consiga entender,
Os porquês das verdades imperfeitas,
Mutiladas, inacabadas, desfeitas
E que variam sem regras e com o querer.
Realidades aparentes e desgarradas,
Em vocábulos sem nexo e vazios:
O jogo das palavras multiplicadas.

Os porquês dos sonhos incompletos,
Truncados, ilegíveis e incompreendidos.
Idealidade frustrada na ilusão dos sentidos,
Em névoas de desejos concretos.
A fantasia que adoça a amargura,
Em suaves termos sem vínculo,
E que, outras vezes, acidifica a brandura.

Os porquês dos desejos autênticos retraídos,
Reservados, tímidos e discretos;
Dos anseios incertos e incompletos,
Que de tão intensos e certos parecem fingidos.
Os caprichos insondáveis e inconsistentes
Nas oscilações vibrantes de humor,
Carregos e tropeços para pessoas descontentes.

Os porquês da persistente incompreensão,
Intolerância usurária ou fingida e fanatismos;
A solidariedade que chega em teatrais dramatismos;
O fictício ombro amigo, de extremosa compaixão.
A força de não aceitar as diferenças esmaga a minoria
Contraída, que crispa em outra força de vingança.

Os porquês dos sorrisos pálidos, forçados, contrafeitos,
Na lenta espera do agrado conveniente que desculpabiliza.
Mostrar forças que não se tem, em ânsia que se concretiza,
No arquear manifesto de trejeitos que se mostram satisfeitos.
E essas alegrias figurativas de consolação cortês, forçadas,
Que povoam de comiseração os mais desvalidos ou pobres,
Em dádivas de migalhas sujas: Sobras espezinhadas.

Os porquês dos embustes, das manhas, dos ardis,
Artifícios apoiados e sustentados na falta de diafanidade;
Da crueza pintada e descrita como uma necessidade,
Urgente, no enganador combate às presunções senhoris;
Do protocolo rígido de uma aparência elegante, adoptada,
Que aponta para as miragens de uma alma constrangida,
No presente póstumo de uma herança furtiva e forçada.

Os porquês dos olhares ausentes, despojados;
Dos esgares compassivos, sem cálculo, ao abandono;
Da moderação que vê sem olhar e com sono,
Nuns olhos mortiços, vagos e descarregados;
Da visão desfocada num ponto do infinito,
Sem confiança e certeza de tamanho ou medida;
Da inexpressiva representação fria do grito.

Os porquês de muitas outras perguntas volúveis
Que nos assaltam, com ou sem pudor, diariamente;
Das incursões de acerto meditativo de um demente;
Das vidas impetuosas, célebres, extasiadas e solúveis.
Explica-me porque urge o tempo perdido
Na voragem, e em prol, de uma modernidade.
Eu escuto. Porquê, amor desconhecido?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Trilhos


As reticências preenchem um vazio de certezas.
Nem todas são assim. Estas, contudo,
Vão mais além, trazem muitas promessas;
Levam, e exigem, confiança e outras finezas.
São macias e têm o toque do veludo;
São a massa cómica de muitas pressas;
Medem a aparência da inevitabilidade
Fútil, de uma clara falta de disponibilidade.

As reticências pediram-me, docemente, permissão
Para instalar o medo que se adivinha;
Para degradar a velocidade que se avizinha
E correm para o fim da frase em questão.

Foi então que as reticências chamaram outras
Reticências. Formaram um coro de burburinhos
Sem sentido, enquanto cruzavam cúmplices carinhos.

O que sobra, para além da compostura da ausência,
São espaços de pontos imóveis, tácitos e alinhados;
São os vários implícitos, os contidos e os subentendidos.
Vão mais longe do que a modéstia e a aparência;
Simulam o infinito, com limites decretados.
Caracterizam ilhas de muitos afectos e sentidos,
Quando não flutuam em marés de istmos concretos;
Cânones de leis à deriva em querosenes indiscretos.

Os aclives das interrupções divagam em fantasias bruscas,
Pontinhos repetidos de ideias latentes.
Encaminham-se e vagueiam por ideais indiferentes,
Significados dúbios e aspirações patuscas.




terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O dia sibila

Os meus tumultos, os teus insultos,
Não mudam o curso da existência;
Da minha existência rudimentar.
A tua noite avoluma os meus vultos
Em sombras que se projectam na tua demência;
Em vagas que só existem no teu mar.
As minhas amarras resistem, teimosas,
Às investidas dos elementos e prosas.

Sinto-me amarrado a uma vida maravilhosa.
Gosto de viver; de separar as coisas importantes.
Qualquer sorriso apazigua e ameniza
A minha hipotética ira ou dor preguiçosa.
Aprecio, mesmo que breves, os momentos de paz;
As alegrias de qualquer pequena brisa;
As lacerações, agora insignificantes;
As liberdades tímidas e titubeantes.

Seco, como roupa no estendal.
Espero ser recolhido, talvez, passado, dobrado, arrumado.
Espero pelo passeio, pela rua;
O ar, que, de novo, me movimenta, leva o sinal.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Tomar parte


Há dias em que tudo nos parece cair em cima,
Mesmo vindo, também e muito embora, debaixo.
Hoje, até o ambiente está opressivo e trocista,
Ora frio, ora quente, e o que rimava já não rima.

Há pássaros que, obstinadamente, teimam em não voar,
E, como um bando de enjeitados e zombeteiros,
Ininterruptamente, contestam, contestam e contestam
Numa algazarra desmazelada que não estou a entender.
É possível que tenham razão, terão certamente a sua,
Mas não param nem me deixam em sossego,
Só eles saberão versejar e eu gosto deles, mesmo assim.

O melro de bico amarelo, o macho, levou-me algumas palavras;
Os mais belos, avermelhados, lisos e sãos vocábulos.
De uma só bicada diz que vai construir um novo ninho.
Quer ganhar a vida, deixa umas pontas e uns nós.
Mas não me quer depor, investido em sobranceria
E nuns lustrosos e pomposos penachos negros, vistosos.
Nem gosto nem deixo de gostar, são as suas penas, apenas.

A gansa nova, filha da pata velha, por parte da incubação,
Precedida por uns pequenotes mal emplumados e medrosos,
Canta de galo as razões que eram minhas e tão raras.
Enche o peito feito, de peito feito, com o que por mim foi assente.
Leva as flores que, em veemente protesto, se exibem;
Insinuam-se despudoradamente, sem fé ou promessas.
Anima-se o préstimo da luta contra a tirania de força maior.

Gralhas. Em todos os sentidos, sinto-o em sentido.
O manancial de desejos inclinados, prontos a servir,
Aquecem em lume brando, num fogacho arrebatado.
Molho a sopa, levo sopa e fico por ela perdido.


domingo, 4 de dezembro de 2011

Al


     Abandono o gerúndio.

     As palavras que nos unem são as mesmas palavras que nos separam e eu agarro-me às imagens para interromper a celeuma. Não te encontrei na bruma da espertina; não te encontrei na penumbra do sonho; não te encontrei na luz do facto; não te encontrei. Uma contínua paridade de ausência.

     Só eu desejei; só eu amei; só eu sonhei; só eu, só, num conjunto de evidências onde tudo continua igual, sem o meu queixume. Um sonho que é um sonho.


Sonho!
E eu, também.
Sonho!
Apalavrado de gorgulhos.
Sonho!
Expedito contratempo.

Apenas uma essência.
Perdido na noite,
Um grito surde surdo,
Não se sabe acomodar.
A minha senda.

Aveiro, 4 de Dezembro de 2011.
  

sábado, 3 de dezembro de 2011

Tempo emprestado


Pedi algum tempo emprestado;
Pedi desculpa, para não voltar a pedir.
Transformei os afectos num menir
E comecei o que agora dou por terminado.

Por muitas e boas intenções fui carregado
E, quando perdido me encontrei,
Não soube emendar o que desbaratei.
Não perderam a oportunidade de me deixar assinalado.

Com essa marca de um fogo alheio
Atravesso as linhas tortas que adoptei;
Trespasso o vazio preenchido
Pela desgraça de tudo quanto é feio.
Não sei quantas felicidades pulei.
Contrito, sou parte e um alter-ego dividido.

Não consigo devolver os instantes despendidos;
Não consigo reaver as desculpas das culpas
Que não existiram, nem os seus sentidos.

Os espelhos eram realidades invertidas;
Vaidades intolerantes de desinformação;
Medidas imprecisas de devaneios.
Os reflexos eram brilhos de luzes pervertidas
Em vórtices de demente excitação,
Logro de um prazer espinhoso e de arreios.

Fadado, de fado em fado,
Num fado que não é meu,
Sigo arqueado sem crença;
Sigo longe do agrado;
Sigo uma vontade que se esqueceu;
Sigo uma absolvição da sentença.

Do outro lado do rio sem vida,
Belo, silencioso, paciente,
Encontra-se o meu estranho barqueiro,
O da remada precisa e decidida.
Folgo em vê-lo sorridente
Mas hoje não vou ser o seu passageiro.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Folhelho


Alegadamente, nada é da cor que será;
Nada tem o comprimento que teve.
Sou feliz na tristeza menos carregada.
O amanhã num outro presente se verá
E o presente pode ser outra dádiva armadilhada.

Dispenso a dúvida com que sou condecorado,
Penso no lucro de mais um pequeno dia.
Agarro o brilho ilusório de um sentido,
Sem direcção, e rumo para o lado, para onde estou virado,
De pé, vagamente orientado e perdido.

Descubro que a Ilha, e o insular, sou eu.
Sou o Mar, o gasoso, a Natureza e nada,
Levemente pesado e pesadamente leve,
Pronto para livremente partir e ficar;
Com a consciência pesada, de quem nada deve.

O que resta já está estragado e serve,
Num Universo que se destrói e constrói;
Numa revolta pacífica da explosão mansa.
É o gelo que me esquece, que me insulta e ferve,
Na proximidade que me toca mas nunca alcança.

De postura incorrecta, correctamente,
Alongo o fugaz abreviado e breve,
Num rosário de contas sem futuro,
Vindo de um longínquo passado presente,
Em perfume de consistência, de brilho obscuro.

Um sorriso facial, artificial, desenhado.
Engolir em seco e olhar sem olhos.
Bonita? Não avalio a grandeza da ira,
Nem a ira da grandeza do abandonado,
Encontrada pela carência sem mira.

Duplicam-se e dividem-se os sentidos,
Num retorno, sem volta, completo.
O que importa está do lado de cá,
O lado dos pacientes e dos destemidos,
Com impaciências e medos, agarrados ao que há e não há.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Aptidão para experimentar sentimentos e emoções


Trivialidades. Presente, ouço sem grande ponderação.
Diligencio alguns reparos que se diluem na atmosfera casual;
Uns acenos e umas mesuras, espontâneos, para manter o ritual. 
São citações de ocasião.

Não responde à questão e não era isso que eu queria.
Foi breve, contudo, o desvio ornamento e hesitante,
Para bem da minha perseverança escassa e errante.
Emissão sem sintonia.

Já a quina esboroada assume e exibe o seu defeito reparável
(Notório e com solução). Ninguém sabe quem foi o autor;
Ninguém se acusa e a obra não denuncia, sequer, a sua dor.
Parece amável.

Não carrego queixumes ou lamentações empacotadas.
Forço o esboço de um projecto de felicidade, trabalhosa,
Que, da aparência para a ilusão, se torna ainda mais assombrosa.
Expectativas apontadas.

Mas não lhe tomo o gosto antes do tempo. Sereno,
Enquanto observo as formigas que invadem, apressadas,
A divisão cheia de mim e engulo o ar das palavras trocadas
No bocejo terreno.

Não desejo derrubar tanta azáfama dedicada e disciplinada;
Tenho a certeza de que, amanhã, não voltarão ao vazio.
Em fé, são as convicções que harmonizo e providencio
E que provêm do nada.

O suspiro, que fugiu do peito e que caiu na ria, desapareceu.
A sua ausência, notada, não é mais uma questão de vida;
É, sem dúvida, a dívida que ganhou força na sentença deferida
E que a precedeu.

Pergunto-me seriamente, a um canto, empobrecido:
«Quanto valerá um sorriso estampado na tua cara?»
Singular, pensando em mim na terceira pessoa, repara,
Tão isolado e distraído.

Hoje vou falar com Deus. E se ele não me falar?!
O pavor não é um amargo agradável.
Admirável.