O voo necessita de ilusão, de pelo menos um quê de
ilusão.
Nos telhados, os pássaros de terracota, dizem tudo num
gesto
suspenso, que descansam quando julgam estar sós no tempo
e inacessíveis à vista. Esses pássaros de terracota, voam
quase
só para dentro, até ao dia em que um vento certo e incontestável
os demove, com um encontrão certeiro, e lhes dá uns
instantes
de ilusão. A ilusão suficiente e pertinaz para contrariar
a atracção
gravitacional da terra e proporcionar-lhes a derradeira
alegria,
que outras aves, como, por exemplo, as galinhas, se coíbem
de conjecturar. Coisas tão banais para todos os restantes
voadores,
para quem, por vezes, durante um segundo ou durante
vários dias,
voar não é tão fácil porque a realidade e o sonho não
cabem nas asas
e / ou o céu ameaça ruir. Não há uma exacta medida de
capacidade,
um tempo certo ou previsível: acontece. É a vida.
[sobrevoo]
Como sempre, excelente!
ResponderEliminarBeijo, e um óptimo sábado!
Alguns imaginam voar... quando andar não lhes basta... e conseguem...
ResponderEliminarE outros haverá que nem sonhar, ou simplesmente andar...
Desde que se nasce... a vida tem os seus próprios planos... para cada um...
Mas até os pássaros de terracota têm direito ao seu primeiro e derradeiro vôo...
No fundo... tudo vale a pena... a vida vale a pena... até para os que não saem do mesmo lugar...
Mais um poema teu belíssimo, que nos proporciona um belíssimo vôo interior!
Beijinhos
Ana
AS maravilhas da poesia. Mais um poema envolvente.
ResponderEliminarBjks