quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Identidade duvidosa




Que estranho mundo, de coisas indizíveis. 
Andei à procura da inteligência das estrelas, 
sem conseguir alcançar uma coisa ou outra, 
e agora encontro as andorinhas em alvoroço. 
Desenham, no ar, o prenúncio ruidoso e veloz 
da sua eminente longa viagem, com a imagem 
gasosa da leveza do cetim, negro e branco, 
e o espelho chama por mim, desequilibrando 
a surpresa, com os nervos à flor do vidro sensível. 
O dia interrompe-se e as promessas dos cartazes 
ficam, simples e irremediavelmente, suspensas, 
como os sorrisos atónitos dos rostos estampados: 
Não valem nada e não são por, ou de, ninguém.


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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Ao balcão





Esta é a consciência de que todos somos personagens 
de uma vaga da história, em dias mais ou menos fáceis. 
Este é o lugar que mais os aproxima dos livros, de que 
não necessitam (os personagens que transmutam as suas 
fisionomias, numa luta ininterrupta pela sua sobrevivência 
ébria, e que, na realidade, contém todas as elementares 
instruções); que mais aproxima a nossa mútua e precária 
existência e é uma espécie de taberna. Do outro lado de uma 
rua muito estreita, ainda resiste uma casa onde residem livros 
resilientes e que não estão presos a ninguém (como eles), 
apenas a uma instabilidade (como a nossa, a de todos nós), 
como que uma biblioteca. Mas creio que, reflectidamente, 
a proximidade não se fica por aqui e é aqui que, por vezes, 
venho tomar um café expresso, incomparavelmente amargo. 
Como se, também eu, esperasse encontrar um fundo de razão 
num fundo de chávena com borras; onde sou eu o personagem 
estranho, miserável e cheio de resíduos, por quem os deuses penam 
às janelas, e que leva uma bofetada da vida, sem sequer a ver 
passar, vida que só aos personagens de outros fundos pertence. 
Aqui, ninguém quer ajuda e a ajuda fica, obedientemente, à porta. 
Este é o sorriso de quem sabe que é igual e que pode levar consigo 
muita da miséria, que é a nossa alegria de ter coisas que não deixam 
voar. E depois voo, tão rápido quanto a minha imaginação o permite. 


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 [04 de setembro de 2017]



quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Síncope




Fecho-me, com o dia. 
O tempo hesita num triângulo de luz. 
Não faltam os pássaros e uma aragem de ria 
na antiguidade da cidade 
(Alauario, hoje, com pouco sol), 
como orla do pensamento, que sobrevoa 
o final de um agosto frágil. 

Se, em Portalegre, a sombra cresce com a serra, 
numa evolução aérea, 
em Aveiro, a sombra cresce para o leito da ria, 
num desenvolvimento aquático, 
igualmente rústico. 
É assombrosa a velocidade da sombra, 
assim como a velocidade da ausência, 
ou como a velocidade da estupidez. 

Ao longe, 
talvez não demasiadamente longe, 
uns agitam bombas e ensinam a guerra 
a falar grosseiramente; 
outros leccionam o conflito às palavras que sacodem; 
outros, ainda e naturalmente, fazem tudo isto, 
de uma só vez. 

Eu, só quero estar só. 
Trago nos olhos as palavras que não digo, 
porque, por vezes, 
de certa ou alguma (boa) forma, 
o silêncio deixa quase tudo claro, 
e falar, ou escrever, gera um ruído excessivo. 
Mas nem sempre é assim. Eu sei, 
ou quase sempre vejo essa margem. 

Sabe-se que são coisas, 
só coisas, 
apenas coisas. 
Fecha os olhos e olha para um sítio diferente, 
bem dentro de ti. 


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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Leveza




«Não tenham pena de um qualquer meu voo triste.
Temo que, para me protegerem, me sobrevoem,
enquanto, eu, também, voo, sobrevoo, ou, simplesmente,
ando. Há quem atire terra, pedras, coisas, balas, bombas,
palavras. Não forçosamente por esta ordem potencial
e crescente de grandeza, não necessariamente todos
os elementos desta lista e sem aparente, ou viável, motivo.

O verão, veraneia-se. É sempre um dia de um dia
qualquer. Vem as estradas a andar, a água a nadar
e o ar voa. Acende-se a luz da luz e a possibilidade
das árvores cresce na sua própria eventualidade,
como nas pessoas das pessoas.»
– Confidenciou-me o ulmeiro.


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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Meia parte




Início de cor, na evidência da velocidade da sombra,
repleto de ciência, debruado na inércia da maré,
visto de cima, passado o sono: abre-se a imagem.

A um silêncio de um pão, para serenar a fome,
pousou a ria, com um não, num gesto singular,
fixando as águas positivas em toda a sua geografia.
Nas pupilas, guardou as objectivas e a gravidade
da câmara, com um cerimonial vaporoso, em flor,
minuciosa, sem dúvida e com sal, enquanto levedava
um voo de prosa e outro de poesia, no meu corpo
de pássaros rosa-simpatia do tempo das nuvens.


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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Umas semanas depois




Por vezes, iludo-me. Penso que já não sou exactamente 
eu, precisamente o mesmo. Mas, o que mudou foi aquilo 
que ficou e o que partiu, ou a suas imagens, e os reflexos 
de estar sem ser e de ser sem estar. Compreendo o saldo 
do amor como um sorteio da poesia num instante preciso 
e, contudo, alegórico, de ventos mais ou menos pacientes. 

A janela abre-se por dentro, no cérebro, e o seu tempo 
não pára, como no caso do tempo das ruas, que quase 
ficaram na sua época e agarradas a um nome de acaso, 
por obra do mesmo, acaso, e que lhes guarda a sua 
ímpar distância, quando um homem não as emaranha 
numa nova vida, para castigar as memórias dos vivos. 

Sempre que olho para a ria, vejo que nunca daqui saí 
e reparo na minha mais natural sugestão de apresentação: 
um fogo, uma terra, um ar, uma água, um metal: líquidos 
e simples, que, podendo estar em qualquer local, são 
de um ponto único, de lugar nenhum e de toda a parte. 
É este o regresso à casa de partida e os dados são aéreos 
e estão, fantasticamente, viciados. 


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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Mais um poema azul



Enquanto a sombra não cresce em direcção ao céu,  
reduzido [eu] à insignificância da minha espécie e embrenhado 
na anarquia de vida que aqui regurgita, apesar da seca, 
explode-me o olhar sobre a imagem trémula das planícies, 
de onde medra a luz e o próprio calor, que trava a respiração. 
Nasço, uma vez mais, em milhares de palavras de serra, 
da serra de São Mamede, como se aqui tivesse nascido e, 
também, aqui nascesse o mundo, ou a sua pele, durante 
todo o dia. E é a serra que (embora possas discordar ou 
desgostar) põe o sol em movimento sobre todas as coisas, 
como Portalegre, que se junta de mil pedaços, numa mesma 
imagem viva. A cidade une os gestos da paisagem cerebral, 
assim como os meneios e a oscilação da paisagem física, 
e compõem a imensidão de paz, que é a nossa alma comum. 


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