sexta-feira, 23 de junho de 2017

Progressivamente denso



Agora, o mar passeia-se pela cidade: 
a minha cidade, um certo odor a mar. 
As palavras chegam cruas e entram-me 
pelos olhos fechados, numa tarde 
que também se vai fechando, 
com prenúncios irremediáveis 
de que virá ainda mais vento 
pelo meio do amor que tenho 
pelos gatos e pelos cães abandonados, 
para me açoitar o sono, 
como os fustiga, a eles, cães e gatos, 
e ao fio da sua paz. 


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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Um outro poema sobre fantasmas



Quando os fantasmas não têm a certeza da nossa existência, 
ganhamos a transparência fundamental e a consistência da névoa 
a pairar num obscuro e impensável despropósito de vida. E, 
nesses instantes, podemos vê-los plasmados numa solidez de dúvida; 
eriçados, em torrente, até à mais profunda convicção de si próprios; 
imbuídos em suor e vóltios que gemem uma melodia acidental; 
mesmo à nossa frente e numa qualquer superfície que, mais ou menos, 
espelhe, para que, a nossa imagem, atravesse a nossa memória. 


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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Intermináveis



Há poemas que não tem fim, que não se deixam concluir, 
e que partem, sem partir, ainda com as raízes dentro de nós;
que nos deixam a olhar para o horizonte, como quem procura 
o amor ausente, um qualquer horizonte, mesmo que um horizonte 
confinado ao tecto onde despontam os bolores da habitação; 
que nos tocam o transcendente do odor e dos sons das imagens 
que se debatem para adquirir os contornos que deixaram de ser 
concretos e que vivem no limiar da realidade e dos sentidos; 
que adquirem a forma de uma melodia familiar e antiga, difusa, 
mas como que intrínseca à exactidão e à certeza da existência. 
São, sobretudo, os mais ruidosos e reproduzem-se no nosso silêncio. 


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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Parece claro



É mais fácil ser-se o voo dos pássaros nocturnos 
do que ser alguma pequena história sem fundamento, 
daquelas que, por vezes, cabem numa linha que se repete 
no caminho que se abre nos olhos da manhã, mas sem a nitidez 
desta (manhã), entregue a nós próprios, como uma memória, 
em direcção aos primeiros raios de sol, e que sobe, célere, 
pelas aflorações rochosas, como quem avança sobre as aflorações 
caprichosas da saudade, com o joelho a recordar, ao corpo 
de poema, que existe. Isto, voar, ou deixar que o vento nos empurre 
para longe da praia, com o seu hálito de mar e felicidade primaveril. 


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sábado, 22 de abril de 2017

Breve



Numa noite mais fácil, bebo a primavera da luz, 
as palavras dizem os contornos da água 
nas estrelas que cantam os rumores oceânicos 
e o efémero do corpo espelha uma qualquer alegria, 
ou seja, uma alegria sem motivo aparente, 
com uma agradável e nítida sensação de leveza. 


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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Ocular



Terão nome, os meus olhos 
que entregam os sinais de primavera? 
Serão janelas 
por onde entram o declínio da luz, 
as imagens dos contornos, 
os medos dos pássaros, 
ou o furtivo dos gatos? 

Sou um pouco mais do que eles, 
os meus olhos, 
que são os de quem, por bem, os procuram, 
sílaba a sílaba, 
em espirais de palavras voadoras, 
os versos. 

Poderão ser espelhos que eu não vi, 
os olhos, os meus. 
Talvez neles consigam lavar as mãos 
ou deixar a dúvida que balbucia a chuva 
dos olhos, dos meus olhos, 
onde sonho os dedos, os meus; 
onde acendo o corpo, o teu.  


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quarta-feira, 12 de abril de 2017

[Céu]


Em Portalegre há mais céu, 
para o qual não comprei bilhete nem fui convidado. 
Nada é definitivo, mas todo este azul é meu, 
assim como toda a sua ilusão 
e, sobre tudo, o seu silêncio. 
Neste céu escrevo um pouco de sombra 
bondosa e indelével, 
que se poderá abrigar na serra 
como um indício essencial de verde e de paz. 


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