quarta-feira, 29 de março de 2017

Gravação


O vento, quase imperceptível, afaga as minhas raízes aéreas. 
Descanso sobre a página, uma folha tenra da primavera. 
Uma folha como qualquer outra, entre muitas outras, 
com pouco e tanto para contar, que segue facilmente 
o andamento lento da luz ávida, contudo, perfeitamente 
incapaz de inundar a cidade mergulhada na aridez de noite. 
Entretanto, a ria, polvilhada de pólen, leva-me para longe, 
com a vontade que eu trazia de me perder nesta neblina 
autêntica, onde deixo as pegadas de um gesto reflexo; 
onde os sentimentos transmutaram a paisagem e o nome 
que te anuncia não te diz e te dá a forma de um mistério. 
Onde está a chave, o destino de ir para onde já me encontro? 


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quinta-feira, 23 de março de 2017

{quando o poema é uma árvore}


Um poema é, por vezes, isto: uma árvore. 
Rebelde, em bruto, que não se deixa, ou não 
se deve, podar; de quem não vemos todas 
as raízes: a origem; com um tronco onde, 
por sensatez e estima, não rabiscamos as 
nossas alegrias, o amor. 


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quarta-feira, 22 de março de 2017

Forma elementar


O meu amor analógico na parte biológica do poema. Sinto frio, 
uma gripe de palavras improváveis que desenterram o que eu 
quero esquecer. Agarro-me, com firmeza, à frieza retórica 
dos números à procura de um pouco de calor. E conto baixinho, 
conto para mim, conto para não pensar em mais nada, 
para permanecer na parte de fora de um qualquer sentido 
que me possa colher da ausência que é esta paz de abstrair 
a mente da impaciência dos números, das palavras, das imagens, 
até adquirir a forma elementar e transparente da brisa que te abraça. 


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segunda-feira, 20 de março de 2017

Pelo prazer ou pelo capricho


É uma margem mais coerente, um lugar mais provável. 
Tudo aqui é mais caro, mas nem por isso mais simpático. 
Ou talvez o brilho monetário do meu olhar seja insuficiente, 
ou é um intervalo vago nesta geografia de conhecidos. 

Vi o que tinha, e o que não tinha, a ver: as grandes bifurcações 
da verdade em lotes normalizados; a beleza artificial entroncada 
na beleza natural com a mesma falta de garantias; a real incerteza 
que não oferece consolo; o brilho sofisticado e apelativo, até a linha 
do horizonte omisso; a sensação ou o traço seguro da presumível 
alegria; a ingenuidade da cidade à procura de espaço e ordem; 
que, afinal, eu sou muito mais livre e feliz do que imaginava. 

Não há pombos. Mas há gaivotas, que procuram a tempestade 
consumista, como uma oportunidade de festim aprimorado. 
Afinal, há excedentes, pelo menos, visivelmente mais apetecíveis, 
ou a imagem táctica da ilusão estatística de poderem existir. 
Por outro lado, também, tudo aqui é mais conciso, mais breve, 
mais curto e depressa se chega ao fim, um qualquer fim. Fim. 


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sexta-feira, 17 de março de 2017

Este silêncio


Este silêncio, que responde à tarde sem nada e ao céu curvo 
de cor-de-laranja de admiração, está cheio de gente. Espantosas 
pessoas que se alimentam de recordações doces do toque calmo 
da mão do sol-poente, ou se esquecem de partilhar o deslumbramento 
e o êxtase irresistível. Como se tudo se passasse com outros ou no sítio 
onde admiravelmente não estão e o instante não ficasse cada vez mais 
longe de qualquer um. Por dentro choram, como se perdessem alguma 
pessoa de família, e por fora sorriem, como se encontrassem a melodia 
oficial de uma qualquer intima, minuciosa e indizível glória amorosa. 
Ou sou eu, carregado de ramos invisíveis de árvores imaginarias e à janela, 
que, sem expressão, não vejo a assinatura do alvoroço de intenções amáveis. 


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quarta-feira, 15 de março de 2017

Não saias pela margem


O ulmeiro abrolha com urgência. 
Sente-se-lhe a ressurreição e a impaciência; 
as emanações das intenções materiais de uma antecipação 
de primavera numa primeira imagem imaterializada, 
contudo, sem o tom profético, mas com o tom de uma absoluta certeza 
que quase fere de morte qualquer ensejo de guerra. 
Não encontro o fio condutor que me conduziu à parte mais nobre do ulmeiro, 
onde eu confiro essa revolução de paz, da qual provo a sua surpresa límpida 
que liberta as palavras das ameaças e as isenta dos delírios dos aracnídeos 
que tentam prender-nos os braços de ar. 


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terça-feira, 14 de março de 2017

Almofada


Recordo-me do arrepio inicial, do coração da história 
que povoa a memória sobre a determinação do silêncio, 
aquele formigueiro de imagens que levam a ria a soltar-se 
do cais e a lamuriar-se pela praça, onde a minha voz sem dor 
me chamava e chama e o amor era um raio de sol no tecto 
do quarto, o palco de um teatro privado de sonhos de encontros 
por realizar. Um mundo invertido que encontrava o seu sentido 
nos dialectos das plantas sem promessas, o refúgio das assimetrias 
das circunstâncias e das razões misteriosas, que é, também, uma 
das origens dos sorrisos estúpidos da invenção do amor analgésico 
e que povoam o esqueleto dos poemas: a sua fonte e base de conforto. 


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