quarta-feira, 9 de agosto de 2017

De novo



De novo, pelos versos da serra de São Mamede, 
onde a poesia está livre de perigo, e sentado nela, 
serra, como que numa grande varanda, diante 
das planícies, da alegre cidade e sob um magnífico 
céu azul, tudo aparenta pertencer aos primeiros 
tempos de almas mais simples. Pouco há a explicar: 
encontro nas palavras um confortável e natural silêncio 
e se me recordo da vida, não é para a amaldiçoar 
ou lastimar, sequer, porque, foi, e é, aquilo que poderia, 
e pode, ser: o turbilhão da cor que quiserem que seja. 


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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Hiper



Visto daqui, e de agosto, maio aparenta ter parido maria, 
durante anos, e uma efemeridade de gemidos de flores 
e de velas, que se apoderam do ar, muito depois 
de tomarem a terra como sua, como frémito de amor 
materno de personagem principal: o ulmeiro, de outros 
poemas, adoeceu irremediavelmente e procura o conforto 
do refúgio absoluto, entre as personagens, e as paisagens, 
secundárias; o meu moliceiro tem a cor da ria e confunde-se 
com ela; sei que nunca irei transformar as madrugadas, 
que não tenho, em dias que ninguém pode ter. Talvez, em 
parte, por isto, o vento se apresse a esticar o acinte da linha 
do horizonte que cia o verde dos grandes acontecimentos. 


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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Rasante



Finjo o olhar. Não há uma sombra. Há um resto de papel 
para os inúmeros caminhos que voam contra o peito cheio 
de pássaros. É preciso limpá-lo, o peito, antes do vento. 
A hora é líquida e a tarde: indisciplinada e sem matrícula. 
Apesar de tudo, há uma réstia de esperança e de felicidade. 
Já me sinto a entranhar no corpo de palavras da noite. Não, 
não é uma réstia, é como que um manancial de possibilidades: 
um livro de contos e dois livros de poesia. A evasão perfeita, 
de momento, ou a ilusão de uma cura vertiginosa e indubitável. 


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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Acidental



Que mais poderia eu fazer? A bibliotecária castigou-me,
(e justamente) sem castigar, com o olhar, fatigado, já no próximo
ano, e com a culpa de todos os males a cair, pesada, no colo
do programa informático, pelo atraso, de um dia, na entrega dos livros.
Um dia de castigo. Já não podia regressar a casa, como pessoa,
e distinguir-me do eclipse que ganha a imprecisa dimensão da ausência.
Fiquei a ler, demoradamente, horizontes e as estradas
de embarcações que representam vidas e passados improváveis.
É a vista do fim de tarde: a ria urbana tão cheia de gente
eventual e os flamingos tomam plena posse da cidade selvagem.
Nenhum moliceiro, ou batel, me poderá levar tão longe
que me tire daqui, nem deste tempo emprestado.


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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Como nas conversas



Na fronteira da área de uma meteorológica conversa,
poderia dizer-te: cá se vai andando, um poema de cada
vez. E esqueceríamos o júbilo das latitudes onde a poesia não
se diz, nem a depressão do seu mais pálido e estranho reflexo
se vê. Mas deixemos o enfadonho rumor e delírio dos pressupostos.

Vamos além das fotografias. Ou entremos nelas,
na imobilidade fulgurante das suas imagens,
sem, contudo, trazermos, ou perturbarmos, a sua
inércia esparsa, vestida de técnica estética.

O verão chegou ao canto das minhas costas
e, voluptuosamente lento, não encontrou saída;
circundou-me; encarou-me; fixou-se num punhado
de sentidos e desenhou formas de transfigurar
os sentimentos dos meus mais fundos nervos.

Acendo-te a minha luz, uma evidência, para que entres
por baixo da minha pele. É possível afugentar a morte.


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terça-feira, 1 de agosto de 2017

Sobrevoo



No que acreditas, e onde cabes perfeitamente, é o espaço
entre o teu subterrâneo e o teu extremo de universo.

A mim, doem-me os pés de tanto voar e as palavras sonham
o poema, longa e desnecessariamente. Desconhecem o ténue
fio do tempo; o seu ponto morto; a sua fugaz espectacularidade;
e a sua linha, frágil, de costura, que se purifica no azul do céu,
assim como no branco da noite que cai depressa demais.
Tudo isto se espessa na espuma de um café expresso, fonte
de resistência, onde, também, falta o tempo, numa miríade
de bolinhas de ar quente, aromatizado e apressado, à procura
de um sentido que ganhe a sua distância, ou que se aninhe
num peito receptivo, num instante certo
e de desnecessárias explicações.


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