sábado, 22 de abril de 2017

Breve


Numa noite mais fácil, bebo a primavera da luz, 
as palavras dizem os contornos da água 
nas estrelas que cantam os rumores oceânicos 
e o efémero do corpo espelha uma qualquer alegria, 
ou seja, uma alegria sem motivo aparente, 
com uma agradável e nítida sensação de leveza. 


 [sobrevoo]



sexta-feira, 21 de abril de 2017

Ocular


Terão nome, os meus olhos 
que entregam os sinais de primavera? 
Serão janelas 
por onde entram o declínio da luz, 
as imagens dos contornos, 
os medos dos pássaros, 
ou o furtivo dos gatos? 

Sou um pouco mais do que eles, 
os meus olhos, 
que são os de quem, por bem, os procuram, 
sílaba a sílaba, 
em espirais de palavras voadoras, 
os versos. 

Poderão ser espelhos que eu não vi, 
os olhos, os meus. 
Talvez neles consigam lavar as mãos 
ou deixar a dúvida que balbucia a chuva 
dos olhos, dos meus olhos, 
onde sonho os dedos, os meus; 
onde acendo o corpo, o teu.  


 [sobrevoo]



quarta-feira, 12 de abril de 2017

[Céu]


Em Portalegre há mais céu, 
para o qual não comprei bilhete nem fui convidado. 
Nada é definitivo, mas todo este azul é meu, 
assim como toda a sua ilusão 
e, sobre tudo, o seu silêncio. 
Neste céu escrevo um pouco de sombra 
bondosa e indelével, 
que se poderá abrigar na serra 
como um indício essencial de verde e de paz. 


 [sobrevoo]



terça-feira, 11 de abril de 2017

Trecho


Os versos do último poema acendem a manhã, 
sem ria. Encontra-me o assédio da primavera, 
no rebordo das miragens insólitas das planícies 
que compõem o horizonte geográfico da tua imagem. 
A tua imagem de futuro, um brilho obstinado de frases, 
a concha do desassossego num escaparate de poesia. 


 [massivo]



sexta-feira, 7 de abril de 2017

Vêm renascer à ria


A cidade enche-se de páscoa. A sua depressão 
de inverno: curada pela chegada da psicologia 
multilingue de olhares ávidos de salvação 
e deslumbre, que, num impulso brusco que pausa, 
seguem a tribo hasteada, com o olhar, para ver longe 
a polpa do seu longe; deambulam nas marés vivas 
de momentos irrepetíveis e na afabilidade do clima, 
onde se exceptua o sobressalto do seu rubor que é 
a demora do meu sol na sua pele, ou algo assim. 


 [massivo]


quinta-feira, 6 de abril de 2017

Isagoge


Encontro, no elevador, parte do perfume que se cruzou 
comigo no passeio. É um perfume sem rosto e, contudo, 
tão gentil, como se existisse para alimentar a minha luz 
interior e não fosse um rastilho de vóltios para um drama 
que a linearidade do outono não entenderia na primavera, 
nesta sinopse verosímil de primavera de possíveis ângulos 
de observação desdobrável. Porém, quando o elevador range 
a evocação de um deus devorador de perfumes que geram 
emoções sob fascínio do anonimato, o dia regressa à vaga 
do fado feito de múltiplos e pequenos pormenores imprevistos, 
os perfumes evaporam e o dia precipitar-se para o encontro 
inevitável e repentino com o escritório à beira da loucura. 


 [massivo]



terça-feira, 4 de abril de 2017

Pela pequena porta


Perco o coração na ria, repetidamente, habituado à rotina de se perder. 
Sei que a primavera é maior do que o pensamento e que não se deixa 
aprisionar em fotografias digitais ou analógicas, em espelhos, na retina, 
nas palavras, nas memórias e estou a tentar senti-la no caule do poema; 
a esquecer as perguntas em chamas, que não se conseguem ver sem piscar 
os olhos, várias vezes, e que aparentam incendiar as memórias à beira 
da reforma ou à beira de um novo rumo que entra nas pupilas cheias de céu. 


 [massivo]



quarta-feira, 29 de março de 2017

Gravação


O vento, quase imperceptível, afaga as minhas raízes aéreas. 
Descanso sobre a página, uma folha tenra da primavera. 
Uma folha como qualquer outra, entre muitas outras, 
com pouco e tanto para contar, que segue facilmente 
o andamento lento da luz ávida, contudo, perfeitamente 
incapaz de inundar a cidade mergulhada na aridez de noite. 
Entretanto, a ria, polvilhada de pólen, leva-me para longe, 
com a vontade que eu trazia de me perder nesta neblina 
autêntica, onde deixo as pegadas de um gesto reflexo; 
onde os sentimentos transmutaram a paisagem e o nome 
que te anuncia não te diz e te dá a forma de um mistério. 
Onde está a chave, o destino de ir para onde já me encontro? 


 [massivo]



quinta-feira, 23 de março de 2017

{quando o poema é uma árvore}


Um poema é, por vezes, isto: uma árvore. 
Rebelde, em bruto, que não se deixa, ou não 
se deve, podar; de quem não vemos todas 
as raízes: a origem; com um tronco onde, 
por sensatez e estima, não rabiscamos as 
nossas alegrias, o amor. 


 [massivo]



quarta-feira, 22 de março de 2017

Forma elementar


O meu amor analógico na parte biológica do poema. Sinto frio, 
uma gripe de palavras improváveis que desenterram o que eu 
quero esquecer. Agarro-me, com firmeza, à frieza retórica 
dos números à procura de um pouco de calor. E conto baixinho, 
conto para mim, conto para não pensar em mais nada, 
para permanecer na parte de fora de um qualquer sentido 
que me possa colher da ausência que é esta paz de abstrair 
a mente da impaciência dos números, das palavras, das imagens, 
até adquirir a forma elementar e transparente da brisa que te abraça. 


 [massivo]



segunda-feira, 20 de março de 2017

Pelo prazer ou pelo capricho


É uma margem mais coerente, um lugar mais provável. 
Tudo aqui é mais caro, mas nem por isso mais simpático. 
Ou talvez o brilho monetário do meu olhar seja insuficiente, 
ou é um intervalo vago nesta geografia de conhecidos. 

Vi o que tinha, e o que não tinha, a ver: as grandes bifurcações 
da verdade em lotes normalizados; a beleza artificial entroncada 
na beleza natural com a mesma falta de garantias; a real incerteza 
que não oferece consolo; o brilho sofisticado e apelativo, até a linha 
do horizonte omisso; a sensação ou o traço seguro da presumível 
alegria; a ingenuidade da cidade à procura de espaço e ordem; 
que, afinal, eu sou muito mais livre e feliz do que imaginava. 

Não há pombos. Mas há gaivotas, que procuram a tempestade 
consumista, como uma oportunidade de festim aprimorado. 
Afinal, há excedentes, pelo menos, visivelmente mais apetecíveis, 
ou a imagem táctica da ilusão estatística de poderem existir. 
Por outro lado, também, tudo aqui é mais conciso, mais breve, 
mais curto e depressa se chega ao fim, um qualquer fim. Fim. 


 [massivo]



sexta-feira, 17 de março de 2017

Este silêncio


Este silêncio, que responde à tarde sem nada e ao céu curvo 
de cor-de-laranja de admiração, está cheio de gente. Espantosas 
pessoas que se alimentam de recordações doces do toque calmo 
da mão do sol-poente, ou se esquecem de partilhar o deslumbramento 
e o êxtase irresistível. Como se tudo se passasse com outros ou no sítio 
onde admiravelmente não estão e o instante não ficasse cada vez mais 
longe de qualquer um. Por dentro choram, como se perdessem alguma 
pessoa de família, e por fora sorriem, como se encontrassem a melodia 
oficial de uma qualquer intima, minuciosa e indizível glória amorosa. 
Ou sou eu, carregado de ramos invisíveis de árvores imaginarias e à janela, 
que, sem expressão, não vejo a assinatura do alvoroço de intenções amáveis. 


 [massivo]

quarta-feira, 15 de março de 2017

Não saias pela margem


O ulmeiro abrolha com urgência. 
Sente-se-lhe a ressurreição e a impaciência; 
as emanações das intenções materiais de uma antecipação 
de primavera numa primeira imagem imaterializada, 
contudo, sem o tom profético, mas com o tom de uma absoluta certeza 
que quase fere de morte qualquer ensejo de guerra. 
Não encontro o fio condutor que me conduziu à parte mais nobre do ulmeiro, 
onde eu confiro essa revolução de paz, da qual provo a sua surpresa límpida 
que liberta as palavras das ameaças e as isenta dos delírios dos aracnídeos 
que tentam prender-nos os braços de ar. 


 [massivo]



terça-feira, 14 de março de 2017

Almofada


Recordo-me do arrepio inicial, do coração da história 
que povoa a memória sobre a determinação do silêncio, 
aquele formigueiro de imagens que levam a ria a soltar-se 
do cais e a lamuriar-se pela praça, onde a minha voz sem dor 
me chamava e chama e o amor era um raio de sol no tecto 
do quarto, o palco de um teatro privado de sonhos de encontros 
por realizar. Um mundo invertido que encontrava o seu sentido 
nos dialectos das plantas sem promessas, o refúgio das assimetrias 
das circunstâncias e das razões misteriosas, que é, também, uma 
das origens dos sorrisos estúpidos da invenção do amor analgésico 
e que povoam o esqueleto dos poemas: a sua fonte e base de conforto. 


 [massivo]



segunda-feira, 13 de março de 2017

Imaterial do amor


O mar, arrepiado, que já viu tantas histórias 
e que se move por necessidade, vai encurtando 
a solidão da praia num abraço que a diminui. 
Ou melhor, que a inclui perfeitamente em si, 
como se a reclamasse como coisa sua, apenas 
sua, na decisão de amar a laguna, que já teria 
tomado, já lhe teria dado o acto misericordioso 
de ria absoluta e definitiva, não fosse o pavor 
da memória humana ter depositado várias 
toneladas de álibis na duna que se extinguia, 
que perdia a memória em rudes prestações, 
na imensidão decisiva de areia de inconsciências 
obsoletas e irremediáveis, que durarão mais 
do que as fotografias digitais de uma indiscrição. 
Junto, saberá a mortalidade por quê, tudo isto, 
na mesma pasta imaterial do amor, em memória. 


 [massivo]



quinta-feira, 9 de março de 2017

Algumas coisas em pequenas partes, sem paisagem


Esta coisa de rebobinar, de iniciar como quem volta a trás, 
pode gastar-se ou partir, tudo coisas de acabar ou a termo; 
coisas que, em verdade, não existem, ou são só coisas. 

Hoje, quando me vi ao espelho para decidir se aparava esta 
coisa que é a barba, encontrei uma coisa assim como um traço 
contínuo, no lugar dos lábios, e disse-me: sorri, coisinha! 
E a coisa compôs-se, mas a barba lá continuou, coisa e tal. 

Há quem procure coisas em mim, uma qualquer coisa 
para desperdiçar, uma qualquer coisa que não tenho. 
Eu não tenho coisas, as coisas não são minhas, embora 
estejam por aqui, em mim, e eu próprio seja uma coisa. 

Entre coisa e coisa, as coisas também nos dão alegria, 
ou a ilusão de o ser ou de a ter, quando não nos coisam. 

Aquela mulher não é louca. E aquele homem, também 
não! Continuam a sonhar, como eu. Somos sempre os 
mesmos a sonhar. Eu procuro coisas nas palavras, ela 
procura coisas pelo chão e ele procura coisas no ar. 
Acredita, eu, em alguns dias, muitos dias, para além 
de procurar coisas nas palavras, procuro coisas no chão, 
no ar e em todos estes loucos que não o são. 


 [massivo]



quarta-feira, 8 de março de 2017

Do dia


Não são falinhas tortas, palavras tatuadas ao acaso 
num papel casual, com uma tinta escura e paternal. 
Gostaria que não necessitasses de uma lei, ainda 
assim cega, para que te reconheçam como minha 
igual, para que te imponham em número, como se 
fosses apenas isso: um número, uma proporção, 
uma simetria, um gráfico… estatísticas de ocasião. 
Mas, num certo sentido de similaridade, deseja-se, 
mas não se espera, que deixem de existir homicidas, 
violadores, corruptos e corruptores… agressores, 
ou a intolerância, o sectarismo, a discriminação... 
Deverias poder estender-te pela ria, sem medo, 
a bradar felicidades em demoradas viagens salinas 
com o tempo das ruas e das marés, que não fecham 
aos domingos. Mas os senhores não mudam, não 
vacilam. Têm a urgência num repasto elaborado 
e fácil, o entendimento de uma hipocrisia milenar. 


 [massivo]



terça-feira, 7 de março de 2017

Dentro


Em alternativa, o dia acerta-se por uma razoável curva estatística 
mecânica, que continua a sonhar, numa intrincada rede de fé 
automática, que se precipita para o persistente sorriso sonâmbulo. 
Digo eu, com a galhardia de um poema a uivar-me na palma da mão 
quente, com estrelas a brilhar sem bússola. As estrelas de sempre, 
que continuam a beber a sede da lua, num tédio de pé, ao balcão. 
Talvez tudo se explique nesta espuma de café, colada à chávena, 
onde deixo as pegadas de uma vida, enquanto a melodia se perde 
nos olhos coalhados e a tua imagem frontal emudece gradualmente. 
Mas, se de facto assim for, é tarde; já não vou a tempo de entender. 
A funcionária já se precipitou, amável e sorridente, a levantar a mesa. 


 [massivo]



domingo, 5 de março de 2017

Possibilidades massivas



A chuva reimprime os pequenos espelhos onde se reflecte, 
nos intervalos, a afeição da lua, sem argumentos adicionais. 
Vê: os sentimentos, mais do que meras palavras, ostentam 
a singularidade e a pluralidade das mesmas letras obstinadas, 
mas abandonam os simulacros de sinais de um passado de 
ruídos, de tormentas de silêncio e de protestos de caminho. 

Não sei se perdi, algures, o caminho tomado no início, ou se 
esse caminho entroncou, naturalmente, neste, onde agora 
me encontro. Sei que o outono deu lugar ao inverno e que 
os seus dias já estendem os ramos azuis, numa determinada 
atitude revolucionária de luz e de conquista de espaço à noite, 
à sua parte visível, para cobrir a terra com o meu verde diurno. 

Conheço estes pássaros nocturnos que, felizes, abraçam os meus 
olhos. Mas deixemos o céu, trago na pele o mar que tirei da gaveta. 


 [massivo]



sábado, 25 de fevereiro de 2017

Duplo traço encarpado



Procuram-me os dedos e os medos das palavras relutantes, 
que se alinham no estertor da linha imaginária, ou lugar- 
-comum, do horizonte que a névoa ainda permite, antes 
do abraço, o seu humedecido abraço de fim de inverno. 
As palavras servem-se da névoa para, primeiro, aderirem 
ao rosto e, de seguida, se entranharem na pele e fluírem 
pela imprevisibilidade das células, percorrendo o corpo 
para florescem, talvez ao sabor de um qualquer acaso, 
capricho sanguíneo ou arrepio cerebral analógico. Mas, 
o mar abre-se aos meus olhos, que se abrem ao mar, 
e assim fica o corpo de um sorriso, num dia suspenso, 
num colossal estribilho, entre o cliché do mar, dos olhos, 
da abertura e da iminência. Outra forma serena de viver. 


 [massivo]



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Extrospecção


A alegria aérea da ria e a indecisão do crepúsculo 
da cidade, fundem-se e assemelham-se a um 
capricho de névoa para embalar as palavras. 
O outro poema que está no grou de papel 
e eu estou aqui (o nome do lugar nada acresce 
ao poema), a olhar para o vazio, vocês sabem 
como é, de um pacote cheio, sete a nove gramas, 
de açúcar, mas não sabem porquê ou se eu sei, sequer.


 [massivo]



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Latente


Aqui mergulha a cidade, onde já me confundo como parte 
desta margem indistinta e a desobedecer à solidão e ao mundo. 
Não sei bem há quantos anos-saudade percorro estes canais. 
As palavras não o dizem. Nem os meus olhos dizem a forma 
da tua boca, do teu nariz, dos teus olhos… De todo o teu rosto 
completo pela luz do luar, o brilho solto que inventa labirintos 
para o amor desvendar em várias velocidades e compassos. 
Aqui, longe das areias movediças das conjecturas, as emoções 
são lugares contínuos e habitáveis: o fermento da existência. 
E a cidade prossegue, sob a ria, por passagens subterrâneas. 


 [massivo]



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Moleza


Gosto de dias assim, dias em que o rebordo das palavras límpidas 
espelha a azáfama do Sol, que se multiplica em beijos meigos, 
e o brilho dos pássaros no céu aberto. Céu de um magnífico azul 
tenso. Exemplifico o azul tenso, como aquele azul que os nossos 
olhos, não muito líquidos, nem muito secos, prolongam em bondade 
humana, de um horizonte a outro horizonte diametralmente oposto 
e a todos os seus confinantes laterais e sucessivos, num céu imaculado 
e de fundo inalcançável; absoluto, quando em alto-mar e cerca do 
meio-dia de um dia perfeitamente limpo e de uma qualquer primavera. 
Eu fico imóvel, com o corpo no tempo, enquanto os lugares passam. 
O lugar, como uma medida de tempo, e o tempo, como um destino. 


 [massivo]



domingo, 19 de fevereiro de 2017

Razões


Ria, ria, ria… Corpo emotivo de sentimentos em flor, à flor 
da pele; a sensação perene de presença e pertença inadiável; 
o subconsciente da constante partida sensível e exaustiva. 

A ria cheira a fim do mundo. Mas os seus olhos são um 
sorriso de domingo e quando diz: «Boa noite!» A poesia 
acorda em palavras que dizem o amor, numa forma 
eterna de companhia. Os seus dedos brincam nos meus 
olhos de criança entreaberta, onde não há nada a perder 
e as palavras ainda acreditam na inclusão de um abraço. 


[massivo]



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Esfera


Não te lembras. Já não te lembras de mim. Lembras-te 
de uma certa imagem que constróis como absoluta, 
mais propriamente tua, onde já não sou cuidadosamente 
eu, ou onde já não vive o meu ralo reflexo, o meu olhar, 
ou a ideia que de mim tenho e existe, ao meu curto alcance 
de espectador exilado da pátria dos instintos. Sou, já, 
a imagem que o tempo guarda num inventário de tons 
legados pela acção erosiva da sua passagem e a projecção 
num aglomerado de palavras e histórias que os caprichos 
da memória redistribuíram num puzzle de ruídos e juízos. 
Talvez como a imagem que de ti guarde. 


 [massivo]



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Sem legendas


Por ali, os gatos gostam de se enroscar por entre as silhuetas 
floridas de moliceiros e de figuras geométricas, que desconhecem. 
Ficam alerta, nessa protecção imaginária, numa realidade suportável, 
a aguardar por uma qualquer eventualidade fora do seu alcance, 
ou da acidental visita de um belo exemplar de ave, que se adeqúe 
à sua necessidade ancestral e instintiva de saciar a fome quimérica. 

Ali (ou em qualquer outro lugar), há uma eternidade, despudoradamente, 
muitos dos homens, velhos da minha idade, sentados ou de pé, 
enroscados nos casacos inquietos de inverno, de caso pensado, 
lançam os seus olhares ávidos e aflitivos sobre as mulheres, como 
se estas fossem presas, meras mercadorias, ou, propositadamente, 
aves, adequadas ao cortejo do apetite sexual, o seu único e possível. 

Observo, com pudor, com uma escuridão nocturna no olhar. Temo lançar 
um brilho indiscreto, ainda que simbólico, antes de ser, ou ter, outra alma: 
um pássaro; entre as cicatrizes da minha visão ou dos seus sobressaltos 
fugazes. Enrosco-me no poema, presa de mim mesmo. O meu retrato 
é uma linha na minha mão e guardo-a naquilo que é, vagamente, um bolso 
ou a ilusão de o ser, mas, ainda assim, um local à disposição e repetível. 


 [massivo]



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O bengaleiro


Tentarão catalogar-te pela roupa que vestes 
ou deixas de vestir; pela música que ouves 
ou ignoras; pelos livros que lês ou não procuras; 
pelo riso que dás, ou não; pelo que escreves 
ou deixas de escrever; pelo que afirmas, ou 
pela maneira como o dizes… Por qualquer 
outra forma, mais ou menos fácil ou indirecta. 
Posso emprestar-te um espaço do meu bengaleiro 
de guardar classificações, ou seja, o meu descomplicado 
bengaleiro de adiar rótulos alheios por tempo indeterminado. 


 [massivo]



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Poderia


Poderia encher-vos os olhos com palavras sobre as plantas 
e as suas flores, que, por diligências, artes, engenhos e zelos 
camarários, renovaram a beleza aos jardins, aos canteiros 
e aos vasos da cidade, trazendo uma imagem, desimpedida, 
e a esperança, de primavera. Povoaria as distâncias do vosso 
imaginário com as sementes e os frutos do aroma, do som, 
da textura, da cor. Ocuparia, intensamente, o vosso frágil 
corpo, com a luxúria das raízes de uma melodia erudita, 
para vos segurar, final, firme e inevitavelmente, com e pelos 
afectos, no rodopio emotivo, já fermentado e consistente. 
Mas, pergunto-me se o homem que abrolha junto ao centro 
comercial, para aí pedir sopas, há anos, de manhã até à noite, 
bem noite, terá, por gentileza, uma sopa para mim. Os versos 
não têm. 


 [massivo]



Saltar da página


Nada me dói mais do que saltar da página, quase a dormir 
e a esquecer o futuro. É quando se ouvem as palavras 
a soluçar e se vê o poema a queimar o poeta, pelas costas; 
é quando os olhos ficam vazios e já não choro as lágrimas 
dos outros, ou as minhas, e apago a luz à poesia, que fica 
entregue aos seus fantasmas ocos, mas estrepitosos; 
é quando me entrego a um tempo que já não me convém. 


 [massivo]



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Transitivo


O vento apagou a luz, mas não levou consigo as palavras. 
Abro a alma, fecho os olhos, não sei o que fazer ao corpo, 
e deixo-me cair no abismo da espera e dos pensamentos. 
Aí, conta-se o infinito, sem dor, sem medo, sem mágoa; 
dilui-se a importância, o tempo, a própria vida e o lugar; 
despe-se a superfície espessa dos dias, toma-se a forma 
da sombra como fé, sem a luz excessiva da esperança; 
desliga-se o vento e, por algum acaso, quase sempre 
se encontra o trilho que há-de salvar a ilusão de existir 
para tragar a hipótese da escuridão irremediável. 


 [massivo]



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Pano de fundo


O escritório espera por mim, depois do café que não foi, e eu não 
estou muito sociável. Não quero partilhar a brevidade do espaço 
e a cubagem do tempo do elevador com a estranha árvore de saltos 
altos que me ultrapassou, há instantes, na cerimónia da calçada. 
Não por me ter ultrapassado, mas pela ramagem imaginária 
e dolorosa que se lhe adivinha e pela brisa angustiante que exala. 
Ou, talvez, por temer que esse brilho seja o meu reflexo concreto 
e conclusivo, a minha natural imagem elementar e decadente. 
Eu subo, com o meu mau feitio, com as minhas raízes enleadas, 
mas vou pelas escadas, depois destas palavras escorregadias 
se colarem ao triste e húmido papel amarrotado: a minha pele. 


 [massivo]



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Céu azul de palavras


Há um céu muito azul, por vezes um pouco menos, 
ou seja, há um céu azul de palavras, onde cabem 
as coisas que deixámos por dizer e que nunca diremos; 
onde cabem todas as substâncias, as grandezas 
concretas e o não concreto do que dissemos e não, 
por outras formas que não as das próprias palavras 
ou por elas mesmas, as palavras, embora diferentes; 
onde cabem todos os azuis e todas as outras cores… 
No fundo, onde tudo, tudo, cabe na pele que eu sou. 

Há dias em que o céu azul de palavras se despe à chuva, 
com um sangue frio, com o sangue quente, como se fizesse 
parte dessa mesma chuva fria e quente. É, então, uma chuva 
de céu azul de palavras a romper por trás dos olhos do espelho, 
que é a alma, e que não se cansa de disseminar o azul real, 
que tanto, tanto, tentam justificar e que escolhe as ruas à sorte. 



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sábado, 28 de janeiro de 2017

Noite nova


Passavam pessoas, nuvens e horas, com razões 
que lhes desconheço. Ambos se apressam 
a abandonar o inventário, com a sua própria 
música e matiz urgente. Sob a sintaxe do olhar, 
dir-se-ia que fogem. E talvez fujam destes seis 
graus tão frios, que há cinco minutos eram 
tão diferentes, tão quentes, de tão rentes 
ao pôr-do-sol e ao peito. 

Não sigo a tribo e não há tristeza no que sinto. 
Um pássaro nocturno explica-me a noite: 
É noite nova de um princípio de lua que tarda, 
abraçada a saudade do que sempre foi saudade, 
e a ria está tão saturada que não conseguiria 
diluir-me, ou disfarçar-me, no seu rosto. 

Naquele contrário que o mundo consente, 
há passeios e abraços que acabaram e um 
apontamento para endireitar mais tarde. 

Igualo-me à paisagem, como um seu contorno. 
Os versos aparentam ser habitáveis, parte de um 
sentido de tempo que chega de viva voz. 


 [massivo]



segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Visitação


Tropeçou em mim, na minha parte mais 
desacompanhada, e entrou na página 
em branco, mais gonçalinho do que são, 
à luz aflitiva e incontornável do vazio. 
Evitou, pacientemente, a página anterior, 
onde, num poema, choviam, há dias, cavacas 
doces e onde eu sorria, para contrariar 
o mundo. Aninhou-se na curva de tempo 
entre as minhas incertezas que concebem 
a tentação de suprimir problemas e a dança 
dos mancos. E aí permaneceu, imprevisível, 
por acaso, para nos questionarmos, mutuamente, 
sobre quem somos, o que somos e porque o somos, 
enquanto eu sorria, agora, para desmentir a vida. 


 [massivo]



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

No rebordo da cidade


Em algumas noites, alguns canais da ria assemelham-se 
a profundos corredores de casas antigas, cheios de névoas 
misteriosas e intangíveis, e adquirem a dimensão do infinito. 
As madeiras, dos seus ocultos cais, rangem como os velhos 
soalhos agarrados à noite, à mercê das reticências térmicas. 
Sim, nessas horas são reticências, ou seja, um pouco depois 
do céu se repetir no espelho de água, como uma saudade 
sólida. E tudo se pode agigantar para os que assistem sós, 
ou pouco acompanhados, e à proporção dos seus próprios 
receios. A não ser que estejam envoltos ou desprevenidos 
numa qualquer saudade, porque, tudo aquele cenário é, 
não por um acaso, apenas: saudade. 



 [massivo]



domingo, 8 de janeiro de 2017

Nos braços da lua


Passar o fim-de-semana nos braços da lua, 
entre salinas abandonadas e pássaros distraídos, 
à luz incomparável do inverno muito alto, muito 
acima das minhas probabilidades. Vaguear, não 
volúvel, na deliciosa melancolia de ler o céu 
e o apego da ria à vida pejada de andaimes, 
na companhia compreensível de versos aéreos, 
nem por isso fáceis, e o coração na minha boca. 
Ah! O abraço inteligente de uma saudade, 
ilustre e conhecida, de olhar rigoroso. 



 [massivo]



sábado, 7 de janeiro de 2017

O meu infinito


Como se sentisse a resignação das árvores, 
o mar fala do caudal do frio, frio, do inverno 
e do seu incomensurável tempo, o tempo 
autêntico. Tão excessivamente real que real 
encandeia. Então, fecho os meus olhos. 
A noite nem sempre é fácil ou tão real. 
A vida segue e segue, uma vez na vida. 
Já vivo, vivo, o meu infinito no meio cheio 
de palavras. Não quero ser o que micta mais 
longe, ou o que mais, ou menos, defeca;
o meu nome não importa, muito menos a sua 
imortalidade. Se fico: fico; se vou: vou. 


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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Epifania


Sentado, com se estivesse numa fotografia, ajudo 
as palavras a dobrarem-se pelo sentido, feitas de 
outras palavras, por outras palavras, sem se dizerem 
a si próprias, propriamente. O poema absorve-as e, 
através delas ou por elas, ganha a forma, o modo, 
o estado, para habitar, primeiro, a mente e, depois, um 
qualquer ponto indistinto entre a possibilidade e a imaginação. 
Convém, ao poema, servir de trampolim ou de agente 
que proporciona o salto. O seu conjunto de palavras 
funciona, assim, como força de propulsão e fica liberto 
do salto fotográfico ou abstracto, ao qual só ele próprio 
teria acesso e ele mesmo encerraria, como uma imagem 
estática e abandonada de si ou do seu próprio sono. 
Ao poema convém que as palavras saltem, também, 
mesmo que de indiferença em indiferença, já na memória, 
que não é a sua; noutros sentimentos, noutros afectos 
noutras sensações, noutras histórias, noutras ilusões. 
O poema gosta de passar e agitar as folhas, as cortinas, 
as almas; de acordar os, ou de se enroscar nos, sítios 
mais íntimos, onde se sonham as coisas que não se dizem; 
de mostrar os momentos que sabe não se encontrarem 
em si ou fora de si, já não puramente factos ou fantasias, 
mas: poesia. 


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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Um novo ano


Um novo ano precisa de pulmões, aliás, precisa de todo um corpo… 
Pode não ter pés, mãos… Mas necessita de uma cabeça e de um coração. 
É-lhe necessário o silêncio. E a imaginação, porque: se não conseguir ver, 
conseguirá imaginar toda essa hipótese da realidade, a probabilidade 
das cores, a contingência dos espelhos, as múltiplas formas dos afectos… 
E, se não conseguir ouvir, conseguirá sonhar a invasão da possibilidade 
dos gemidos, a eventualidade de um beijo, a casualidade dos sorrisos… 
Sobre tudo, um novo ano, dispensa olhares, palavras ou gestos hostis. 
Depois, é só sentir-lhe o irresistível balbuciar de existências e cada um 
seguir com a sua própria, socorrendo, eventualmente, outras, no implícito 
e secreto negociar dos dias, dias a fio, onde, talvez nos possamos perder 
de novo. 


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