domingo, 29 de julho de 2018

Distracção




Não interessam as páginas que faltam ao capítulo digital do sobrevoo 
de uma página, também ela, digital; nem o seu próprio esquecimento. 
Estremece-me a forma da possibilidade de ingratidão que vejo em mim 
e alimento linhas que possam remediar os voos que não o puderam ser. 

Entretanto, observo. Vivo o tempo. Não julgo, ou julgo não o fazer. 
Creio que, o senhor, de longas barbas brancas, procura uma qualquer 
coisa nas raparigas de calções muito curtos. Será que, também eu, olho, 
assim, para as coisas da vida? Que longas, ou curtas, coisas se veem 
em mim? O que não estarei eu a ver na pele lisa e bronzeada, que muito 
parece gritar às barbas de uns e aos rostos bem escanhoados de outros? 
Ou terei eu, ou serei eu, essa expressão astuta e predatória de animal 
faminto, que vê nos outros coisas que em mim existem? Haverá alguma 
qualquer espécie de crime, numa qualquer espécie de olhar? 

Não ressuscita, nessas carnes que passam, o corpo que poderia ebulir 
no intervalo dos braços de mãos desarrumadas e ferventes, uma que escreve 
outra que segura o papel; não me resvalam, ou trepidam, nádegas ou seios 
pela mente, não por uma espécie de moralidade, ou de censura, ou de pudor. 
Fecho os olhos. Há um vazio luminoso que se enche de magia, cidade e ria. 
Sou eu, outra vez! 


[sobrevoo]



3 comentários:

  1. Curiosa, a utilização do figurado de «ressuscitar» e seu resultado, e todo o encadeamento de ideias. :)
    Um muito bom poema!
    Bjks

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  2. No fundo... não haverá distracções... que pelo menos nos afastem definitivamente, daquilo que merece a nossa atenção maior... nós mesmos, em essência... e mal de nós... quando não nos achamos de novo...
    Mais uma belíssima, profunda e intrincada inspiração... que lá está... nos mostra que... és tu, outra vez!...
    Deixo um beijinho, e um abraço... para perdurar até ao meu regresso, lá para Outubro... :-))
    Tudo de bom!
    Ana

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