quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Arrumar a vida




Traduz-me esse teu abraço de ombros encolhidos, 
Tão abraço, tão dentro e tão breve. 
Só lia e só conhecia os teus abraços de ombros caídos. 
 
Talvez te consigas expressar, dar uma pista. 
Dizer qualquer coisa, de uma qualquer forma, 
Antes que o cão chegue, te ladre e a vontade desista. 
 
Os teus olhos parecem perdidos e infelizes. 
Mas brilham, como algo que se anuncia. 
Por dentro, qualquer coisa me mia, 
O cão não chega e tu nada dizes. 
 
Talvez não vejamos e sejamos aprendizes. 
Partes repetidamente, para voltar um dia, 
Para ser uma substância da fantasia 
E largar, no contexto da minha pele, os teus matizes. 
 
 
 [miscelânea] 
 [04 de agosto de 2021] 
 
 
 

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Minutos de viagem




Ó motor elétrico, quase silencioso 
– Digo eu de volante em punho – 
Que me trazes a casa tão diligente, 
Em explosões [eu] de raciocínio e gozo, 
Agradecendo a planura da humilde estrada, 
Que nos carrega, tão indiferente. 
Ó motor elétrico, quase como se fosses meu, 
E eu quase me esqueço de ser ateu. 
 
Ah, acelerações suaves, progressão decidida, 
Que sonho lindo de viagem utilitária. 
Se não vamos a tempo de salvar a Vida, 
Salve-se o Verão e a postura gregária. 
Ecologia. Ecológico dentro de ecológico. 
Fantasia. Quase esqueço o dia ilógico. 
 
Consigo ouvir pensamentos em negrito: 
-Que merda, com ares grife e pingente chique! 
-Credo! Regurgito, regurgito! 
-Não sei se chore, se vomite! Se vá ou se fique! 
-Que bonito, que bonito, que bonito! 
-Que é isto!? Não acredito… 
 
Ouço de tudo e entrego-vos a uma Nossa Senhora; 
Ou à salvação a que vos quiserdes entregar, e se aplique; 
A um mantra poderoso, ou a uma ladainha protetora. 
Denunciem-me. Denunciem-me, até que acredite. 
Entretanto, eu, faço o resto do caminho a pé, 
O veículo não me sobe as escadas, nem por fé. 
 
 
 [miscelânea] 
 [03 de agosto de 2021] 
 


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Fluição




O meu cão vê mal e é muito teimoso, 
Assim como o teu amor. 
Respira, liberta-te desse peso dengoso. 
Não sentes como te sufocas 
E a quem tanto queres feliz? 
A tua liberdade reza por ti 
E a confiança brama sob os teus pés. 
Deixa fluir, deixa fluir. Ah, deixa fluir. 
Tropeçaste já tantas vezes. Tantas. 
Tropeçaras outra mais e, talvez, agora. 
Tropeçamos todos. Não vês como eu tropeço? 
Sai dessas horas indecisas e febris, 
Dessas estórias em que a tua vida não é a tua, 
É apenas uma suposição imprecisa e titubeante, 
Que te deixa, e a todos, uma possibilidade de agonia, 
Onde já não és tu, onde a tua vida é a de outra; 
Onde todos se desigualam do que são; 
Onde não param de crescer os enredos e os monstros, 
Ou os unicórnios e os lendários finais felizes. 
Ah, deixa fluir. Deixa fluir, fluir. Flui. 
O meu cão vê mal e é muito teimoso. 


[miscelânea] 
[01 de agosto de 2021] 



quarta-feira, 28 de julho de 2021

Deambulação, com personagens




Tu, uma porção de amor a arejar na rua, 
Na rua, talvez, talvez, poema. 
Vais de rosto encoberto e de olhos expostos, 
Por onde te entra o mundo e a verdade crua, 
Por vezes, por vezes, sem veres uma coisa e outra. 
Mas, que sei eu de ti, de mim sabendo tão pouco? 
 
Por momentos, por momentos, eu estou, 
Ou a minha consciência de mim, de mim, 
À superfície da tua retina, tua, 
Como um fio inexpressivo de gente; 
Como um vulto indiferente; 
Um instante de realidades que se cruzam, 
sem cruzar, sem factos. 
Nada se vê do que me vai na algibeira da alma, 
Se nem o meu rosto consegues ver. 
Que verás, nos meus olhos, da minha paciência? 
Que julgarás saber de ti em mim, 
Se, por ventura ou por acaso, algo de mim em ti ficar? 
Nada ficará do nosso rosto. 
Nada para além da possível e casual incógnita. 
 
Eu, uma porção de amor a arejar na rua, 
Na rua, certamente, certamente, poema. 
Vou de rosto encoberto e de olhos expostos, 
Por onde me entra o mundo e a verdade crua, 
Por vezes, por vezes, sem ver uma coisa e outra. 
Que sabes tu de mim, de ti sabendo tão pouco? 
 
Por momentos, por momentos, tu estás, 
Ou a minha consciência de ti, de ti, 
À superfície da minha retina, minha, 
Como um sinal expressivo de gente; 
Como um vulto significativo; 
Um instante de realidades que se cruzam, 
Atravessando a verdade, sem factos. 
Nada se vê do que te vai na algibeira da alma, 
Se nem o teu rosto consigo ver. 
Que verei, nos teus olhos, da tua paciência? 
Nada julgo saber de mim em ti, 
Ainda que, com propósito, algo de ti em mim fica. 
Nada ficará do nosso rosto. 
Nada para além da possível e casual incógnita. 


 [miscelânea]
 [28 de julho de 2021]


segunda-feira, 26 de julho de 2021

Céu autocolante




Aveiro, por estes dias, cheira a asfalto quente, novo; 
Embota-se em múltiplas obras, particulares e camarárias. 
A cidade reclama, reclama sempre e invariavelmente, 
Das obras que, se não se fazem, urgem, de todo, ao povo 
E, ao fazer-se, para os mesmos, são de todo desnecessárias. 
 
O pensamento vacila entre o habitável e o inóspito, compasso, 
Como quem acaba de encontrar a realidade oscilante. 
Os relógios procuram, apenas, a paz desentediante 
Na cidade, nos amigos, nos sentimentos, no tempo, no espaço, 
Todos em obras, todos a ronronar ao céu autocolante. 
E eu, o que faço nestes refúgios imaginários de embaço? 
 
De uma ou de outra forma, dançamos com os vírus, 
Na abundância da solidão e no infortúnio dos suspiros, 
Agarrados aos dispositivos, chamados de “pessoais”, 
Profusamente escrutinados em processos institucionais 
Ou em procedimentos de salteadores digitais. 
 
A cidade reclama, reclama sempre, e cada vez mais, politicamente; 
Tudo é um drama, trampolinice, hábito, recôndito, hipocrisia. 
Nesta barafunda, levam-te a credulidade, a consciência e a alegria. 
Séculos de ninharias reduzidos à volúpia de quem mais mente. 
 
Que saudade do ulmeiro, o meu bom e velho amigo, 
Transplantado no outro lado da cidade, parque dos amores, 
Estagnados, onde, agora, concede abrigo. Podado abrigo. 
Paupérrimos braços, ramos, de paupérrimas cores. 
Delimito o prazo; protelo o abraço; realizo a visita e prossigo, 
Com a fragilidade das pequenas coisas, repletas de rumores. 
E, sim, tenho fantasmas que se assustam comigo. 
E amo de Aveiro. E amo Aveiro. 



[miscelânea]
[20 de julho de 2021]



segunda-feira, 19 de julho de 2021

Fim e Início




Num olhar, carregado de gestos e dons,
Aguardas que desça do mar; que me vire;
Que me dispa dos reflexos e dos sons.
Pedes que me sente um pouco. Que respire.
Que tome uma posição natural, leve.
Dizes que, talvez, a ilusão baste para poder viver
E, como a vida, serás, simplesmente, breve.
Pedes que veja, ouça, sinta, saindo das emoções.
Estás num caminho que não te pode deter,
Que te movem distintos sentimentos e sensações.
Desenho um sorriso, como nos sorri uma errata.
Salta, a cidade, de encontro ao mundo e às obras,
Numa modernidade impressionante, que se quer imediata,
Ou que alguém não quer de todo. Um gesto de sobras.
Não encontro as palavras que me possam sobressaltar,
As palavras não encontram em mim o sobressalto
E o sobressalto está de cabelos em pé, sem palavra; sem ar;
Sem mim; sem trindade e sem princípio ou fim.
É o tempo onde tudo se apaga, ou dilui, e o tempo é um salto;
O mamilo dilatado que se abate; e o teto de um jardim.
Entretanto, antes e depois, sou livre e o desembaraço.
E posso não me sentar, não ouvir, não sentir, não ver…
Ou ser o abraço, tão só o abraço, tão tudo num abraço.
E, como uma ilusão, ser nada.
Não se chora o que não existe.
O poema não chora porque partiste.


[miscelânea]
[vários dias, até 19 de julho de 2021]

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Um abraço intencional




Eu tenho andado, isolado e adunado, a ajudar a resolver o mundo
e descobri, em mim, seres estranhos e, eventualmente, inúteis,
que tem passado os seus dias de entendimento a ignorar-me.
Estes dias são, desde sempre, iguais, figuras diluídas e hesitantes;
uma representação vacilante de encontro e desencontro em nós.

Talvez devesse dizer, para início de verso, ou pretenso poema,
que está um certo frio, frio, onde me calo e chove dentro;
que as palavras têm criado mais sentimentos do que textos e harmonias;
que o ulmeiro deixou cumprimentos, antes de libertar a sua
aparente letargia, que não terão visto, logo no início da primavera,
logo agora que tínhamos mais tempo, num tempo que urge.


[miscelânea]
[22 de maio de 2020]


sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Para início de conversa




É o inverno retorcido e pegajoso, de cabelos em pé: 
Depois de uma chuva e um vento, com vidraça, obstinados; 
De um trilho de guarda-chuvas fortemente estropiados; 
De uns dias de igual dimensão, com menos luz e menos fé. 

O dezembro vai poderoso e não consegue fingir a maré, 
De nu que está, irredutível em não repetir tempos passados 
E a terra deseja criar e recriar e criar, com versos molhados 
a dissolverem-se, inevitavelmente, num infatigável rodapé. 

Agora, o sol, figura mais precisa, mas hesitante, de um apego 
De olhos abertos de espanto, vinca a paz do perene desassossego, 
Sôfrego, a mostrar que tudo permanece nos seus lugares enfadonhos. 

Quero surgir no avesso, do teu avesso, como que um aconchego, 
A suavizar a teia de Natal, onde nos suspendem os sonhos, 
Para resgatar-te desses anjos anafados e vagamente risonhos. 


 [miscelânea]



sexta-feira, 6 de setembro de 2019

extensão




o céu e o ulmeiro, de março, pejados de folhas novas, felizes,
tão repletos de aveiro, tão dentro e tão fora de nós e de si, agora,
afinam, em sol, o calor que nos enxuga o fantástico do horizonte
e que ofusca o imaginário do chão menos aprazível de um agosto,
já setembro, onde, há anos, tantos, continuas a ser maior e melhor,
e onde eu procuro ser mais do que irreal; mais do que uma chaga;
entender ou recordar a razão que me retém na inércia da história.
não é, não há, um arquivo e eu sou mais do mesmo que nunca serei.
na confissão do tempo, olho para trás, o cansaço de uma ilusão de óptica;
o encontro da felicidade nos tristes poemas tristes dos dias menos bons,
que são a canção de quem eu sou, no singular, o que não sabes nem vais saber,
para abreviar. deixemos o tempo, o céu, o ulmeiro, cada um no seu lugar.
por aí, eu sou a ideia de luz sem ouro na tua auspiciosa fantasia.
por aqui, olha, outra vez, e eu já não estou, já não estou só.


 [miscelânea]



quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Peça




O ulmeiro olha, em redor, num fingimento de não ser, 
de não ver, como quem olha para dentro da raiz. 
No fundo, coisas de quem vai perdendo a folhagem 
agastada, já dourada; coisas de quem vai sopitando. 
Aveiro é, agora, a ilusão da luz das ruas e das janelas. 
A cidade enrosca-se, como se aguardasse, em si, dias 
mais longos e mais quentes, ou uma ideia de calor; 
como se guardasse a maré viva, ainda bem viva. 
Mas, é a chuva que, a pulso, estabelece a ordem, 
ensopando, cuidadosamente, o ar, a terra, os canais. 
E nada disto é novo, nem a delicadeza dos olhos da casa. 


 [miscelânea]



quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Pequena pressa




Aveiro aproxima-se da veemência de um pensamento 
lateral e a ria reluz, figurada, sem resposta imediata 
para o céu de pressa, negrito, sublinhado e aristocrata, 
que é uma membrana de constrangimento. 

Pressa. A pressa da palavra que ultrapassa. 
A prece da palavra que vem atrás, à pressa, 
pela pressa da palavra que atravessa, não atravessa. 
A armadilha da pressa na mensagem que não passa
e a poesia não garante a integridade da informação
de um caminho incerto e que surge em contramão. 


 [miscelânea]



terça-feira, 6 de novembro de 2018

Aniversário


Ao meu pai


A pedra pergunta «lembras-te de mim?» com se dissesse, a gosto, 
a vida, devolvendo o eco da interrogação involuntária do meu rosto; 
e a chuva cai, como é usual precipitar-se: indiferentemente. 
Acendo o teu aniversário. Dizem-me que, aqui, tudo termina 
mas, é aqui que inicia um universo de ternura que me ilumina. 
Olho, sem ver, o tiritar da chama da vela condescendente; 
não vislumbro céus ou infernos, apenas uma ou outra alegria 
e cenas dispersas, tingidas de bruma e de pó consistente 
com a exactidão que a memória tenta garantir às histórias e a fantasia. 


 [miscelânea]