quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

existência insubordinada

  




que importa se é noite e chove 
se vejo ou não vejo ao longe a laguna 
se estou ou não estou numa duna 
se há quem aprove ou não aprove 
se o ambíguo é equívoco ou lacuna 
se as frequências não são sincronismo 
se sou ou não sou a soleira 
a periferia é um abismo 
eu retiro a minha lua da algibeira 
este meu inferno é apenas uma fogueira 
e a contrariedade é meu trivial baptismo 


  

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

as máscaras vestem-se de pessoas






pudesse a cobra branca voltar a falar comigo
a água de novo brotar da árvore
e não seria eu um demente sem abrigo




segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

um movimento






a lembrança alcança a sombra que ajusta
num pranto provido apenas por morfemas
a troco de uma cidade que ficou para trás
em veredas de múltiplos sigilos
um labirinto vazio de água em silêncio
num percurso extravagante em pedra calada
mergulhados na magia de um luar ancestral
que ainda mais se silenciam e ocultam para te ouvir
provável beijo arrebatado sem ria
e ponta solta de um abraço devoluto
naquele momento em que o frio é um trocadilho
e o movimento é apenas um sorriso e um olhar


  
   

domingo, 15 de dezembro de 2013

beijo da mente






os sargaços descansam
oscilam ao sabor da corrente
num prenúncio de agregação persistente
onde os meus olhos não alcançam
no moliceiro me pinto ausente
sem empáfia e onde os sonhos dançam
em indícios de equidade que afiançam
à margem da cidade urgente
e da imprevisibilidade insistente
no momento em que os sorrisos se desentrançam
e o desejo é um beijo da mente

  
   

sábado, 14 de dezembro de 2013

coisas de uma ria




na ria flutuam marionetas
e é forçada a tragar bicicletas
ela mostrou-me o céu em franja
em vários tons de azul, purpura e cor-de-laranja
assim como o firmamento de fantasia
os seus peixes e reflexos de inspiração esquecida
a adoração e a crença perdida
mostrou-me dias e noites de poesia
e que toda a realidade é uma utopia



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

nem te contei

  
reazon
  

nem te contei, nas minhas conversas ermas,
carregadas de subjecções tácitas,
tomado que estava por um sorriso irreprimível,
à luz da noite sem lua implícita.
logo agora que o mar poupou o meu castelo
de areia e algas,
creio que perdi a razão.
não te escandalizes, se a encontrares,
ela anda, por aí, humilde mas, nua,
como assim deve ser.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

no momento simples e definido


cais dos botirões e dos mercantéis e praça do peixe



já excedi o tempo e o espaço de proferir um palavrão perdido
ainda assim consecutivamente a minha essência não faz sentido
o norte e o leste não está gasto nem o oeste e o sul foi esquecido
quando chego interrogo-me sobre o porquê de ter partido
recordo o porquê de não poder ficar quando parto partido
todos os dias te escrevo sem cansaço mas cada vez mais dorido
a vida dói-me de todas as formas mesmo quando não tem doído

 
  
   

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

condição

   


ficaria ali indeterminadamente
imóvel
fustigado pelo vento gélido
a olhar para o horizonte
para os confins da instrução do mar
mas a noite apagou o traço e a linha
e agora estou em parte incerta


   

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

apenas resistência





a ria abandonou a fundamental igualdade
a cidade está desampara e frequente
à mercê dos esgares do frio palpável
que a realidade arrasta indefinidamente
e que invariavelmente se expande
sustenho a respiração
reuni as memórias em espirais que cingem
apenas a eventualidade
numa caminhada nocturna
e partilhei designações na acidentalidade de abraços derivados
que invento para o gáudio do entendimento reiterado
regresso pelas mesmas vielas de pantomimas
num ponto de inflexão indefeso e desconexo
onde não há qualquer glória
apenas resistência que roça o benigno desapego


   

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

fragmento





ao início da noite alcantilada
a realidade executa o irrealizável de um afecto
de um sentimento
de um processo sensitivo
onde não é possível inverter a marcha
sob a ria que é o meu espelho furtuito
ausenta-se o movimento
assim como os fragmentos do tempo e do espaço
percebo que os sonhos também sonham
mártires da sua própria fé
as palavras são o veículo próximo e abrupto
que unem num adeus asséptico e íngreme
a constância intrínseca do discernimento
de quem responde a um desagravo da existência
imbuído na sua própria dinâmica de natureza
improvida de etiquetas ou destinos
no vislumbre do mar em vagas de afagos
e escarcéus de esperanças
onde a existência se cruza e toca
sendo apenas passagem
alienação que aponta para vários caminhos
com a força do universo
enquanto vai e vem a maré
mas há caminho
e a noite já tomou plenamente o dia
sob a ria que é a minha companhia


         

domingo, 8 de dezembro de 2013

marulho





a vida interpela e atropela
caminho para o luar de um pedacinho de campo
respondo-lhe que venho do mar
fui a favor do vento
volto na volta contra
a salvação terá morrido na praia
o contratempo é contra o tempo
o mundo está dentro e além de mim
ainda na parte baixa da rua de baixo
nas folhas que caem da minha vida
eu conheço-me
a dor procura o caminho perdido


   

sábado, 7 de dezembro de 2013

a neblina abraça o chão


  
   

aguarda a neblina
um abraço que devolva o mundo
o céu está deserto
é um enorme espaço negro
repleto de noite e ausência aflita
com o sabor de um beijo clemente
onde pintei palavras brancas
que se soltam
e perguntam por ti a um deus desconhecido
em termos proibidos
ao som do marulhar incluso
e eu parti para algum lugar dentro de mim
sem tempo