sexta-feira, 13 de maio de 2022

Imediações




Ao alheio redondo empertigamento, de passagem, 
Um verso, como uma provocação gramatical, 
Como uma frase fora do ponto, à margem, 
Que me põe de parte e me leva aos poemas escondidos. 
A soma nem sempre revela um mesmo total 
E hoje, encontrei um novo lugar para ler a vida. 
Estenderam-se as palavras a baralhar os seus sentidos, 
Que são os meus e que podem ascender ao infinito, 
O modo de ver-me no fundo. 
No fundo, eu não estou lá, espalhei-me pelo mundo. 
 
É tão fácil comer a felicidade ou a própria fome 
E saciá-la aparenta ser o que nos consome. 
De que é feita a minha fome, a tua, a nossa? 
 
Seremos escravos numa determinada imaginação, 
Determinados sejamos para o não ser, sendo, 
No golpe preciso do nosso coração. 
Esqueço, simplesmente, a caixa, alheia, de apostas. 
Esqueço a incerteza da divisão, nas minhas costas, 
Como quem sustem a respiração para ver o fundo da água, 
Ou o que há no seu fundo; ou como mergulhar sem mágoa 
Na dor que é ser-se invisível. 
Visível é o verso gramatical e formalmente incorreto, 
Mas, variável e simultaneamente, sensível. 
 
 
 
 [miscelânea]
 [04 de maio de 2022]
 
 
 

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Viver por dentro

 
 
 
Há dias que as árvores deixaram de viver para dentro, de boca cerrada. 
Eu julgo ascender onde tudo acaba, ao infinito da invisibilidade, 
E passeia-me o vento, onde outros são passeados pelos cães da claridade. 
Medra a noite, como um sinónimo de fim de tarde bem conservada. 
 
Hoje, vejo, nos teus olhos, o brilho de uma ingénua liberdade 
Que, ouvi dizer, se apaga em casa, no débil equilíbrio do género. 
Na verdade, nem sempre se te vê esse brilho, apenas a ansiedade, 
A diagonal de memórias estremecidas, ou o sorriso de um sonho efémero. 
Estados que melhor espelham os boatos de uma parte da cidade, 
De quem não sei que palavras dirão sobre a minha integridade. 
 
Três meses de primavera não me conseguem percorrer, por certo, 
E mais do que alguns segundos seriam uma extravagante inutilidade. 
Fecho os olhos, para ver melhor, para ver menos e me ter mais perto, 
Enquanto inspiro uma certa paz, que é a minha felicidade. 
 
 
 
[miscelânea] 
[27 de abril de 2022] 
 
 
 

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Asas




Descansa a gravidade sem importância. 
O corpo a ser corpo, o tempo a ser tempo,  
Para além do vinco tumescido da respiração de pé, 
Para além de seios a serem seios, não alimento, 
Não uma paisagem, não uma miragem. 
 
Prolonga-te um pouco nos meus subterrâneos, 
Com tua seiva mansa de carícias não prometidas, 
Que é sentir e estar e ser inteira e completamente. 
Permanece a base da base, o momento justo e cingido. 
 
Das palavras hidratadas, sem princípio ou fim, 
Podes roer o poema, no enredo da vida: 
O momento e o golpe, exatos, da mastigação, 
Como um ato de amor e de permanência. 
 
Espera-me, certa, uma madrugada desperta, 
Na sensibilidade da noite de um tempo curto. 
Os sonhos germinam no ar acordado e vigilante, 
Onde germina a guerra, como pesadelo de todos 
E vontade subtil de meros egoístas obstipados 
Por uma qualquer coisa que é apenas coisa. 
 
Estendo uma manta curva, o meu abraço, 
O gesto preciso e necessário para ser todo, 
O movimento certo para a continuidade. 
Um pouco mais acima, sem ser golpe ou o golpe. 
 
 
[miscelânea]
[18 de março de 2022]
 
 
 

sexta-feira, 18 de março de 2022

Tem um dia feliz

 


Desejo-te um dia feliz, e fico inerte. 
A retribuição, não obrigatória, que não chega. 
Os passos, que se prolongam pelo silêncio 
Da caminhada, ressoam a despedida. 
Gela-me um pensamento glacial, 
Nesta época seca e de degelo. 
Aperta-se o meu peito, já apertado. 
Será que podes não acreditar em mim? 
Como pode, alguém, ter um dia feliz, 
Nas incertezas de um tempo triste e dúbio? 
Mas, quem nos iria supor nesta condição? 
Quem diria que a guerra ainda existe? 
Que batalhões de vírus nos espreitam? 
Ainda assim, desejei-te um dia feliz, 
O que mais me poderia desejar? 


 [miscelânea]
 [18 de março de 2022]
 
 
 

quinta-feira, 3 de março de 2022

Impasse




Vens vestida com aquele período concreto, 
Agora, que sou cada vez mais ria e silêncio. 
Não foste por mal, não é por ele que vens perto, 
Nem me chegas em pequenas peças de afeto. 
De que gostamos, nós, agora, 
Que não tenha o mesmo gosto incerto? 
 
Os dias, sempre novos, vão-se somando, 
Assomando-se ao futuro perfeito, 
Tão polido e, logo, imperfeito pretérito. 
Procuro, creio eu, algum conforto, andando 
Dentro do sobressalto que é a poesia, 
Esquecido, eu, de qualquer mérito. 
 
Ainda vives dentro daquele exato poema, 
Onde eu, precisamente, não te aprisionei, 
Já tão diferente, ainda com o mesmo rosto. 
O tempo certo demorou-se por ali, sem lema. 
Diria, mesmo, que por ali se aninhou, 
Por ali se esqueceu, sem perder o gosto. 
 
Todo o universo aparece tonto, 
Perdido entre os baralhos de signos, 
Os destinos das palmas das mãos, 
As coisas que não se veem nem te conto, 
As sortes de um conjunto de cartas 
E em fundos de chávenas de café e grãos. 
 
Sinto o prazer de uma ligeira dor na face, 
Desde o sorriso rasgado, ao olhar arregalado. 
O jantar vai sair do seu impasse. 


 [miscelânea] 
 [03 de março de 2022] 



segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Antecipação

 
 
 
O mar está bravo e eu regresso a terra. 
Venho, voando, amor, numa poesia breve 
E vejo-me, de fora, num poema onde já não sou. 
É o céu e a ria, num só, que me encerra; 
É o poema que teimosamente me escreve, 
Por um trilho que ainda agora mudou. 
 
Estranha vida, que subitamente me dispersa. 
Sim! Aqui estou, aqui vou, ao meu encontro: unidade. 
A simplicidade de ser uno, com tantos zeros por dentro. 
Cada zero é um, a meu ver, feliz, quotidianamente feliz, 
E uma unidade feliz, é uma unidade sem preço. 
 
Ah, gaivotas festivas, que me bafejam a viagem! 
Agradeço o apreço, que é uma luz repentina, 
Onde posso pousar o profundo baralho de sensações, 
As mãos, a retina, mas, não o destino. 
 
Porque, o mar está bravo e está dentro de mim, 
Onde, também, está o regresso, a terra e o voo; 
A poesia, o poema, o céu, a ria, o trilho e o amor. 
 
 
 [miscelânea]
 [29 de novembro de 2021]
 
 
 

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

*

 
 
 
Onde mais dói no peito, no peito em dor por dentro, 
Por dentro da própria dor, que nunca é igual, 
O entendimento figura-se em gestos suspensos, 
Com as palavras que não vem e com as que só vem 
E que descem a garganta para ficar no estômago, 
Numa simultânea sensação de enfartamento e de vazio. 
Uma sensação enevoada, de fusíveis queimados, 
Ou uma névoa de queimada, com sensação, sem fusíveis. 
Sentimento evolutivo, efervescente, amargo, sedimentário. 
 
Talvez tenha falhado a ilusão a um quê de verdade, 
Ou a energia, no sobressalto de verdade incandescente. 

Em cliché, gosto da verdade, verdade, como ela é, 
Mas, a felicidade vivia descontraída na ignorância, 
Ou na alegoria da descontração sobre horizontes. 
Horizontes imaginários de outros poemas imaginários. 
Certo é, também, que falhando, ou faltando, a felicidade, 
também pode faltar, ou falhar, a verdade e seus fundos. 
Fundos que desconheceríamos se não nos tocassem 
Onde mais dói no peito, no peito em dor por dentro, 
Por dentro da própria dor, que nunca é igual. 

Hoje, sou mais frágil, não sou o mesmo. 
Amanhã, serei mais forte, não sei quem serei. 

Nada disto é absoluto, tristeza ou obscuridade. 
 
 
 
 [miscelânea]
 [03 de setembro de 2021]
 
 
 

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Recordação previsível

  
 
 
Quantas mil palavras terei de escrever, 
– Ou reservar, silenciar, suprimir – 
Para te libertar dessa âncora de tristeza 
Que te atrasa os dias e que tentas arrastar, só, 
Numa insistência, creio que, cega e surda? 
 
Tanto te pesa o ar, o som, a companhia, o silêncio, 
Os pensamentos, a solidão, o corpo, a alma… 
Tanto te ocupas com nada, para nada, 
Ou para estar só a estar só, ou de fora da vida. 
 
Quantos relógios terei de ser, ou apeadeiros, 
Para que possas ter saudades desconhecidas, 
Para que abandones essas dores completas? 
Porque tanto te pesa? O quê mais te pesa? 
É Amor, que procuras, e aparenta não existir? 
 
Poderemos ficar, senão afastados, apenas 
À beirinha desse abismo de mistérios, 
Dessa escarpa de desilusão, sem inclinar. 
A minha sensibilidade abstrata tem vertigens, 
Muito concretas, e eu quero ser mais, 
Mais do que uma fatigada recordação. 
 
 
 [miscelânea] 
 [19 de agosto de 2021] 
 
 
 

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Porque escrevi isto?




Aquela que os turistas não veem, 
Continua a reclamar. A cidade reclama, 
Numa campanha permanente, permanente; 
A qualquer hora de um qualquer dia, noite e dia; 
Erodente, muitas vezes, entre dentes, 
Num aparente, aparente, silêncio. Silêncio. 
Chegou o silêncio, com ele chegou o gato mais velho 
E, na companhia de ambos, tudo continua só. 
O gato adquire a forma de um ovo, no seu nicho, 
Com a cidade ao fundo, no poente, no horizonte. 
Um horizonte cheio objetos, luzes, sombras. Coisas. 
As coisas procuram um fundo que nunca viram, 
Que não sabem ao certo se existe; por hábito. 
 
Talvez o hábito seja o grande sentido da vida, 
À luz desta lua e destas estrelas, deste céu finito; 
A nu, neste hábito de tomar banho e de ponderar. 
Nenhum acrescento se encaixa na missão decidida 
De coração aberto, como uma janela, ao luar, 
A sentir a brisa mansa, humente, tépida, que cogito, 
Lambendo o dia, as sombras, os brilhos, os rumores. 
 
Uma imensa nuvem esconde, agora, as estrelas, 
Adensa o silêncio e com ela chegou o gato mais novo, 
Dengoso, fazendo anunciar que não quer festas. 
Andou numa festa excessiva e ambiciona ausência. 
Come sentado. Mordisca sem pressa, com prazer. 
Gosta de se sentir observado e observa, sente, 
Sem dar a entender, ou assim julga fazê-lo, fingindo. 
Talvez o hábito seja um fingimento e um abrigo. 



 [miscelânea]
 [12 de agosto de 2021]



quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Arrumar a vida




Traduz-me esse teu abraço de ombros encolhidos, 
Tão abraço, tão dentro e tão breve. 
Só lia e só conhecia os teus abraços de ombros caídos. 
 
Talvez te consigas expressar, dar uma pista. 
Dizer qualquer coisa, de uma qualquer forma, 
Antes que o cão chegue, te ladre e a vontade desista. 
 
Os teus olhos parecem perdidos e infelizes. 
Mas brilham, como algo que se anuncia. 
Por dentro, qualquer coisa me mia, 
O cão não chega e tu nada dizes. 
 
Talvez não vejamos e sejamos aprendizes. 
Partes repetidamente, para voltar um dia, 
Para ser uma substância da fantasia 
E largar, no contexto da minha pele, os teus matizes. 
 
 
 [miscelânea] 
 [04 de agosto de 2021] 
 
 
 

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Minutos de viagem




Ó motor elétrico, quase silencioso 
– Digo eu de volante em punho – 
Que me trazes a casa tão diligente, 
Em explosões [eu] de raciocínio e gozo, 
Agradecendo a planura da humilde estrada, 
Que nos carrega, tão indiferente. 
Ó motor elétrico, quase como se fosses meu, 
E eu quase me esqueço de ser ateu. 
 
Ah, acelerações suaves, progressão decidida, 
Que sonho lindo de viagem utilitária. 
Se não vamos a tempo de salvar a Vida, 
Salve-se o Verão e a postura gregária. 
Ecologia. Ecológico dentro de ecológico. 
Fantasia. Quase esqueço o dia ilógico. 
 
Consigo ouvir pensamentos em negrito: 
-Que merda, com ares grife e pingente chique! 
-Credo! Regurgito, regurgito! 
-Não sei se chore, se vomite! Se vá ou se fique! 
-Que bonito, que bonito, que bonito! 
-Que é isto!? Não acredito… 
 
Ouço de tudo e entrego-vos a uma Nossa Senhora; 
Ou à salvação a que vos quiserdes entregar, e se aplique; 
A um mantra poderoso, ou a uma ladainha protetora. 
Denunciem-me. Denunciem-me, até que acredite. 
Entretanto, eu, faço o resto do caminho a pé, 
O veículo não me sobe as escadas, nem por fé. 
 
 
 [miscelânea] 
 [03 de agosto de 2021] 
 


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Fluição




O meu cão vê mal e é muito teimoso, 
Assim como o teu amor. 
Respira, liberta-te desse peso dengoso. 
Não sentes como te sufocas 
E a quem tanto queres feliz? 
A tua liberdade reza por ti 
E a confiança brama sob os teus pés. 
Deixa fluir, deixa fluir. Ah, deixa fluir. 
Tropeçaste já tantas vezes. Tantas. 
Tropeçaras outra mais e, talvez, agora. 
Tropeçamos todos. Não vês como eu tropeço? 
Sai dessas horas indecisas e febris, 
Dessas estórias em que a tua vida não é a tua, 
É apenas uma suposição imprecisa e titubeante, 
Que te deixa, e a todos, uma possibilidade de agonia, 
Onde já não és tu, onde a tua vida é a de outra; 
Onde todos se desigualam do que são; 
Onde não param de crescer os enredos e os monstros, 
Ou os unicórnios e os lendários finais felizes. 
Ah, deixa fluir. Deixa fluir, fluir. Flui. 
O meu cão vê mal e é muito teimoso. 


[miscelânea] 
[01 de agosto de 2021]