sexta-feira, 21 de agosto de 2015

limbo


aveiro
cais e canal do côjo | aveiro | portugal




os nomes bebem a água 
palavras como que inquilinas 
a escreverem poetas de regresso 

cada coisa começa a actuar 
num tempo que deve ser o seu 
como o início de uma melodia 

só agora pude acordar 
como se só agora pudesse 
nas rodas da presença 

a esferográfica já acaricia o papel 
e é o papel que nos aproxima 
junto a aproximação que é a saída 

diante de todo o esquecimento 
sou remoto e a minha memória 
ainda é mais longínqua 

mas acordei para voltar ao sono 
que é sonhar-te de braços abertos 
tão distante do movimento no arco do céu 

acordar é o superlativo ensimesmado 
no bocejo seguinte que se junta ao estendal 
de suspiros com um espaço de abismo entre eles 

a luz de boca cheia chama insistente 
num grito meteorológico que transborda 
numa lufada de gramáticas de anticiclones 

e tu és o céu a dobrar carícias 
e isto é apenas o início  
num chão composto de memórias 



[a ilha]




2 comentários:

  1. "Luz de boca cheia" é maravilhosa!

    Beijos, Henrique. :)

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  2. Você me parece experimentar uma realidade muito bem conectada com os termos: "passado e futuro"...termos que em verdade não existem, só existe o agora! Wow!!! Chamei pelo esoterismo...No!!!! Passado e Futuro sempre existirão na inteligência celular de qualquer um, basta programar ou re-programar. Seus textos conduzem a discursos como esse caro amigo!

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