sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Epifania


Sentado, com se estivesse numa fotografia, ajudo 
as palavras a dobrarem-se pelo sentido, feitas de 
outras palavras, por outras palavras, sem se dizerem 
a si próprias, propriamente. O poema absorve-as e, 
através delas ou por elas, ganha a forma, o modo, 
o estado, para habitar, primeiro, a mente e, depois, um 
qualquer ponto indistinto entre a possibilidade e a imaginação. 
Convém, ao poema, servir de trampolim ou de agente 
que proporciona o salto. O seu conjunto de palavras 
funciona, assim, como força de propulsão e fica liberto 
do salto fotográfico ou abstracto, ao qual só ele próprio 
teria acesso e ele mesmo encerraria, como uma imagem 
estática e abandonada de si ou do seu próprio sono. 
Ao poema convém que as palavras saltem, também, 
mesmo que de indiferença em indiferença, já na memória, 
que não é a sua; noutros sentimentos, noutros afectos 
noutras sensações, noutras histórias, noutras ilusões. 
O poema gosta de passar e agitar as folhas, as cortinas, 
as almas; de acordar os, ou de se enroscar nos, sítios 
mais íntimos, onde se sonham as coisas que não se dizem; 
de mostrar os momentos que sabe não se encontrarem 
em si ou fora de si, já não puramente factos ou fantasias, 
mas: poesia. 


 [massivo]



1 comentário:

  1. A verdadeira essência da poesia... revelada de uma forma brilhante!...
    Adorei este poema... que faz uma desconstrução construtiva... ao âmago da poesia...
    Beijinhos
    Ana

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