sábado, 28 de janeiro de 2017

Noite nova


Passavam pessoas, nuvens e horas, com razões 
que lhes desconheço. Ambos se apressam 
a abandonar o inventário, com a sua própria 
música e matiz urgente. Sob a sintaxe do olhar, 
dir-se-ia que fogem. E talvez fujam destes seis 
graus tão frios, que há cinco minutos eram 
tão diferentes, tão quentes, de tão rentes 
ao pôr-do-sol e ao peito. 

Não sigo a tribo e não há tristeza no que sinto. 
Um pássaro nocturno explica-me a noite: 
É noite nova de um princípio de lua que tarda, 
abraçada a saudade do que sempre foi saudade, 
e a ria está tão saturada que não conseguiria 
diluir-me, ou disfarçar-me, no seu rosto. 

Naquele contrário que o mundo consente, 
há passeios e abraços que acabaram e um 
apontamento para endireitar mais tarde. 

Igualo-me à paisagem, como um seu contorno. 
Os versos aparentam ser habitáveis, parte de um 
sentido de tempo que chega de viva voz. 


 [massivo]



3 comentários:

  1. As pessoas são sempre mais tristes nas noites frias. A cada leitura encontro novas tessituras nos seus versos.
    Abraço
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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  2. Serve-me tão bem, este poema!
    Bjks

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  3. Os versos... como lar, habitação... e habituação de tudo neles convergir, no ver de um poeta...
    Mais um poema excepcional! Sempre com uma criatividade surpreendente...
    Gostei imenso! Beijinhos
    Ana

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