quinta-feira, 1 de novembro de 2012

[Em pouco tempo, ou não…] IX – Crónica de um espantalho


     Crónica de um espantalho

     «É algo que faço instintivamente, observar a minha desconstrução e ficar parado. Na realidade, na presença de seres humanos, não é suposto que um espantalho faça alguma coisa, para além de ficar imóvel. Um espantalho deve, acima de tudo, espantar os pássaros e ser agradável, o mais possível, para os que lhe são seus superiores e criadores, sem fazer mais nada. Basta seguir as normas de procedimento escritas por vários espantalhos de tempos ancestrais e que constam em cânones antiquíssimos, de insuspeita veracidade, para viver feliz. E pode sê-lo, com toda a simplicidade e facilidade, se assim proceder.

     Aos seres humanos, os criadores, cabe o papel de decidir que vida terá um espantalho, não nas suas minudências, mas em traços gerais. Um criador que destrói espantalhos que vivem ou choram deveria: sentir-se um espantalho, sentir o peso das suas palhas e perceber com quantas palhas se constroem os sonhos; promover a atitude de braços abertos, o proveito da vida e o direito a essa mesma vida; garantir o direito à liberdade e à igualdade. 

     Os espantalhos possuem corpos frágeis e, nalguns casos, almas sensíveis. Nós, os espantalhos, não somos todos iguais e há criadores que são tão espantalhos como nós.

     Por vezes enamoramo-nos por seres humanos, assim como os seres humanos também se podem enamorar por espantalhos e, nessas circunstâncias, num verdadeiro amor, não existem seres superiores ou seres inferiores. Mas, se há histórias de amor sofridas, mesmo entre espantalhos, da mesma forma que entre os seres humanos, as histórias de amor entre seres humanos e espantalhos são sempre histórias de amor impossível.

     É normal que um espantalho permaneça só, mesmo só, durante a vida, por opção ou acaso. Da mesma forma que pode ficar temporariamente só, ou pontualmente só, ou escolher estar só. E o que pode fazer um espantalho quando está sozinho? Eu faço muitas coisas e muitas, coisas, vos poderia acrescentar para explicar o “estar”, o “ser” e o “ter”.»


12 comentários:

  1. Não sei se alguma vez me considerei espantalho, julgo que nem me passou pela cabeça, não por que não faça sentido mas sim porque a minha imaginação não me me leva tão longe, mas palhaço sim,pois temos de nos manter na vida fortes sempre com um sorriso ainda que com o coração a sangrar, talvez seja assim na maior parte do tempo,na maior parte da vida, depois de algum tempo aprendemos que é bom sermos "espantalhos",pois ser humano é algo muito triste, não sabem o que fazem, o que querem e constroem e destroem talvez por serem muito infelizes, procuram o que não tem sem encontrarem. Mas os espantalhos continuam de braços abertos só eles sabem que não é para os pássaros não pousarem mas sim porque ainda podem abraçar a vida, porque o coração dos espantalhos é doce, sensível,sabem sonhar, talvez só tenham receio de amar.

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    1. «Mas os espantalhos amam, Luna! Vivem (visivelmente) presos a uma estaca, receiam o fogo alegórico do amor, muito pelo interior, mas amam.
      »

      Beijinho
      :)

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    2. Que bom que "os espantalhos " amam pois é o sentimento mais reconfortante que pode existir.

      Beijinho

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    3. e saiu um sorriso, acredito mais na palavra dos "espantalhos" do que dos homens

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  2. Nunca olhei para ninguém como se olhasse para um espantalho, e apesar de te descreveres assim, não te consigo ver dessa forma. Mas... Desejo que não fiques só, nem por opção nem por mero acaso.

    Bjo

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    1. «Todos temos a nossa quota-parte de solidão e em alguns momentos procuramo-la, necessitamos dela, da mesma forma que também a repudiamos. Ocupo a minha, a que vem sem que a procure, de braços abertos e com gratidão pelas pequeninas e possíveis coisas e novidades.»
      Obrigado, S.o.l.!
      :)

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Adorei o texto/conto, Rike!
    Para mim, está magnificamente escrito, tem humor e reflexão séria, e é de uma abstracção e analogia fantásticas. Parabéns!
    Um abraço e beijo.

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    1. «Mais do que agradecer como um espantalho (reconhecido, franco, sentido, de braços abertos e sem subterfúgios), digo-te que és um ser humano compassivo.
      Obrigado!
      »

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  5. Se não fosse, já, uma fã confessa da tua escrita, ficaria rendida com este texto. E destaco o pormenor das respostas. Muito bom! Hoje não consigo comentar ou dizer mais do que isto.

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    1. [Alguns segundos de silêncio.]
      «Assim, sou eu que fico sem palavras. Obrigado! »

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