sábado, 7 de janeiro de 2012

Serra


Num presságio de tempo, os cúmulos distintos, tingidos
Pelo resquício luminoso de cor púrpura, irradiado
Por um Sol já ausente, exageram o espectro derrotado
E arremeto para de novo retroceder sobre a colina dos vencidos.

Augura, num murmúrio, um conjunto de rochas de sentidos,
Que não me recorda, e espalha alguma glória no vento irado,
Frio, que me instiga, e acaricia as pedras parideiras do lado.
Insurrectas e zombeteiras, espalham amores de mouros perdidos.

Numa medida esquecida, a apoteose dos relevos naturais,
Embora profanados pelas reentrâncias inscritas,
Designam e chamam trilhos de outras naturezas e de outras desditas.

Apontam-me, na partida, listelos de exilados dos natais
Que no seio do céu escuro tentam encontrar instruções teatrais.
Adivinha-se o rocio. A cascata sussurra que já não quer mais visitas.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

E hoje… (XIX)


     … Talvez devêssemos estender a indignação aos que nos rodeiam. É cómico ver como uns se constroem desconstruindo outros.

Só para dizer [XVII]:


     Memórias que hospedam troça e descaro, mas que sustentam a dignidade. Tenuemente opaco. Vagamente preenchido. Não transporto objecções, explicações, justificações ou razões. Digo.

     Amo, mesmo a tua falta de memória. Amo, mesmo o teu silêncio.

     Nestes tempos, na liça da existência, existência manifesta ou amorfa, qualquer afeição se transforma numa acção temerária, audaciosa. Acções que na realidade empossam intrepidez e graciosidade, mesmo no ser mais torpe, quando ser não basta; quando torpe é a definição do afecto, do amor, da amizade.

     Tenho a convicção de que gosto de ti e a quase crença de te alcançar e sentir.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Patente


Pondero.
Perdi a homógrafa dita
Nas alienadas massas de falácias
Que não quero.
Saliento a urbe aflita
Que transporta contumácias,
O indeclinável ónus da contenção;
A inatacável carga de agitação.

Por certo, não há momento oportuno
Para a derradeira palavra,
Nem para o que serve de emposta.
Comovente, alegórico e uno,
Desce a quimera macabra
Numa humanidade disposta
Em falsete a prazo,
Em jovial acaso.

4 de Janeiro de 2012.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

E hoje… (XVIII)


     … Caretas e sobrecenhos! Mitigo o frete decretório dos anais divisos com sorrisos!

     Reparto as formas visíveis e as invisíveis. Com nitidez, traço a grandeza da coerência e da lucidez. Não me falta arrojo, falta-me o chão.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Abertura

Abertura
ou
Primeiro dia

E num primeiro dia de ano novo,
Com a antiga Lua recusada,
Com o desusado Inferno recebido
E com a margem em abismo,
Restaurei a possibilidade de sorrir.

Com todas as relíquias e antiguidades,
Sem reclamação ou manifesto,
Dirijo o anónimo bem-querer,
Hoje plausível;
Agora mentor;
Presentemente límpido;
Notoriamente condutor
E riu!

01 de Janeiro de 2012.

sábado, 31 de dezembro de 2011

[Em pouco tempo, ou não…] VII – Passagem

     Passagem

     Os melros ficaram sem um dos seus pousos, agora que finalmente retiraram e desmancharam o espantalho, bastante deteriorado, que ainda permanecia no campo, carregado de simbolismos triviais e tribais, próximo de um toural de coelho-bravo. Evidencia-se o silêncio ordinário, imposto pela perda e pelo cerimonial complacente.

     Anteriormente, com saudades do noitibó que tardará em regressar, desloquei-me com penas e sem castigos pela estrada que se alongava na noite e pela noite, e com a qual se fundia e confundia na mesma cor negra com que, e com quem, a chapada também já se tinha envolvido e combinado. Destacavam-se linhas e tracejados brancos, casualmente gastos, esporadicamente amarelos, maioritariamente desfeitos ou deformados e, nas mesmas cores, destacavam-se, também, salpicos de luz trémula, bruxuleante, de localidades desgarradas em paridade com a abóboda formada pelo firmamento de padrão mais regular. Simultaneamente, os faróis da viatura exibiam o rumo, que, em cadência, surgia, era alcançado e transposto, e criavam sombras, espectros sem escolha. Do rádio emanava um emudecimento determinado e calculado, no cumprimento de requisitos mínimos de ruído. Urgia a comparência de outros sons que não os das melodias e os das notícias de políticos, das suas políticas e das consequências, efeitos e incumprimentos de ambos.

     Neste trajecto e no decurso, antes do evento com o espantalho, de passagem por um trecho de pinhais, já tão inusitados em todos os sentidos, um coelho-bravo, saído da escuridão da brenha, hesitava na travessia, a sua cruzada. Os coelhos, quando decidem transpor um caminho, por vezes, muitas vezes, comportam-se como criaturas indecisas, vacilantes e incertas, decidindo sob pressão de urgências suicidas. Sei que as raposas frequentam aquelas paragens e que, por si e em relação aos coelhos, constituem uma natural proveniência de diligências, precauções e apertos. As raposas são criaturas ágeis, astutas, decididas e normalmente cruzam sem titubear, quando entendem que é seguro, o que nem sempre acontece. Determinaram-se, pois, cautelas e abrandamento, para dar tempo à natureza, que intimo, por necessidade.

     Agora, um melro surge e parte de súbito, enquanto vocaliza um alerta. Fica na retina a cor negra brilhante da plumagem e o amarelo-alaranjado do bico, que acusa tratar-se de um macho. Do espantalho ficou a palha, que exala o odor da urina de rato. Há quem diga que o espantalho era incontinente.



sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Entrada 250

Entrada 250
ou

Sem-fim

E num dia perene e inovador,
Com a Lua enjeitada e Inferno brindado,
Sem medo e de sorriso em riste,
Recuperei a casualidade do amor;
Sem rede, sem arnês, desabrigado,
Demarquei o «acontecer» e sorriste!
Enquanto o sonho pretende,
Reconstruo a margem que fende.

Com uma margem, a Lua e o Inferno
Sob protesto, deixo de protestar,
Rumo ao desconhecido.
Já não é conjecturável;
Já não é orientador.
E consigo retribuir.

27 de Dezembro de 2011

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Lugar incomum


Encontrei, no sótão, alguns afectos
mal arrumados,
como que abandonados. Fiquei,
e eles comigo, sem palavras. Sempre
as palavras ou a falta delas.
Quando não há palavras não se
pode começar, nada,
com elas.
Parece óbvio
e impõe-se que o seja e o pronuncie.

Alguns afectos tinham companhia
ou
acompanhantes.
Nuns casos era o medo
ou vários medos, também, mudos e,
alguns, ainda, sós.
Noutros, casos, era a razão
ou as razões,
que, em algumas situações, acompanhavam
só o medo; ou o medo e os afectos, quando não
estavam isoladas.

Vi anais pueris, a brincar com
as coisas sérias;
com as sisudas; com as
misérias.
Nunca deixarão de ser o
que eram.

Tropecei em pedaços de carácter,
perdido,
Sem vocábulos ou termos.
Fragmentos que se
misturam com todos os
sentimentos, visíveis
ou invisíveis.

Havia um covil, do ardil, descoberto,
mas tapado,
com os olhos grandes já de fora;
Asas, asinhas, aselhas e asas sobresselentes;
Halos, com auréolas, e diademas;
Sortes e reveses.

Não sei quantos afectos, e/ou
medos e/ou razões desceram comigo, para
este chão desarrumado.
Ou se, por desventura ou fortuna,
terá descido alguém.


Concessão expressa


Nunca ninguém vai saber
O que se quis dizer
Mas deixará o sabor
Do desconforto
À tona
Debaixo de um ardor
Peso morto
À procura de dona.

Entenderás pelo teu apetite
Que já não há quem acredite
Em verdade
Nos enredos voláteis
À porta
De uma paixão de igualdade
Nos braços retrácteis
E na necessidade que exorta.

Um dia
Sem euforia
A caminho da medicina
Acordei em paridade binária
Segui o curso tortuoso
Que ruma à colina
Dedicado na necessidade primária
No arranjo do virtuoso.

Vem de longe e de perto
Do exacto e do incerto
Ninguém saberá
Hora breve
O rumo do pensamento
Segrega um «Até lá…»
Que seja de neve
E transfere o firmamento.



Há amigos assim


Assisto ao desenrolar natural da vida artificial, sem mágoa. Senti,
Céptico, o acerbo bem-falante da investida dissimulada e maledicente. Com
Dificuldade, contorno o insulto e ignoro o alheio cotovelo dorido. Tristeza,
É o nome curto e simpático do rasto contínuo e pegajoso que deixa para trás e a
Vontade, bárbara, de subtrair, sem frontalidade, a dignidade final. A tua
Existência é uma rude, despeitada, rancorosa e imaginária argumentação.
Há amigos assim, porque não o pode ser um desconhecido incógnito? Cobarde.

Bom dia! Boa tarde! Boa noite!

Que me dizem as tuas palavras, do outro lado da rua? Não
Consigo ouvir. Não vem ao meu encontro, nem de onde venho ou para onde vou.
Nada pode ser mais favorável do que sorrir, seguir em frente. Justificar.



Sem destinatário, hoje!