terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Austeridade


Por vezes não sabemos pedir ajuda
Deixamo-nos ultrapassar pela vida
Desbaratamos um momento
Não reparamos que tudo muda
Tropeçamos e falhamos na saída
Perdemo-nos em mais um lamento
Não examinamos o antagonismo
Anuímos numa cega concordância
Abandonamos toda a elegância
E fazemo-lo para não nos culparem por egoísmo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Descerramento


Já renascidos e restaurados os propósitos
Como provisores e grandes depósitos
Com os desígnios da recusada Lua
Com Inferno recebido e datado
Com a voragem reservada da margem
E em riste o sorriso da realidade nua
Segue em marcha de um perto destacado
Agrado de compleição e estável na passagem.

Sem jóia ou relíquia declarada
Obvio e oriento a conhecida afeição
Credível presente
Honrada e actual
Guia imediata
Salvo-conduto exacto.
Abertamente veiculador
Com um sorriso
Ninguém permanece só!

domingo, 15 de janeiro de 2012

E hoje… (XXI)


     … Pouco mais do que uma definição, um pouco aquém de uma vontade, um pouco depois da hora. Concluído e um pronto-a-pensar.

     Volto aos trilhos, sem ilusão. Sobrevivo aos pontos comuns, assim como fujo dos lugares-comuns. Fujo dos sujeitos, mas não consigo, nem quero, fugir de mim.

Quota-parte


     Mais do que uma maré de troça, permanece como uma constância e uma substância de contestação que vem e vai, de igual modo que os sargaços ao sabor das ondas. Mas não passa de uma repulsa empertigada. O flamingo-dourado é da mesma opinião.

     Horas, uma poção e uma porção de oportunidades. O moliço agudiza a objecção, embora embrenhado na tarefa de subsistir sob a contaminação que exorta em recusa. A água deixou de ser cristalina, continua a ser salina.

     Vontade! Desconsidero os símbolos de gerúndio gentio, os prefixos e os símbolos de ligeireza e mutabilidade procedentes da chegada da trachea atriplicis*, carregada de memórias do Vouga. Porque vem a assombração da borboleta, uma e outra vez, escarnecer sobre o confluir na Ria e o desembocar no mar? Talvez o mofar seja próprio da sua natureza, que não julgo, não detesto e não ridicularizo, mas não adoro, não reverencio e não amo.

     Agarro-me ao hífen sem grandes pormenores, enquanto os advérbios descansam, absortos do lugar, do tempo, do modo, da intensidade, da dúvida, da afirmação, da negação, em palhas e abraçados aos adjectivos.

     O néctar das flores permanece como caução de subsistência primitiva. Gosto das flores e é por gostar delas que não as colho!




*N.A.: Borboleta nocturna da família das noctuidae. 

sábado, 14 de janeiro de 2012

Breviário [XVII]


     Peste, guerra, fome e morte. Peste, Guerra, Fome e Morte. Suspeito dos quatro cavaleiros em totalidade simétrica. Repetem-se em demasia, e todos trazem morte. A Morte, afinal, é recorrente.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Paulatinamente


Cedo, desobrigado, e desço a rua,
Acompanha-me uma sombra tua,
Desejo corresponder aos teus sorrisos
E cair no paradoxo de querer estar só e contigo.

Cedo, desobrigado, e desço a rua,
Com um pedaço generoso da Lua.
Pretendo capitular aos factos concretos,
Com benquerença e eximido.

Cedo, desobrigado, e desço a rua,
Segue-me uma bênção imune e crua
E antes do virar da esquina de Marte
Descanso junto à Ria, na tua memória.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Mães



Letras, palavras, frases, versos, rimas, sílabas métricas, poema e poesia a parte, ressalvo a vontade de manifestar o meu maior apreço, o meu mais nobre sentimento, a minha mais pura admiração e veneração, perante dois dos grandes pilares da minha existência. Pode ser escasso o meu tempo, e pese embora o anonimato e o ser comum, não quis deixar de partilhar convosco uma genuína verdade de uma humilde dedicação.



Para além de um anónimo festejo

Em compensação tenho duas grandes Mães.
Sim, querida avó, és tu minha Mãe também!
Para além do banal do ritual dos pães,
Amam-me, e deveras, como mais ninguém.
Sei que ausente também estou presente,
Sei que maduro ainda sou preocupação.
E sinto-o como um filho sabe e sente.

Há o passar das muitas noites veladas,
De guarda, em cuidado e desassossego,
Mal dormidas, sentidas e choradas.
Horas de grande apoquentação e apego.
Lágrimas por dolência e por alegria,
Derramadas com semelhante fervor,
Enxutas pelo abalo de nostalgia.

Recordo e acarinho as ternas vivências
Que fermentaram o meu crescimento,
Um pacato recanto sem audiências,
Mas tanto e tão meigo contentamento.
Grandes Mães, primeiro alternadamente,
Logo em simultâneo, sem competição,
Cada geração com a sua semente.

Para além de um anónimo festejo,
Amo as duas, neste período sem amor.
Agradeço-vos a vida e o desejo,
A bondosa dedicação sem favor
E toda a fortuna dos sentimentos.
Aninho-me na afectuosa lembrança
De tantos e tão extremosos momentos.

Honrarias, flores ou beijos nada são
E de nada valem, nem interpretam,
Nem representam a séria sensação
Que tais puros amores acarretam,
Que outros, espontâneos, despertam e ateiam.
Amores, dos amores desprendidos,
Que só as mães conhecem, ensinam, semeiam.



     - Hoje, sem mais palavras, com muito amor!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

E hoje… (XX)


     … Estimo que há uma amálgama de sentidos, de sensibilidades, de sensações, de aparências, de ocasiões, de contextos, entre outros, a desembaraçar e a desconsiderar entre a verdade e a mentira.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Quietude


     Pejam-me sentimentos com sinais sem termos, sem divisas, sem lemas, sem prazos. Imagens completamente desprotegidas e desveladas. Testemunhos inexpressáveis, inexplicáveis e, contudo, presentes, que são arrumados, num acto de desprendimento. Hoje, não!

     Rodeiam-me as palavras aromadas, que dispo, e as que circulam e alternam com os silêncios e circunstâncias formais. Visto o aconchego que retiro dos sossegos previamente aquecidos e afago-me com a serenidade do recolhimento.

     Guardo a vontade de escrever versos que apenas rimem com pão e esqueço uma pátria de exilados sentimentais. Colho a vontade de descansar, encolho a necessidade premente, reduzo a existência e o dia à sua dimensão e não peço indulto por não ser imenso.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Só para dizer [XVIII]:


     As cabras, camaritas, subsultam espontâneas, num afã de excitação imprevidente, mas pleno de contentamento e agrado. E as gaivotas famintas.

     As gaivotas que também são agiotas. Ei-las ávidas e generosas; sôfregas e misericordiosas; alimenta-se e deixam viver.

     O Mar apaga o meu rasto, tanto quanto pode e alcança. Tantas vezes jurou levar-me, tantas quantas as vezes em que me devolveu.

     Transparente. O regresso à beira-mar, ao meu raso de areia sem rasa, à minha concha vaga; sem fé em vaga ou maré.

     Talvez a afinidade necessite de afinação ou afirmação.

Soltas à solta


     Notas soltas… Pontas soltas… O conhecimento de um dia sem arbítrio, sem termo, na ciência da memoração; num lapso que se repete, repisa e rediz. A concepção do tempo e da sua duração frustrasse, dissipasse, extinguisse, em mim, e regressam, uma e outra vez, as distâncias, os intervalos, os hiatos, ligados por velhas, e já assinaladas, pontes elásticas sobre linhas de água sem paralelo.

     Quero a serra e o mar. Talvez devesse viver numa ilha, mas como pode uma ilha viver em outra ilha?

domingo, 8 de janeiro de 2012

(Al)Faia


Foi pacificador sentir a abnegação à dimensão,
O adocicar e o abrandar do desvario de alma insegura,
No vórtice contínuo desse sentimento de faial.
Assenta como um dom, uma força poderosa;
Unifica-se em silêncios e termos,
Onde por vezes não e necessário verbalizar.

Sonhos!
Perguntam-me quem não os têm
E pergunto-o eu também.
Por vezes não são necessárias mais do que simples palavras,
[Amo-te] Quando espontâneas e experimentadas.
Não são necessários outros pesos, outras medidas,
Nem histórias extravagantes, ou docemente macabras.
É um simples sonho que simplesmente não o é
E que sendo-o tão simples como o é verdadeiramente,
Poderia não o ser e simplesmente continuar a sê-lo.