sexta-feira, 1 de maio de 2015

comparável






olhava para a dor da escrita do código do amor, 
a ondular à superfície da pele e da folha de papel 
como uma miragem a ajustar-se ao dossel. 
depois, ergui os olhos e vi a serra a agigantar-se 
num súbito horizonte, onde as grandes e as pequenas 
perguntas se espalhavam pelas encostas, em cantilenas, 
ambas tão cheias do bolor das paredes e dos tectos 
da expectativa alheia, entre coordenadas de acontecimentos. 
prossegui o caminho, no sentido contrário ao sol e eventos. 
não me serviu qualquer tempo, nem o próprio vento, 
e a chuva, ocupada, acariciava o tojo de mãos erguidas. 
as borboletas diziam-me: «olá!» - em alegrias repetidas, 
e eu alegremente lhes ofereci o meu passaporte, 
enquanto procurava o meu oráculo. mas eram as pistas 
do sol que vinham esconder-se em mim, optimistas. 
por vezes, encontravam-se com as pistas da lua, também 
em mim escondidas. em breve eu estava de partida. 
esperavam-me poemas moribundos a duvidar da morte e da vida; 
versos sem salvação que vinham em auxílio da redenção; 
poesia à procura de melhor sorte que a do tempo já contado. 
e eu tão fora e tão dentro de mim, tão leve e arejado… 



 [livro aberto]



4 comentários:

  1. Uma belíssima foto acompanhada de um poema a condizer.

    Beijos, Henrique. :)

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  2. Nao consegui decidir se o poema é triste ou feliz... mas estar tao leve e arejado é bom, nao?

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  3. Com esse horizonte, é de ficar-se, realmente, em êxtase.
    Sinto o poema num tom reflexivo, contemplativo, de alguém que acolhe e oferta pensamento e sentimentos.
    Bjks

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  4. estamos sempre a partir
    estamos sempre a chegar
    assim como a imagem que se entrelaça no poema
    assim como as palavras sentidas

    boa semana.

    beijo

    :)

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