segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Abraça-me


Abraça-me,
Quero sentir o teu afago;
Quero ter-te comigo;
Quero ser o teu conforto.
Abraça-me!

Abraça-me,
Dá-me um pouco do teu calor;
Dá-me a ternura de quem ama.
Abraça-me!

Se o teu abraço for de amigo,
Que seja um porto de abrigo;
Um porto franco;
Um porto de salvamento.
Abraça-me,
Abraça-me!

domingo, 29 de janeiro de 2012

E hoje… (XXIV)



     …Anúncios de um cortejo, tardio, de reis, este ano, magros.

     Nova volta! A comitiva dos anjos-do-mar.

     Conforme a dedução e os primitivos indícios, a confirmação final dos personagens com vários rostos e vários papéis, onde se encontram, também, figuras isoladas, de um só semblante e sem saber como foram arrolados e associados à trupe.

     Perda! A cilada dos saneamentos sem grelha ou tampa, na via pública. Assim como a astúcia das sentenças mansas e astutas.

     Surpresas! A minha vida é uma surpresa constante. O dócil sonho e um contributo da marulhada. Quem ama cuida o objecto do seu amor, não o afugenta.

     A crença! Eu quero; bem-quero; desejo; creio; prezo.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Bem-querer


É superior quem concebe o amor,
Ainda que só e dorido;
Quem preenche e inflama, assim,
O peito e os sentidos dessas certezas
E em desprendimento e desapego
Se entrega, protege, cuida e afaga.

Atrai-me a tua sensatez,
Insígnia de altruísmo indulgente,
De apreciação e veracidade;
Sem subterfúgios,
Sem armadilhas,
Sem desculpas,
Sem culpas;
Sem disfarces,
Sem ocultação.

Agrada-me a tua nudez,
Atributo de autenticidade,
De abnegação bondosa;
Com exposição,
Com dádiva,
Com dedicação,
Com carinho.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Breviário [XIX]


     Balanço os sinais inócuos ao sabor das ondas e da brisa húmida e fria. Enceto um diálogo mental, imaginário, e verto sociabilidade com os peixes em negação. A areia, ligeiramente humedecida, também, adere aos sapatos, resoluta em não deixar negar a presença, ainda que fugaz.

     Termo!

     Outras personagens, no mesmo lugar, disputam a atenção. Surtem o ar com vocábulos perdidos e soltos, que aparentam servir de nada e para tudo, numa elevação propositada da voz, enquanto outros, ainda, segredam e sussurram. Todos promovem, afinal, o alheamento e confinam a permanência.

     Regresso, que também é uma partida. Pelo menos um de nós conseguiu parar de falar.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

E hoje… (XXIII)


     ... O abatimento, a sensação angustiante de impotência de quem tudo pôde e não alcança. A intransponibilidade de alguns reparos. A margem, inóspita e dotada de inópia ou de consciência marginal. O longo e não rectilíneo sentido único e a paragem obrigatória no final.

     Descanso! Surpresas agradáveis e sorriso aberto, desarmado e sem investida.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Só para dizer [XIX]:


     Quando o que resta para promover a comunicação são os olhos e o olhar, e o silêncio desconcentra e desacerta as mensagens que tentam vencer os meios, sobrevêm um último conforto, num piscar que se sente cúmplice; num “adeus!”, que mais não é do que uma despedida serena. 

     Quando, por fim, ficar tão-somente a respiração, como um vínculo de vida e de transição, que mais poderei dizer-te que não te escandalize, quando apenas quero dizer que te amo e no teu discernimento sou apenas um estranho?

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Incorpóreo limite


Quem desistirá primeiro?
Se uma vida está dissimulada
E outra entre mente proibida
Se um projectar é interdito
E um desejar impedido
Se a frase formada abandonar o modo
E o estilo for de silêncio
Se num tempo de adversidade
Não sobreviver a direcção
Se no carreiro de paz
Estacionarem a última mina
Se não me sobrar pelo menos a tristeza
Na ausência declarada da escrita
Não importa o direito!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Norma de contexto



Num dia em que as letras deixaram de formar palavras
Encontrei-te algures entre as penas de uma melodia
Nas vibrações de um ar seco de alusões de fantasia
Sobreposto às condições de vida e a subjugar lavras
A meio caminho entre a veneração e a heresia.

Pobre fragmento de coração inquieto e deslocado
Crédulo e vago no sentido de uma diligência vencida
Determinação de paralogismo e piedade estabelecida
Marioneta de um rumo constrangido e simbolizado
Para num ápice determinar a luminescência de uma saída.

Das máscaras que se transformaram em rostos
E das caras que se converteram em disfarces de paz
Retornaram os termos incluídos que refutas sagaz
Num alcance de ambições, com escolhas e por gostos
Num dia em que o sinal e a doutrina não satisfaz.

sábado, 21 de janeiro de 2012

E hoje… (XXII)



… Dói-me ver-te chorar sem conseguir saber o porquê. Se, pelo menos, conseguisses falar...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Noite eterna


Boa noite!

Observo o céu negro opaco da noite que traga as estrelas
O frio accionado oferta uma carência de recolhimento
Que vai além da necessidade de manter o corpo quente
Um desígnio inerente carrega e aglomera um decreto oculto
De sobrevivência sem subserviência, há muito aguardado.

Boa noite!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Medida de tempo


Recordo-me que és, não me esqueço, também o sou,
E olho para um horizonte que não me pertence.
De lado, num lanço que a memória vence,
Importa-me menos para onde vou.
Descruzado, ao jeito de uma aparência,
Segue-me a sombra e a sombra da consciência.

O teu sorriso ainda brilha na negrura da lembrança.
Há serenidade na imagem que perdura e guardo;
Que placidamente emolduro e resguardo;
Que egoistamente quero só para minha bonança.
Já não sei se é dor ou se há dor nesta ternura,
Ou se insistir na memoração é apenas loucura.

Não alcanço os sons nem concebo o toque.
Há uma ponte que se quebrou, embora una;
Um hiato aperfeiçoado pelo tempo de lacuna,
Instituída na alusão, que viaja a reboque.
O resto diviso. Uma imagem viva
De uma presença compreensiva.

Permito-me alegrar na alegria que perde a gravidade;
Entoar silenciosamente a melopeia atenuada pela distância;
Arrebatar e apenas; embeber a antiga e a nova infância;
Celebrar em festa e sem o travo amargo da saudade.
Sem atrevimentos discorro no que por aqui me vai,
Em memória, com coragem, revisito o meu querido pai.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Breviário [XVIII]


     Num rascunho, uma oportunidade; num tempo, uma vida.

     Há incidentes que possuem a virtude de mudar o rumo da existência. Basta um momento efémero de modo, ou de sensatez, e o trilho sobressai, rigorosamente, no lugar onde sempre existiu. É o momento, como um presente do presente, que se impõe inadiável, indeclinável e irrefutável.

     Os percursos com consonâncias e de satisfações, ainda que tortuosos, podem conduzir-nos, mais facilmente, a destinos mais sociáveis e numa viagem tratável.