domingo, 8 de janeiro de 2017

Nos braços da lua


Passar o fim-de-semana nos braços da lua, 
entre salinas abandonadas e pássaros distraídos, 
à luz incomparável do inverno muito alto, muito 
acima das minhas probabilidades. Vaguear, não 
volúvel, na deliciosa melancolia de ler o céu 
e o apego da ria à vida pejada de andaimes, 
na companhia compreensível de versos aéreos, 
nem por isso fáceis, e o coração na minha boca. 
Ah! O abraço inteligente de uma saudade, 
ilustre e conhecida, de olhar rigoroso. 



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sábado, 7 de janeiro de 2017

O meu infinito


Como se sentisse a resignação das árvores, 
o mar fala do caudal do frio, frio, do inverno 
e do seu incomensurável tempo, o tempo 
autêntico. Tão excessivamente real que real 
encandeia. Então, fecho os meus olhos. 
A noite nem sempre é fácil ou tão real. 
A vida segue e segue, uma vez na vida. 
Já vivo, vivo, o meu infinito no meio cheio 
de palavras. Não quero ser o que micta mais 
longe, ou o que mais, ou menos, defeca;
o meu nome não importa, muito menos a sua 
imortalidade. Se fico: fico; se vou: vou. 


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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Epifania


Sentado, com se estivesse numa fotografia, ajudo 
as palavras a dobrarem-se pelo sentido, feitas de 
outras palavras, por outras palavras, sem se dizerem 
a si próprias, propriamente. O poema absorve-as e, 
através delas ou por elas, ganha a forma, o modo, 
o estado, para habitar, primeiro, a mente e, depois, um 
qualquer ponto indistinto entre a possibilidade e a imaginação. 
Convém, ao poema, servir de trampolim ou de agente 
que proporciona o salto. O seu conjunto de palavras 
funciona, assim, como força de propulsão e fica liberto 
do salto fotográfico ou abstracto, ao qual só ele próprio 
teria acesso e ele mesmo encerraria, como uma imagem 
estática e abandonada de si ou do seu próprio sono. 
Ao poema convém que as palavras saltem, também, 
mesmo que de indiferença em indiferença, já na memória, 
que não é a sua; noutros sentimentos, noutros afectos 
noutras sensações, noutras histórias, noutras ilusões. 
O poema gosta de passar e agitar as folhas, as cortinas, 
as almas; de acordar os, ou de se enroscar nos, sítios 
mais íntimos, onde se sonham as coisas que não se dizem; 
de mostrar os momentos que sabe não se encontrarem 
em si ou fora de si, já não puramente factos ou fantasias, 
mas: poesia. 


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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Um novo ano


Um novo ano precisa de pulmões, aliás, precisa de todo um corpo… 
Pode não ter pés, mãos… Mas necessita de uma cabeça e de um coração. 
É-lhe necessário o silêncio. E a imaginação, porque: se não conseguir ver, 
conseguirá imaginar toda essa hipótese da realidade, a probabilidade 
das cores, a contingência dos espelhos, as múltiplas formas dos afectos… 
E, se não conseguir ouvir, conseguirá sonhar a invasão da possibilidade 
dos gemidos, a eventualidade de um beijo, a casualidade dos sorrisos… 
Sobre tudo, um novo ano, dispensa olhares, palavras ou gestos hostis. 
Depois, é só sentir-lhe o irresistível balbuciar de existências e cada um 
seguir com a sua própria, socorrendo, eventualmente, outras, no implícito 
e secreto negociar dos dias, dias a fio, onde, talvez nos possamos perder 
de novo. 


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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

De um todo


O tempo, por vezes, é o contrário daquilo que aparenta ser, 
espraia-se sensível e adquire a forma imprecisa das raízes 
ávidas. Um tempo que nunca é suficiente, impossível de dizer, 
agarrado ao chão de sentidos e à praça de um momento, 
onde um punhado de si mesmo, no ar, parece um traço contínuo 
de fogo no horizonte, a equilibrar o céu e o tempo restante, 
sem, contudo, garantir o seu próprio equilíbrio ou tempo. 
Um traço que se encurta e se estreita, até se transformar 
num ponto, uma partícula de luz que se extingue, transcrita 
num pedaço de outro tempo. Adquire, assim, uma miscelânea 
de aparências e estados que se entranham em nós, fazendo-nos 
tempo do próprio tempo e uma parte integrante do seu ciclo. 
Que vida é esta, onde, entre palavras e sentimentos, habita 
uma incompensável distância e um inadiável silêncio, a tempo? 


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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O tempo que passa


Sob a superficial aparência de recordação e de vontade súbita,  
espreito a parte detrás do vidro onde sempre pareço estar, 
como um reflexo de mim, por mais que me mova, por mais 
que o contorne; onde, por vezes, me vejo chegar, depois 
do poema, como que uma espécie de poeta a chegar às salinas 
e no seu espelho de água, sob a luz pertinaz do dia, como se 
caminhasse para o infinito inevitável, por detrás do vidro. 
Então, deixo passar as horas. As horas inundam-me na fronteira 
das lembranças, no mar de névoa que passa e me distrai. 
Passa o sol. Deixo-o passar, com os seus raios de palavras. 
Mas a tarde está parada quando passa o rosto do teu nome 
e o céu repete-se, como as coisas inacabadas ou as memórias. 


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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

À volta

Deixemos, agora, ou por agora, as traseiras do poema: a sua forma 
de solidão. Também por ali abunda a relatividade, a subjectividade 
e, a seu modo, a decisão e a indecisão do amor e da própria vida. 
Que venham apontar-nos a esterilidade da deambulação, ignorando 
a nossa possibilidade ou qualquer outra que nos permita seguir 
como hipótese ou de ficar à volta dos mecanismos de identificação. 
Poderemos abraçar tudo aquilo que dura um suspiro, como algumas 
pessoas, algumas coisas e, até, alguns afectos, algumas sensações, 
ou o próprio poema; admirar o mar em circulação, enquanto dilui 
as diferenças de cor e o marasmo, num aparente desinteresse 
pela nossa atenção; criar, para além das palavras e dos seus sons 
e imagens ou da sua consolação, formas estáveis e, ainda assim 
questionáveis, de existência. Depois, adormecidas as palavras 
e as suas próprias contingências, poderemos espreitar, por fim, 
o nosso íntimo: a nossa retaguarda. 


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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Da parte posterior: ensaio


Espreitemos a parte de trás de um poema. 
Há um princípio de infinito: de horizonte, num céu nocturno 
com névoa e com alguns pontos difusos de luz; de raízes expostas 
com pequenos espelhos suspensos, onde cada um se pode ver 
de um certo ângulo e encontrar o seu ângulo morto; de várias formas 
de solidão e de vida e os seus opostos, de braços despertos e abertos; 
de uma base de sentidos e sentimentos, que podem não ser tão aparentes. 
Ou podemos encontrar um vidro transparente, onde, por mais que rodemos, 
não se lhe encontre a parte de trás. 


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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Nos desertos do inverno


Faltam quatro dias para o Natal e amam-se, simplesmente, 
no azul do céu, sobre continentes e oceanos. Vivem num 
pôr-do-sol onde resistem, ou adquiriram a ilusão de resistir, 
a custo, à alegria das recordações. E sabem que o inverno 
possui desertos difíceis de transitar e que as suas distâncias 
aumentam e diminuem nesses desertos. Alcançam-se repetida 
e intimamente e compreendem tudo quando se entreolham 
nos olhos, quando sentem na carne os sonhos onde na realidade 
existem e quando os medos das palavras se recreiam na preia-mar. 
Amam-se mais do que tudo e permitem-nos observar esse amor, 
o que poderemos fazer de longe, se soubermos interpretar 
os seus corpos estelares e as sua formas prolixas de florir. 


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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Contexto de inverno


O ulmeiro adormeceu, a ria parece ter subido ao céu 
e as palavras permanecem imóveis, a invejar as estrelas. 
Poderás pensar que me escondo no poema, porque se perdeu 
um fim de tarde no caudal de frio e noite; porque me falta 
o ulmeiro, a ria e a circulação das palavras. Mas, não. 
É o poema que se esconde em mim, numa espécie 
de melancolia bucólica, que não é triste ou de tristeza. 
Eu estou a ouvir os mochos a dizer o amor nocturno 
em casas abandonadas, algumas em ruínas, na parte 
ferida e resignada da cidade; a sentir o ar frio e salino 
a pulsar-me na face, por dentro, e a resposta do sangue, 
por fora dessa pele de memórias transcendentes. 
Respiro fundo, inspiro os retalhos de vida que se dispersam. 
Invoco o abraço mútuo do olhar, depois das palavras, 
e as sensações que não se disfarçam no rosto, meu amor. 


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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Estou a


ver a comoção do rosto, do olhar, onde se perde a conclusão 
da frase; ouvir os sons das palavras, já só vagas interjeições;
sentir o mesmo corpo, flutuante, numa espécie de vontade 
própria e sem outra, vontade, para além daquela que ócio 
produz para sua satisfação e deleite; no movimento que 
se repete para além do acto, já liberto da definição, da acção, 
das convenções, do corpo, como uma memória, um ideal 
de energia, aparentemente infinita, onde a finitude, 
ou o seu inverso, deixaram de importar: a própria paz: 
se me quiseres sentir, percorre o silêncio que nos 
medeia. Um longo, imprevisível e caprichoso oceano 
que se agiganta à medida dos medos de quem o cruza. 


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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Limiar de analogia


O mar, que recebe a ria, que recebe o rio, 
que recebe os ribeiros, que recebem as fontes 
ou as fontes, que correm para os ribeiros, 
que correm para o rio, que corre para a ria, 
que corre parra o mar. 
E eu, que não recebo nada e que corro 
para todo o lado, sem saber para onde, 
já não sei bem como. 


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