quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Nada


E eu digo aos dois sem trunfo
Ou triunfo,
Saramago e Alegre,
Nem é maneta,
Possuidor, apenas, da mão direita
Nem é canhoto:
O vosso Deus seria destro, se existisse
Afagar-me-ia com as duas mãos
E seria saramago e alegre.

21 de Dezembro de 2011.


Lapso


Enquanto aguardo, enquanto seco,
Descarrego a pressa, descarrego o atraso.
Sinto-me agradavelmente calmo e em paz.
Não há nervosismo nesta espera e peco,
Baixo a guarda e o perigo está lançado sem acaso.
Por um momento sou só eu e sou capaz.
É tão bom sentir a leveza da despreocupação
E, simplesmente, a inocência na razão,
Na alma.

Conto com os meus dois ombros, firmes, disponíveis.
Esta reunião a sós, com todos aqueles que eu sou,
Com esta serenidade de elevação, enche-me de alegria.
Venha daí o mundo de inquietação e de suspeitas sensíveis;
Venha daí o trabalho árduo em dúvidas que não dou;
Venha daí o tumulto e dívidas que provocam alergia.
É tão bom sentir a plenitude da paz da consciência
E, de igual modo, reconhecer que regenero a paciência,
Em verdade.

16 de Novembro de 2009.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Considerações


Não há palavras que possam ser bálsamo sem ser lancinantes.
Não agora, neste momento de desolação confusa e desconfiada;
No rescaldo da fraude; na sequência de porfias desgastantes.
Opinião macerada.

Cerro os dentes, os olhos procuram o sargaço e o nada.
Ainda joeiro os ditos sobre a sobriedade da poesia que advogam,
Onde só cabem flores, lavores padronizados, amor;
Onde a contrariedade, ainda que em dor atroz, é ornamentada;
Onde há palavras banidas e fórmulas que se rogam;
Onde o verdadeiro carácter e a verdade não convêm ao fulgor.
Beleza infundada.

Tanto sofrimento só pode ser inato, natural,
Mas não o quero, aceito-o com contestação.
Há dias em que me sinto fantástico e genial,
Noutros suplico aprovação.

Vem do vazio, que transporto, e da solidão,
O meu pesado pesar, que não vez.
Vazio que não consigo afastar, mas tento.
Cresce por entre a falta de razão,
Num rótulo gasto, e sempre igual, de falta de intrepidez,
Que me concedes em honra, sem olhar, sem alento;
Por provocação.

Ah, como sou forte aos teus olhos,
Para que, assim, me negues os amigos
E lances aos entraves e aos escolhos.
Procuro abrigos.

Revivo ânsias fundamentadas e desassossegos antigos,
De bolsos vazios, sem créditos e sem valores afiançáveis.
Tão longe de um futuro promissor, já passado,
Relembro e transporto ilusões, fantasmas e perigos;
Recordo as promessas feitas e desfeitas, incontornáveis,
Afastado da rota e chamado por um apelo arrazoado,
Adenso o magote de mendigos.

Fechado num abundante e desigual excesso de autoridade,
Reduzido a presença e a parecença de um mero espantalho,
Resta-me o simples, mas valioso, laivo de sanidade
E o sabor do orvalho.

Fertilizas o avilte, arrojas o escárnio e o enxovalho.
Sabes que não há provas físicas para a dor da alma,
Que já quase não sente; que já não conheço.
Sigo o trilho, para não mandar tudo para o atalho,
Certo de que para o teu propósito não haverá palma.
Corro, sem socorro, e mais me afasto e desmereço.
Impedem-me o trabalho.

Como tudo é tão fácil visto de fora.
Bastar-me-ia o silêncio para a dignidade
Ou uma atitude reactiva e sem demora.
Celeridade.

Luz. Como me fere, e me faz falta, tanta claridade,
E os sorrisos e os risos que me despertam o choro de alegria.
Os poemas não têm preço e o poeta recebe uma esmola.
Abençoada esmola de consolo, de gozo, de infelicidade;
A compreensão e o afago, contidos numa áspera alegoria,
Que foge, salta, vai, vem, atinge, volta e rebola,
Na maior serenidade.

Também existo feliz, afortunado e em formato encantado,
Onde não me afadigam as vertentes e outras propostas;
Onde bons afectos, sentimentos e sentidos crescem lado a lado,
Espontâneos, sem classes impostas.

Vocês, não pensem que é tão simples virar as costas;
Magoar inocentes num gesto legítimo de libertação;
Viver cobardemente por não agir ou por tentar a prazo;
Encontrar sempre, para qualquer pergunta, duas respostas,
Infinitamente verdadeiras e excessivamente em contradição;
Coabitar com a existência e com o termo de um ocaso;
Conter realidades opostas.

Não conheço todos os caminhos que me precedem;
Ignoro a importância dos riscos apontados.
Sei que fujo das firmezas que apoiam e, igualmente, cedem.
Os modos estão magoados.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Um beijo, apenas!


E eu quero ser a Terra, firme e quieta,
Sem estremecer ao ver-te, por afecto ou receio!
Não quero ser a Pedra que te atinge em cheio;
Nem a Coisa que não pensa, não sente, não se inquieta.

E eu, também, quero ser o Sol, e, por mim, a Lua, completa!
Uma Luz presente, todo o dia, sem freio!
Agora pára, escuta, olha e deixa a perífrase de permeio.
Para quê querer ser a bala, o dardo, ou a seta?

Assim, quererias, por certo, pisar a repisar a Terra;
Compactar-me até me transformar em Pedra dura;
Eclipsar-me, mas seria eu o centro dessa loucura.

Sem lágrimas, o Sol, entre outros, queima e encerra;
A Terra abafa, mas eu não sou gente de guerra
Ou de ódio, amor! Quero um beijo, com ternura!


Princípio


Enquanto cai a semente às palavras,
Semente que ninguém colheu,
Talvez porque as palavras não são
De uma bela herdade, ou quinta, de boas lavras.
São palavras de uma leira abandonada, que alguém esqueceu.
São o fruto de um amanho directo e sem ilusão;
São a receita de um trato ausente, de solidão e de breu.

Mas, enquanto cai a semente às palavras, já referidas,
Semente que o próprio semeador abandonou
À sua sorte, dita em quem ninguém crê,
Porque, essa fortuna dá muito trabalho e horas perdidas;
Consome afectos, sonhos e o pouco que restou
De uma vida magra, justa; existência que pouco se vê
E que adensa a neblina campestre e o ermo onde ficou.

Enquanto cai a semente às palavras, cansadas,
Semente miúda de geração antiga, seca e mirrada,
Tão provecta que se lhe perdeu a origem,
Génese de receios, de outros freios e de ocasiões paradas.
O princípio de omissão de uma natureza encerrada,
Essência que nem os corvos exigem.
Muitas gralhas urdem na inferioridade da fuligem.

Porém, enquanto cai a semente às palavras, maduras,
As vidas decorrem indiferentes,
Como origem das causas sombrias e de outras loucuras.



quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Tahriza


     A traça concluiu a leitura três versos acima, saltou os saudáveis afectos de verdade, inteiros, completos e de fruição cerebral, para se fixar no penúltimo verso da redondilha menor, onde as palavras se adensavam. Preferiu a palavra mais longa, talvez por gula, mas não a comeu por completo. Não sei se de forma involuntária mas, produziu uma palavra mais curta e de múltiplos significados: «mente»! 

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Revelar e não confundir «ser» com «ter»


Posso oferecer-te palavras, que não são minhas, são
De todos e nem todos as querem. Palavras, pinto,
Com elas, palácios e arvoredos, mesmo os que não sinto;
Destravo um agravo e com ele o regozijo da cessação.

Como queimam no Astro-rei, onde cintilam e brotam, de papelão,
Em frases plásticas ou herméticas; fáceis ou comuns. Extinto
O fogo, ou levadas pelo vento, perco-me no realce em labirinto,
Menos do que na estrada efémera da realidade em construção.

Deixo, unicamente, os sentimentos, os afectos. Contudo,
Lavo o espírito, que não finto, em tisanas de humildade.
Ai, sorte, sina, acaso ou bênção, que não tenho e não iludo.

Aludo! O peso das palavras tem várias medidas. Desigualdade
No texto exacto, onde sou grato, e posso ficar, apenas: Mudo!
Todo eu sou minudência, que se expande, resguarda e evade.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Hoje, só se for eu


Hoje estou cinzento!
Trago o inferno às costas,
As mesmas perguntas sem respostas
E a mesma falta de alento.

Prisioneiro do meu tormento,
Que é ser quem tu não gostas,
Não me iludo, nem faço apostas,
Já fui ídolo e agora sou jumento.

Carrego, então, a loucura, também,
Mas com o conhecimento patente,
Estampado num rosto descontente.

É o fardo de ser ninguém,
Querendo ser igual e ser gente,
Quando só serei se for eu, diferente!


domingo, 11 de dezembro de 2011

Estrelado


Sim! Mãe, eu sei, compreendes que nasci estrelado
Quando outros nasceram com uma estrelinha;
Vês para além do meu sorriso de linha
E descobres o meu coração apertado.

Quero ver o teu semblante apaziguado
E descansa com o bem que se avizinha.
Mãe, mãe, sabes sempre sem ser adivinha,
Sobre o que é bom ou o que me deixa assustado.

Grande, no teu tamanho não tens medida;
Amorosa, em dimensão pura, limite;
Presente, em qualquer tempo, tão decidida.

Porque me escondes a tua tez abatida?
Corajosa, protectora, dedicada;
Carinhosa, com ternura demorada.


Fim de linha!


Fim de linha!
ou 
o primeiro retorno


Um dia pediram-me a Lua
E eu fui
Ao céu
Buscá-la.
Quando regressei
Com ela
Já não era desejada
Já não era necessária
E não consegui devolvê-la.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Geração homógrafa


As crianças chamam-lhe «Bruxa»
E os adultos que, embora com desejo,
Não a possuem, também.
Finge não ouvir e do xaile puxa.
Por vezes, afirmam ouvir-lhe um bocejo,
Mas eu vejo que a fada não se detém.

Para não se enganar, sem rosto,
Lança o xaile sobre os ombros,
Como se fosse uma rede.
Rede onde se esconde e ao desgosto;
Onde se resguarda dos assombros;
Onde se afaga sem sede;
Onde, por fim, se aprisiona,
Achando-se a salvo,
Mas um continuo alvo,
Do mundo que desmorona.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cinzento


Sem dúvida, sem peso, sem surpresa,
Sou, ó mar, tua presa,
Nesta praia, sob o Sol morno.
Sinto-me desprovido de qualquer destreza;
Despojado da raiva e da frustração,
Sem perder de vista o farol, adorno,
Para mim e para a minha condição.

Toco nesta água, salgada e inquieta;
Nesta areia submissa e concreta;
Neste ar envolvente, carregado de mar, a dividir;
Neste fogo que arde em mim e me afecta,
A uma vontade de serenar e partir,
E permaneço com uma convicção completa,
Preso por uma pequena pena de subtrair.

Não sei ao certo quantas aves contém uma pena;
Nem sei dizer se as aves outras penas têm
E, nesta hora que me resta, pena é o que menos me convém.

Não vou mudar o Mundo, nem, tão pouco, contorna-lo.
Não espelho o que sou, apenas o que pareço
E figuro, seguro, mais do que um adereço.

Barra (Ílhavo), 29 de Outubro de 2009.