quinta-feira, 23 de agosto de 2012

À volta e em volta



     Por momentos, o meu horizonte fixou-se entre a ria, o meu sorriso e uma cauda de condensação. Um quarto de volta e ficam invisíveis.

     Uma aranha passeia-se num início de teia, à volta e em volta da sua solidão, onde parece ocupada. Não acredito que esteja a fingir. Talvez esteja cansada, como eu, que a deixo em paz, na sua paz, de momento, hoje. Um quarto de volta e fica o descuido.

     Quero apoiar a cabeça na inércia do sono sem sonho, antes do momento da noite em que as palavras, os objectos e os seres se fundem e confundem. É um momento fugaz, efémero, subtil, quase imperceptível, mas quando se distingue, interioriza, compreende e discerne, deixa uma marca indelével e inesquecível. Bem sei que a duração, o tempo, o momento, são unidades de medidas relativas, dimensões condicionadas. Um quarto de volta e saiu do vórtice.

     De manhã chegará a obstinação do acordar e do desejo, antes do cansaço. Desejo controlar o momento, o sorriso, a energia e ser. Um quarto de volta e existo.

     Insisto, regresso ao meu horizonte, a ria, de factos invisíveis, de descuidos, de vórtices e de existências.


5 comentários:

  1. Olá, ‘Rique!
    Conheço bem essas porções de volta onde damos uma volta inteira; onde nos aproximamos e circundamos.
    Gosto muito do texto!
    Um beijo

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    1. Olá, Vera!
      Quatro quartos de obrigado! [Ou seja, um agradecimento completo!]
      Beijinho

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  2. Uma fantástica volta completa ao momento, com muitas linhas, entrelinhas e metáforas.
    Gosto particularmente do terceiro parágrafo. Não gosto de aranhas (não fico em pânico!), mas esta tem uma função válida no texto.
    Beijinho

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    1. Olá, Laura!
      És muito gentil, obrigado!
      Beijinho

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  3. Como a aranha tecemos a nossa teia, com cuidado, com amor,afeição, mas nem sempre fica como pensamos inicialmente e na verdade ficamos enlaçados na nossa própria teia, vida complicada a dos seres viventes na Terra.
    beijinhos

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