sexta-feira, 18 de março de 2011

Um homem na chuva


Um homem na chuva

Sentado para lamentar só para si e só também.
Perdido, sem saber para onde se voltar, voltou.
Agora olha sem ver a distância de onde olhou,
Para o impenetrável e amado coração de alguém.

Alienado e inseguro, chamam-no e ele logo vem,
Pronto para dar, quando mais um se negou.
Nada pediu em troca e, sem querer, a tudo trocou.
Para onde vai sem rumo e o que lhe convém?

Não vai descalço, nem roto, nem sujo. Vai.
Está e anda sozinho no meio da chuva fria,
Tão constante, tão pesada e enérgica que cai.

Adeus diz para quem passa sem um "ai".
Na esperança tão sua, de voltar talvez um dia,
A erguer a cabeça e os olhos e ver o pai.

Esgueira, 29 de Agosto de 2001.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Pressuposto de panaceia


Amadeo de Souza-Cardozo - Par impar


Pressuposto de panaceia



As promessas de vários gumes estavam cravadas
Nos vocábulos mansos de um eixo bravio.
A aliança pendia livre, presa num curto pavio;
Fendida por desconfianças e ofensas agravadas.

O viço das coisas belas e das realidades amadas
Era um denso nevoeiro de prata, sem brio.
O pino da Primavera formava um imenso vazio
E o laço soltava sensibilidades antes ignoradas.

Pejado de ensejos de profunda comiseração,
Corre, pautado, um arroio pardo, sem registo,
Ao encontro do manancial de consolação.

Eis o prémio reconhecido de uma vida de imprevisto:
O amor pungente, pingente de oração;
Vereda sinuosa e melosa na arriba onde resisto.

Nariz, 24 de Maio de 2010.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Burgo de quantidade


 (*)
   
Uma expressão de cera, uniforme;
Um lacre nos lábios, enrugado;
Estampa a uma dimensão, plasmada.
Inteira o quadro de parecer conforme,
Numa demora de aviso, no prazo amuado,
Sem luz na vela sobejamente encimada.
Modalidade de bano urbano, indiferente,
Enquanto a acidez da chuva apaga a frente.
Deixa o verso, de qualquer coisa amarfanhada.

Partir, sem quebrar, sem mover, apenas.
Varejar os espaços com pontos de algodão,
Colorido, fofo, sem derramar a lágrima actualizada.
Não há portas para tantas saídas, nem arenas.
Os carreiros apinham-se de vultos de hesitação,
Pardos e policromos, num fluxo urgente e claro.
Maquinal, maquinação, na sintonia do raro.
Processamento de excessos de desinformação.

Aplaca a descodificação da ausência feita sua,
Conforme consta na coluna das dores que o não são.
Não importa o postal, os números que cresçam à direita;
O verde; o vermelho. Importa a disposição de leitura nua,
Quando nem a vírgula faz falta para a valoração.
Serviço meio-termo, atendimento automático de receita,
Último andar de afectos pré-pagos e pós-pagos.
Lugares, que vazios ou cheios, são sempre vagos
E o odor é de incenso inibidor, sanção da obra feita.

Não devolvo a antipatia imediata, emito prudência e dó.
A indisposição do abrigo modal dispõe limites
E as linhas do poeta serão presas com pontos sem nó.
  
-- 
(*) Pintura: Claude Monet Reflets Sur L’eau
   
  

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Plano


(*)


O plano muda.

Por vezes só queremos beber a vida;
Desperdiçar mais uma oportunidade;
Fazer mais um acordo, em contradição;
Ludibriar a partida;
Abandonar toda a humanidade…
E fazê-lo, culpando o coração.



Nariz, 31 de Janeiro de 2011.

(*) Pintura: Alphonse Muchaf Poetry


domingo, 15 de agosto de 2010

Continuação



Continuação

O afecto cresceu à volta de um Homem só
E não o deixou, nem para o descanso do dia.
Naquele momento começou o toque de uma melodia
Alegre, bonita, levantando as camadas de um pó
Velho, bafiento e desconfiado, pelas amarguras
De desencontros, desencantos e desventuras.

Sem medos avançou pela vida e abraçou o amor.
Uns tropeços caíram e outros de pronto se levantaram
A par de uns pares de mentiras ouvidas, pois contaram
E nunca ninguém provou a sua verdade e o seu calor.
As anedotas e invejas, as revoltas e intrigas urdidas,
Queimaram-se num passado de felicidades vividas.

Viver na entrega, na dedicação e na procura diária,
Como num namoro constante e nunca esquecido.
Uma união sempre presente e no Homem enriquecido,
Possuído e revestido por uma força extraordinária.
Foi um bom inverno, foi uma boa primavera, é um bom verão.
Espera, mas não sentado, continuar perto da viva emoção.

Homem em quem cresceu o afecto, para onde vais tu agora?
Olha a tua volta e vê a solidão de quem nada deu,
Escuta e ouve o silêncio de quem por egoísmo se perdeu,
Camuflando uma vida sem nela estar dentro nem fora.
Sente a calma da consciência tranquila e do dever comprido.
Hoje vais ser feliz, porque não te deixaste ficar desiludido.

O afecto continua livremente no Homem para servir e ser servido.

Esgueira, 12 de Julho de 2001.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Dia de São Valentim



Dia de São Valentim

Sabes, procuro o alento nas nossas recordações
E mais me fazem sentir a tua já sentida falta.
Porque estou eu sentado e sem ti de verdade?
Formulo esta e muitas mais questões,
Enquanto a memória procura e salta,
É sempre à noite, possivelmente pela oportunidade.

Lembro-me de outras buscas, outras ausências,
Outras noites duráveis de contínua saudade.
Fico a olhar parado e sem ver nada,
Só o passado, as histórias, as vivências.
Sempre a mesma e já conhecida ansiedade,
Nem o sono vem, nem a leva descansada.

Saúdo a noite e a manhã com os braços vazios.
Começo este novo dia com a certeza do nosso amor
E um nosso passado curto, mas de bons momentos.
Quero ter-te e aquecer todos os teus frios,
Acariciar todo o teu corpo sem pudor
E mitigar, mesmo, todos os teus lamentos.

Ouvi-te dizer as palavras mágicas e também já as li.
Por elas abriram-se as portas de um futuro
Para além da imaginação, tão longe e tão perto daqui.

Esgueira, 14 de Fevereiro de 2001.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Noção do saber



Noção do saber

Acordo uma vez mais e longe de ti.
Sentado fico a reviver lembranças,
Num presente repleto de esperanças.
E quero, mas eu hoje ainda não te senti.

Contra o hábito, fiquei. Não me arrependi.
Dos meus sonhos ficaram as tuas danças,
Livre gostar, amor de entregas mansas.
Para saciar a sede te percorri.

Descerro a estampada insígnia da alegria,
Por poder sentir um homem crescido,
Nesta noite fria de mais um outro dia.

Pudesse eu gritar para ser ouvido,
Pela musa viva inspiradora e guia,
Para nunca mais viver esquecido.

Albergaria-A-Velha, 19 de Dezembro de 2000.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Para cá do medo do fim



Para cá do medo do fim

Para além do olhar intenso,
Para cá do medo do fim.
Desta forma louca de me expressar,
Venho dizer a falar do sentir imenso
Alojado tão dentro de mim
Em êxtase, com vontade de me ultrapassar.

Quero a graça do discernimento
E a segurança de não ser errante.
Quero compreender, mas sem razão,
A sensibilidade sem tormento,
A dor aprazível, constante.
Intento expandido e sem explicação.

Advertido por sinais sem censura,
Aconselhado por sons sem enfado,
Avisado pelo entendimento sem reprimenda,
Procuro o motivo esta candura.
Sigo o curso do meu humilde fado
E despreocupo-me de qualquer emenda.

Os reventos florescidos neste Outono,
Quero preservar de inverno.
Aborreço-o embora ele exista e venha.
Seja como for, não estarei ao abandono,
Não farei parte do seu inferno,
Porque eu não quero essa senha.

E se algumas vezes eu errei
E se também eu andei perdido,
Isso não vai dar prova de ser incapaz.
E se algumas vezes eu esperei
E se também eu não fui ouvido,
Isso não dá o direito de me tirarem a paz.

Peso a dor de uma despedida.
Eu vivo e sigo por uma via,
Com origem de onde eu venho
E com destino a uma subida.
Se o olhar me trai e denúncia,
É pela afecção e pelo seu empenho.

Às vezes tudo parece pouco claro.
Por vezes até parece irreal.
É a vida a dar voltas para lá
E eu a dar voltas sem amparo.
Pareço errado e a fazer tudo mal,
A correr mas a ficar cá.

Eu não desespero e penso chegar
A sentir de novo, contra o meu peito,
A força de um abraço forte.
Só ele me poderá descansar.
E depois, quando estiver já refeito,
Poderei sonhar com melhor sorte.

Para cá do medo do fim,
Para onde eu não quero ir,
Não vou estar, nem lutar contra mim.

Albergaria-A-Velha, 09 de Dezembro de 2000.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Noite feliz


Noite feliz

E agora serás feliz por fim?
Eu não vou saber do futuro
Antes de ele chegar seguro
E longe deste meu frenesim.

Tu já és muito maior dentro de mim.
E com os meus braços procuro,
Na direcção desse breu escuro,
Teu corpo e ouvir-te dizer o “sim”.

Pois é e será sempre e sem favor,
Um sentimento resoluto,
Acarinhado por esta dor.

Não quero estar longe e escuto.
Adorno o presente com o amor
E todo o seu divino fruto.

Albergaria-A-Velha, 8 de Dezembro de 2000.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Noite, dia de Julho


Noite, dia de Julho

Falta um sono para vir o descanso,
Sobram os sonhos para correr a vida.
Avança pronta mais uma hora decidida,
Rumo a um futuro sem um alcanço.

Ando lento, mas na verdade ando manso.
Noto sem ver quem vai sempre de partida,
A noite, sempre ela altiva e assumida,
Pronta para levar, tirar e dar o balanço.

Diz-me porque os teus olhos já não brilham,
«Durmo.» Não pode ser a simples resposta.
Os meus procuram, perguntam e fervilham.

Mais tarde ao acordar, de vontade deposta,
Sem saber quantos enganos me palmilham,
Vou lutar com a força de quem ama, e gosta.
  

Esgueira, 12 de Julho de 2001.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Qualquer



Qualquer

Qualquer sentimento acolhido
Na penumbra de uma incerteza,
Poderá ser um sentimento perdido,
Seja qual for a sua grandeza.

E entra a noite mansa com a solidão,
Fico sem rumo, fico um pouco mais...
Fazem-se ouvir as gotas da chuva amena.
Quebram-se quando tocam o chão
E juntam-se e formam pequenos canais.
Não há dor, não há mágoa, não há pena.

Qualquer rumo seguido sozinho,
Não significa, forçosamente, a solidão.
Mas não garante um final de caminho
Amparado pela esperada outra mão.

Venho de sentidos, sem os saber sentir.
Não entendo os caminhos e sigo,
Para não me parar na lembrança.
Se pelo menos eu me pudesse mentir,
Seria mais brando comigo
E daria a verdade a essa esperança.

Qualquer padecimento gerado
Sem promessa e de consciência,
Será sempre um padecer ancorado
Sem direito a lamento e clemência.

Voo, quero, mas não fico fora.
Se me perdi num demorado olhar,
Foi a procura de uma qualquer razão,
Foi para me sentir vivo agora.
Foi para mais tarde não me lamentar,
Por não ter dado ouvidos ao coração.

Qualquer fumo tem um fogo,
E cega os olhos por ele tocados.
O amor nunca será um jogo
E será sempre dos enamorados.

Desacredito os temores de comentários.
Dou, sem com isso me preocupar.
Já esperei receber em troca a verdade,
Puras alegrias, sentimentos sem cenários.
Mas por não os receber, não deixei de acreditar
No amor, no futuro e na liberdade.

Em qualquer dia, eu sei,
Vou deixar qualquer eu perdido,
Longe de qualquer lei
Protectora de qualquer esquecido.

Quando ficar a névoa em meu redor
E eu, já perdido, não conseguir caminhar de novo,
Não terei ninguém para me salvar.
Mas se eu não conseguir melhor,
Deixo a esperança e o sonho ao meu povo,
Da validade, da importância e da força de amar.

Não espero qualquer absolvição,
Sou mais um qualquer errante
Encontrado nos caminhos de uma paixão.



Albergaria-A-Velha, 3 de Dezembro de 2000