terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Incorpóreo limite


Quem desistirá primeiro?
Se uma vida está dissimulada
E outra entre mente proibida
Se um projectar é interdito
E um desejar impedido
Se a frase formada abandonar o modo
E o estilo for de silêncio
Se num tempo de adversidade
Não sobreviver a direcção
Se no carreiro de paz
Estacionarem a última mina
Se não me sobrar pelo menos a tristeza
Na ausência declarada da escrita
Não importa o direito!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Norma de contexto



Num dia em que as letras deixaram de formar palavras
Encontrei-te algures entre as penas de uma melodia
Nas vibrações de um ar seco de alusões de fantasia
Sobreposto às condições de vida e a subjugar lavras
A meio caminho entre a veneração e a heresia.

Pobre fragmento de coração inquieto e deslocado
Crédulo e vago no sentido de uma diligência vencida
Determinação de paralogismo e piedade estabelecida
Marioneta de um rumo constrangido e simbolizado
Para num ápice determinar a luminescência de uma saída.

Das máscaras que se transformaram em rostos
E das caras que se converteram em disfarces de paz
Retornaram os termos incluídos que refutas sagaz
Num alcance de ambições, com escolhas e por gostos
Num dia em que o sinal e a doutrina não satisfaz.

sábado, 21 de janeiro de 2012

E hoje… (XXII)



… Dói-me ver-te chorar sem conseguir saber o porquê. Se, pelo menos, conseguisses falar...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Noite eterna


Boa noite!

Observo o céu negro opaco da noite que traga as estrelas
O frio accionado oferta uma carência de recolhimento
Que vai além da necessidade de manter o corpo quente
Um desígnio inerente carrega e aglomera um decreto oculto
De sobrevivência sem subserviência, há muito aguardado.

Boa noite!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Medida de tempo


Recordo-me que és, não me esqueço, também o sou,
E olho para um horizonte que não me pertence.
De lado, num lanço que a memória vence,
Importa-me menos para onde vou.
Descruzado, ao jeito de uma aparência,
Segue-me a sombra e a sombra da consciência.

O teu sorriso ainda brilha na negrura da lembrança.
Há serenidade na imagem que perdura e guardo;
Que placidamente emolduro e resguardo;
Que egoistamente quero só para minha bonança.
Já não sei se é dor ou se há dor nesta ternura,
Ou se insistir na memoração é apenas loucura.

Não alcanço os sons nem concebo o toque.
Há uma ponte que se quebrou, embora una;
Um hiato aperfeiçoado pelo tempo de lacuna,
Instituída na alusão, que viaja a reboque.
O resto diviso. Uma imagem viva
De uma presença compreensiva.

Permito-me alegrar na alegria que perde a gravidade;
Entoar silenciosamente a melopeia atenuada pela distância;
Arrebatar e apenas; embeber a antiga e a nova infância;
Celebrar em festa e sem o travo amargo da saudade.
Sem atrevimentos discorro no que por aqui me vai,
Em memória, com coragem, revisito o meu querido pai.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Breviário [XVIII]


     Num rascunho, uma oportunidade; num tempo, uma vida.

     Há incidentes que possuem a virtude de mudar o rumo da existência. Basta um momento efémero de modo, ou de sensatez, e o trilho sobressai, rigorosamente, no lugar onde sempre existiu. É o momento, como um presente do presente, que se impõe inadiável, indeclinável e irrefutável.

     Os percursos com consonâncias e de satisfações, ainda que tortuosos, podem conduzir-nos, mais facilmente, a destinos mais sociáveis e numa viagem tratável.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Austeridade


Por vezes não sabemos pedir ajuda
Deixamo-nos ultrapassar pela vida
Desbaratamos um momento
Não reparamos que tudo muda
Tropeçamos e falhamos na saída
Perdemo-nos em mais um lamento
Não examinamos o antagonismo
Anuímos numa cega concordância
Abandonamos toda a elegância
E fazemo-lo para não nos culparem por egoísmo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Descerramento


Já renascidos e restaurados os propósitos
Como provisores e grandes depósitos
Com os desígnios da recusada Lua
Com Inferno recebido e datado
Com a voragem reservada da margem
E em riste o sorriso da realidade nua
Segue em marcha de um perto destacado
Agrado de compleição e estável na passagem.

Sem jóia ou relíquia declarada
Obvio e oriento a conhecida afeição
Credível presente
Honrada e actual
Guia imediata
Salvo-conduto exacto.
Abertamente veiculador
Com um sorriso
Ninguém permanece só!

domingo, 15 de janeiro de 2012

E hoje… (XXI)


     … Pouco mais do que uma definição, um pouco aquém de uma vontade, um pouco depois da hora. Concluído e um pronto-a-pensar.

     Volto aos trilhos, sem ilusão. Sobrevivo aos pontos comuns, assim como fujo dos lugares-comuns. Fujo dos sujeitos, mas não consigo, nem quero, fugir de mim.

Quota-parte


     Mais do que uma maré de troça, permanece como uma constância e uma substância de contestação que vem e vai, de igual modo que os sargaços ao sabor das ondas. Mas não passa de uma repulsa empertigada. O flamingo-dourado é da mesma opinião.

     Horas, uma poção e uma porção de oportunidades. O moliço agudiza a objecção, embora embrenhado na tarefa de subsistir sob a contaminação que exorta em recusa. A água deixou de ser cristalina, continua a ser salina.

     Vontade! Desconsidero os símbolos de gerúndio gentio, os prefixos e os símbolos de ligeireza e mutabilidade procedentes da chegada da trachea atriplicis*, carregada de memórias do Vouga. Porque vem a assombração da borboleta, uma e outra vez, escarnecer sobre o confluir na Ria e o desembocar no mar? Talvez o mofar seja próprio da sua natureza, que não julgo, não detesto e não ridicularizo, mas não adoro, não reverencio e não amo.

     Agarro-me ao hífen sem grandes pormenores, enquanto os advérbios descansam, absortos do lugar, do tempo, do modo, da intensidade, da dúvida, da afirmação, da negação, em palhas e abraçados aos adjectivos.

     O néctar das flores permanece como caução de subsistência primitiva. Gosto das flores e é por gostar delas que não as colho!




*N.A.: Borboleta nocturna da família das noctuidae. 

sábado, 14 de janeiro de 2012

Breviário [XVII]


     Peste, guerra, fome e morte. Peste, Guerra, Fome e Morte. Suspeito dos quatro cavaleiros em totalidade simétrica. Repetem-se em demasia, e todos trazem morte. A Morte, afinal, é recorrente.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Paulatinamente


Cedo, desobrigado, e desço a rua,
Acompanha-me uma sombra tua,
Desejo corresponder aos teus sorrisos
E cair no paradoxo de querer estar só e contigo.

Cedo, desobrigado, e desço a rua,
Com um pedaço generoso da Lua.
Pretendo capitular aos factos concretos,
Com benquerença e eximido.

Cedo, desobrigado, e desço a rua,
Segue-me uma bênção imune e crua
E antes do virar da esquina de Marte
Descanso junto à Ria, na tua memória.