quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

acordei o poema




longe 
cada vez mais longe 
acordei o poema 
onde tudo termina em silêncios 
numa folha solta do destino 
talvez seja eu a chegar cada vez mais devagar 
a essa linha que os olhos devolvem ainda 
com a mesma nitidez 
numa história que de perto se vai turvando 
ou talvez a minha percepção tenha evoluído 
e tenha recomposto a noção do tempo 
que demoro a percorrer esse mesmo espaço 
onde a tempo abro palavras fugidias 
que a espaços me levam a pairar 
enquanto me perguntam gravemente 
e entre sorrisos cúmplices e mordazes 
pelo sentido da minha vida 
ao que absorto eu vou retorquindo 
entre sorrisos que me dançam o ar 
«tudo à volta de procurar, sentir e voar…» 





sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

dos azuis



- à generosa e gentil Piedade!



o que não sabes é que, por vezes, sou tomado, 
gentil e suavemente, pelos teus azuis (esteja, 
ou não, azul ou abraçado aos meus azuis). 
outras vezes, sento-me num ou noutro desses 
azuis e viajamos, eu e os azuis, até aos limites 
fantásticos onde tudo renasce. noutras vezes, 
ainda, sou eu que entro azul e silenciosamente 
nos azuis dos teus poemas, ou fotografias, para que 
me façam companhia. de uma forma ou de outra, 
há sempre uma profusão de cores e os azuis… 
sabes como são os azuis... transportam-nos!… 
eu voo até ao meu lugar, na minha praia, 
e amalgamo-me, depois, no meu mar!... 




sexta-feira, 28 de novembro de 2014

forças





o céu limpo é o meu tecto 
e perto 
irremediavelmente perto 
as ondas espraiam-se 
com o temor demorado de quem não se vai salvar 
talvez pudéssemos falar se te silenciasses 
se te escutasses um pouco mais 
mas a água das ondas apressa-se a regressar ao mar 
como uma enxurrada repentina 
e a noite surge já adormecida 
cansada de formar sulcos na alma 
como se esta fosse do mar a espuma 
e o mar uma relatividade quotidiana 
repleta de fórmulas complexas e mutáveis 

na vorticidade do desencontro 
teimo em desenhar sorrisos distraídos 
flores que também vejo felizes no outono 
algumas estrelas estereotipadas 
e corações gentis 




quinta-feira, 27 de novembro de 2014

por uma brisa





é em casa que deflagra
a saudade da miscigenação
das cores que não puderam vir,
porque é assim a noite densa;
que combusta o mar extenuado
e as mirradas ruas se enxugam,
porque é assim que as horas gastas
expelem do útero um novo dia.
nas entrelinhas de silêncios
do regresso a casa,
perseguia-me a mesma brisa forte
e inquiridora que se anunciara,
por murmúrios e frio,
na padaria alegre e próxima,
que também é pastelaria de brio,
enquanto esperava pelo pão,
e bebia uma água mineral
natural gaseificada, fresca;
enquanto vocês, e algumas palavras,
entravam de forma arbitrária
(ou talvez não tão arbitrariamente),
na minha cabeça, e construíamos
histórias inusitadas,
depois de conferir, apressadamente,
num habitual calafrio e sobressalto,
se teria dinheiro suficiente.
não haverá, certamente, certeza.
talvez pretendesse, apenas,
companhia, a brisa.
mas ateámos a loucura,
que é semear bonanças
de amor e amizade.




quarta-feira, 26 de novembro de 2014

ah






em mim
no meu pensamento
à flor dos meus sentimentos
uma última vida e saber que não vamos esquecer
poderíamos servir o mundo já preparado
sem qualquer indício de pressa
e espraiar novembro
num abraço
liberto da metafísica
e parte do espaço-tempo
a expansão do nossos corpos
como se esse amplexo fosse o universo
frágil e em crescimento
tão simples




terça-feira, 25 de novembro de 2014

repetição





o próprio acto de existir é uma perda de tempo
qualquer espelho possui a certa inutilidade
e um certo odor e dor que conduz ao interior
e a lugar nenhum onde se servem os pequenos nadas
não me sirvam provérbios como um prato do dia
sirvo-me da renovação que existe na tua repetição
na renovação que existe na minha repetida respiração
e talvez me proteja dos guarda-chuvas com a chuva
que se repete sempre nova num limite gravitacional
talvez por estar sempre madura ou pouco segura
de onde talvez eu me repita para que me encontrem
mas saibam que não encontrarão sobre mim uma
única estrela que vos possa guiar nos meus ou nos
vossos caminhos onde talvez existam sombrinhas
talvez eu corte o cabelo para deixar de sofrer 




presença indelével





várias vezes pesei
o rumor das estrelas
no rumor da praia
entre palavras parideiras

várias vezes pensei
voltar mas era outro o dia
que nunca chegava
e eu não quero brilhar

venho e sou do tempo do mar
tenho vivido de poema em poema
na margem da mesma laguna

onde habita uma oração em ruínas
eu amo sem poder amar 
enquanto as gaivotas distribuem colinas




terça-feira, 28 de outubro de 2014

haverá quem nos conte





ergueu-se para nós a noite 
numa aspiração sentimental 
a pele reconhece o seu içar 
e a noite o eriçar da pele 

reserva-nos uma ternura 
um afago por uns instantes 
quase uma razão convergente 
e vemo-nos de olhos fechados 

quase nos vestimos com ela 
e é ela que nos despe até a alma 
e nos aconchega a simples história 

o espanta-espíritos mergulhado 
reconhece a música do coração 
a melodia da noite que te escrevo 




segunda-feira, 27 de outubro de 2014

preliminar





… abundante. abundantemente, assim, 
sem contexto. serve-te do que mais te fizer 
feliz; do que mais te apetecer; do que mais 
te agradar; dos afectos… em abundância. 
fecha os olhos e ouve… ouve o meu marulhar 
no poema, mesmo junto ao abismo tatuado 
na orla da praia. desperta todos os sentidos… 
em sincronicidade com todo o que te rodeia, 
te encontra e desencontra. envolve-te 
no significado abundante da harmonia e todas 
as suas agitações, arrepios e serenidade… 
ouve, cheira, saboreia, observa, tacteia, 
percepciona… os vários tons das várias cores; 
a energia e as várias sensações da tua pele; 
o que vês e sonhas; o que sabes e não sabes; 
os vários tons das várias palavras; o vazio… 
deixa-te fluir numa amalgama abundante… 




domingo, 26 de outubro de 2014

lado b





uma fatia de outono aguarda sobre a mesa 
ainda tem portalegre colada ao corpo justo  
parte um fragmento de encanto que ficou 
no súbito outubro quente que lembra verão 
e não fosse o inesperado odor forte a amor 
e a pão do outro lado dessa história nativa 
os meus lábios agradeceriam a tua ausência 
assim como os sobreviventes dos cataclismos 
agradecem as sórdidas paredes sólidas 




sábado, 25 de outubro de 2014

suspenso





esta noite sonhei com lobos de novo 
cercavam-me num círculo perfeito 
a cobra branca ficou imóvel e calada 
o meu olhar ficou no líder da alcateia 
e o grito e a respiração presos no peito 

respiro 
um violino emprestou-me a alma caída 
hoje esqueci-me de almoçar o labirinto 
e o mundo ficou num silêncio caiado 




sexta-feira, 24 de outubro de 2014

disposição das partes





há poemas sem solução que se arrastam 
nos versos de folhas já usadas ou 
em qualquer outro pedaço de papel 
suspenso de efeito munidos da palavra 
munida de quebra-cabeças solúveis 
palavra que não cai no outono a palavra 
que num acto de contrição observado 
adere ao corpo e consome quase meio século 
amor