terça-feira, 27 de outubro de 2015

de partir


aveiro
aveiro | portugal



houve um dia em que pensei que partia, 
queria ir para um céu onde existissem maçãs. 
um céu onde houvesse alguém que me desse 
um abraço lento e nesse abraço habitasse 
a bondade, sem as circunstâncias da brevidade. 
estava cansado, muito cansado, de ser apontado, 
agarrado à matéria das ideias que ninguém via. 

houve um dia em que pensei que partia, 
sabia que ficando, ou não, eu me iria perder. 
odiei, e queria, apenas não beber o fel; 
não queria ser o centro do cheiro e do som. 
a minha intimidade não era ser o primeiro, 
nem ser o sino a rebate, a má sina ou a esquina. 
queria respirar a preguiça dos afectos, no mar. 

houve um dia em que pensei que partia, 
sonhava com uma terra não prometida, 
sem promessas, sem o azedume das pupilas, 
sem o rancor da ponta do dedo indicador. 
sem a demagogia, apenas com o gosto da magia, 
o brilho certeiro de uns olhos a darem o primeiro 
bom dia do dia. e não pensava sequer que ia. 

houve um dia em que pensei que partia, 
sobravam-me as asas e faltava-me a paz. 
fechava os olhos e voava sobre a epiderme 
das fantasias, sobre os dias, para além do voo. 
e a pensar, ou sem pensar, cheguei aqui, 
sabendo que realmente nunca se parte: 
vamo-nos quebrando até ao desconhecimento. 

ainda quero esse braço (e um céu de maçãs); 
ficar no beijo lento da evidência, na retina, 
frente-a-frente, e guardar tudo isso na derme 
e na parte não perecível de quem eu sou. 
ser, sem promessas, fora e dentro da janela. 
e ter, sem política, na ficção plena da afeição, 
conhecedor da partida, mas sem hora definida. 


[o significado do silêncio]


1 comentário:

  1. Há lá coisa melhor do que um céu de maçãs onde nos quedamos num beijo?

    Belíssimo poema e não menos bela foto, Henrique!

    Beijinhos. :)

    ResponderEliminar