quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Permanecer



Eu não quero falar do tempo ou do estado do tempo; 
nem das transparências do corpo a imergir na névoa densa; 
nem da realidade que tropeça no sonho ou o sonho nela. 
Uma aurora sem luz excessiva e os meus olhos têm asas. 
Na minha cabeça crescem árvores de raízes enluaradas 
e das suas feridas cicatrizadas soam rumores de aniversário, 
ou é, apenas, o som de um ataúde que atravessa os versos, 
num espirituoso sobressalto a que chamamos corpo. 
Vem, junta-te a mim, aos sons da ria e aos seus cheiros 
húmidos. Abrirei o meu peito para te conter, para te auxiliar 
na travessia do invisível, uma espécie de solidão do olhar 
e que desaparece, espontaneamente, com o nascer do dia. 


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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Regresso a Outubro



Há, claramente, momentos de silêncio; de outro tempo; 
de manhãs que acordam prometidas ao acaso, aos pássaros, 
as raízes emaranhadas; independentemente do tempo. 
No entanto, tudo é tão relativo e as próprias palavras 
nem sempre conseguem assegurar a sua própria forma 
ou a sua consistência, surpreendidas no cais, pelo amolador. 

Regresso a Outubro, às folhas das árvores, por entre folhas 
de cadernos e blocos de onde nunca saí. Regresso ao vento, 
ao frio; à congeminação da alegria de te voltar a ver; à tua boca; 
à casa que chama por nós, com a promessa da chama da lareira; 
à ponta dos dedos; aos olhos; à imaginação; à fragilidade do céu, 
de onde as nuvens hão-de cair para a banheira de mais um sonho. 


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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Criação



Tudo o que escrevo é intencional. Bom, quase tudo, 
e a intencionalidade não se transforma em biografia. 
Por vezes, num estado febril, na ebulição da escrita, 
num rasurar, excluir, refazer, apressar… aparece um erro. 
E o erro pode ter vários tamanhos e ser mais ou menos 
fatal. Caem-me algumas penas e, embora fique envergonhado, 
não escondo o bico debaixo de uma qualquer asa de ocasião. 
Para além disso, tudo é intencional, mesmo os títulos mais parvos, 
os restos de sentimentos, os rostos sem nome, as imagens, 
a estridência da insanidade… o gosto, discutível… o amor… Mas, 
é claro que não inventei, propriamente, o amor, embora tenha criado 
um poema que o inventou. Sei, agora, que já outros o inventaram, 
rigorosamente, com palavras; com actos mais interessantes; 
com outros engastes. E aquele, embora meu, embora seja, 
para além da descoberta e do encontro, não é uma invenção. 


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domingo, 9 de outubro de 2016

Chamo-te



Um último clarão de poente, uma estreita remanescência de luz, 
o ponto onde a noite principia o trajecto que já me vela. Uma 
aparente viagem nostálgica, pontuada por um suspiro definitivo, 
que me revela de várias formas e, também, as múltiplas raízes. 
A areia sonha longamente este sentimento. A água espraia-se 
devagar, sensível, solidária, para não perturbar o equilíbrio do céu. 
A noite encolhe os ombros e o vento prossegue nu por um funil 
de silêncio. O sorriso atravessa os versos, actualiza as palavras, 
define ambos na sua curva impossível de dizer, como um desenho 
de afectos claros, de muitas ramificações, a linha que nos une. 
Chamo-te, em sussurro, deste lado do vento, por uma abertura 
intransitável do céu, que o noitibó evitou cuidadosamente. 


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sábado, 8 de outubro de 2016

Inventei o amor



Inventei o amor. Um sentimento sem a possessão de outrem, 
mas com zelo, sem receio: o ciúme. Inventei-o simples, simplesmente, 
embora se complique explicá-lo, como se me perdesse nas grandes 
curvas do ar e me fosse impossível voar conduzindo as palavras 
por entre os galhos das árvores. Inventei-o e dele faz parte, sempre, 
uma grande afeição e, por legítima preguiça e genuína e pura insensatez, 
continuei a designá-lo pelo mesmo nome, quando, por vezes, 
lhe encontro a atracção. Inventei-o e sofro a alegria da carne, 
tão consentida, tão isenta de crueldade, tão sem culpa, tão intensa, 
quando é o rastilho do desejo. Inventei o amor: 


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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Poente com abraços



Hoje não sou lamecha. Afasto-me dos meus dedos, 
que são, de forma cerimonial e fortuitamente, os teus. 
Não há tempo de mais, os pássaros desapareceram 
na tarde indistinta, que se encaminhou para o seu termo, 

carregada de circunstâncias e de razões misteriosas, 
como ondas, que rivalizam com as de um mar mais agreste. 
As árvores, confusas, tão cansadas de andar, já não sabem 
ao certo se procuram a justiça do amor, o amor com justiça, 

ou o amor na justiça. Algumas, por fim, limitam-se a deixar 
cair as folhas, para, depois, as percorrerem, contemplativas, 
como se procurassem uma qualquer explicação ou esperança. 

Eu sorrio estupidamente, ou seja, sorrio em paz, sozinho, 
embrulhado em recordações, algumas que nem existem, 
e atravesso a sorte de um bonito poente com abraços. 


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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Plantas



– Não prometo nada! – E dito isto, a árvore prosseguiu o seu caminho, 
fincando as raízes na terra, na sua imobilidade relativa, abstracta 
e garbosa. Estendendo os ramos na densidade curvilínea do ar, 
à procura da aurora do outro lado do mundo. As árvores também 
se amam, assim como todos os seres vivos do reino vegetal. Eles 
também inventaram o amor, em todas as suas formas e à sua medida. 
Faz-te aqui e em mim, seremos duas árvores de amor perene 
nestas horas caducas que voam com o vento, ou para termos um 
amor caduco em horas perenes, mas sem nos prometermos nada. 


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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Transitar



O mundo ao contrário, definitivo. 
Descobrir que o amor está em tudo 
e em qualquer lugar, mas que não é igual; 
que, se calhar, por vezes, é um amor sem luz. 
Desenvolvida a ideia do movimento 
que nos aproxima, acerco-me de ti, 
num azul cronológico, limpo de histórias, 
e viajo nos teus olhos, à procura do teu 
corpo tépido, onde já me perdi várias vezes. 
As tuas ondas envolvem-me, alisam-me 
e devolvem-me. E que mais se poderia dizer 
no nosso dialecto de sussurro e gestos? 


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terça-feira, 4 de outubro de 2016

De encontro


Começa por ser uma concepção e um sorriso, 
ou um devaneio perfeitamente exequível: 
O dia corre para ti e, por fim, estarás aqui, 
naquilo que é agora um horizonte invisível. 

Depois, o vento lambe-nos o corpo e aviva 
as labaredas de um fogo vestido de saudade. 
A roupa, o corpo, o desígnio, flutuam por magia 
e o nosso cheiro, singular, invade a cidade, 

na fricção do abraço. Um estranho sortilégio 
ilumina os nossos corpos e somos um, a figura 
luminosa da noite e a languidez do privilégio. 

Sim, as árvores cantam e o céu está aberto; 
a praça aperta com ondas que transmitem 
a sensação de que estás próxima e eu desperto.  


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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Raio de Sol


Uma voz sem dor, a minha voz antiga, chama por mim 
no silêncio da almofada. Procura-me as raízes e eu, 
entre os lençóis adormecidos, no quarto que ainda 
soluça sonhos de filósofos, delicadas criaturas do ar, 
procuro entender a língua seca, no escuro de limites 
que não quero meus. A transpiração traz a luz aos pés. 
A febre dança, a ânsia precisa de dançar e a coragem 
toca a música lunar, do raiar da aurora e de fadados 
relógios. O rumor da cama pronuncia palavras de amor 
que te encontram no tecto, tão divertida, meu raio de Sol! 


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domingo, 2 de outubro de 2016

Coração


A ria amarrada ao cais, ao sabor da maré da praça 
com ondas adormecidas; o rumor das árvores 
com os silêncios de leitos vazios; pedacinhos de terra 
que sobrevoam a cidade sob a forma comum de aves 
tão diversas; o adeus do sol, que lava as distâncias 
que a noite já não poderá vestir; o recolher opcional 
das formigas das palavras… Instante suspenso, denso, 
que encontra a própria forma e determina o objecto. 
Imagens que patenteiam o amor visível aos olhos 
e que procuram os olhares para adormecerem serenas 
em outros contextos do céu que ascende pelos ramos 
do coração. Coração, uma outra forma manhosa 
de chamar quem se ama, ou de dizer: amor! 


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sábado, 1 de outubro de 2016

Arrepio



O corpo num sorriso longo que alenta a vida. 
Uma forma serena de solidão, onde o mar 
se abre na decisão do amor. Procuro os dedos 
das palavras resolvidas, ou o medo de te amar, 
na luz obstinada das frases que sobrevoam 
abraços que florescem num arrepio extenso. 


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