domingo, 9 de outubro de 2016

Chamo-te



Um último clarão de poente, uma estreita remanescência de luz, 
o ponto onde a noite principia o trajecto que já me vela. Uma 
aparente viagem nostálgica, pontuada por um suspiro definitivo, 
que me revela de várias formas e, também, as múltiplas raízes. 
A areia sonha longamente este sentimento. A água espraia-se 
devagar, sensível, solidária, para não perturbar o equilíbrio do céu. 
A noite encolhe os ombros e o vento prossegue nu por um funil 
de silêncio. O sorriso atravessa os versos, actualiza as palavras, 
define ambos na sua curva impossível de dizer, como um desenho 
de afectos claros, de muitas ramificações, a linha que nos une. 
Chamo-te, em sussurro, deste lado do vento, por uma abertura 
intransitável do céu, que o noitibó evitou cuidadosamente. 


 [massivo]



1 comentário:

  1. Um dia que adormece... na vontade de nos acordar por dentro...
    Mais um poema excepcional... para apreciar e reapreciar...
    Adorei! Beijinhos!
    Ana

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