terça-feira, 1 de novembro de 2016

Errático


O cemitério florido, levemente oxidado e cheio de formas 
de vida aparente, ainda povoa os meus pensamentos, 
como se a vida passasse pelo buraco de uma agulha. Agora, 
sou parte de parte da ria pendente numa ténue névoa, 
levemente acinzentada. Parece que a cidade se afastou, 
como um estremo da noite. Não pretendo conceber 
uma igualdade de circunstâncias absoluta, apenas o seu 
arrepio, e reparo que a humidade conferiu brilho à calçada, 
brilho que se estende aos bancos desocupados e à relva 
onde brincam cães absortos, de pessoas ausentes 
que se assemelham a sombras, apenas sombras. 
Não consigo assegurar as suas dimensões, formas 
e distâncias, e caminho lentamente, pela rua inevitável 
que me conduz à Beira-mar, onde chegar é uma questão 
de futuro próximo e de contornos mais ou menos serenos. 
Por momentos, a névoa aparenta crescer dos cães 
e dos seus donos, como uma espécie de cansaço febril 
a libertar-se da prisão dos corpos e a diluir-se no ar: 
a representação física do meu próprio cansaço e da sua 
ilusão, por vezes insinuante, em mim. Só para mim. 
Detenho-me na curva de um sorriso incompreensível, 
uma resposta simpática e solidária do meu corpo, 
apenas corpo, a tropeçar no corpo de um sonho. 


 [massivo]



segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Massivo


Brotam, essencialmente, à noite, junto aos bebedouros 
dentro de portas. Florescem praticamente todas as noites 
e o desflorescimento ocorre com a chegada da manhã. 
Por vezes, titubeiam insones e lamuriosos; vacilam factos 
e palavras; gemem uma angústia fermentada e convulsa 
de afectos demolidos, que os distancia da esperança 
ou lhes confere uma esperança ébria e comprometida. 
Mas, nem sempre é assim, no relativo etílico reflectido. 
Conheço esses caminhos do amor, para além do olhar 
químico, filosófico ou emotivo, mas não vou por aí. 
Rumo noutro sentido, procuro outra vertente do céu; 
a companhia de uma estrela; o murmúrio líquido 
e nocturno da lua, da ria, das árvores, das ervas, 
que se transforma numa frágil, mas terna, melodia. 
As palavras orbitam e rodopiam em torno deste som. 
Tenho a cidade cravada nas costas. Talvez nunca perca 
o teu rosto absoluto e concreto, a sua imagem, na distância 
das paisagens da memória. Mas, quem és tu? 


 [massivo]

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Dedução


Os dias encurtaram, nitidamente, com o crescendo 
do outono. À excepção das gaivotas e das pombas, 
que em alguns momentos aparentaram possuir toda 
a serenidade e todo o tempo do mundo, as restantes 
aves deambularam de um lado para o outro como se 
tivessem algum dever a cumprir, um afazer permanente 
e inadiável, uma urgência constante, enquanto a luz 
do dia o permitiu. Pouco mais me resta do dia. À noite, 
o silêncio junta-se a todas as aves diurnas e estas são 
dissolvidas pela escuridão. As nuvens deixam, apenas, 
uma ideia de céu e, quando as janelas se iluminam, 
percepcionam-se uns vagos vultos ou a projecção 
vazia dos seus movimentos… A vida é o movimento 
e é tudo o que com ele fazemos e como o multiplicamos. 
Mas, há movimentos sem vida e outros que conduzem 
a morte. Também o movimento é relativo e ilusório. 
Sorrio com estas inusitadas deduções e não continuo. 
O ar entretém-se comigo, o que afasta a sensação 
de ser um irremediável poema, a viver numa gaveta. 


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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Sentido único


Os lábios comprimem-se, como se pretendessem ajudar a suportar 
as imagens pálidas e vagarosas que parecem chegar em suores frios. 
Poderia dizer que a minha razão e o meu coração estão noutro lugar. 
Afasto-me das almas mais problemáticas, aquelas que se cegam e cegam. 
Que cidade é esta, onde vogam rostos fechados e imperturbáveis? 
Que parte de mim eu sou neste canto remoto e frio do meu ser? 
Hoje perdi as árvores, perdi a ria, perdi a vontade e o meu nome. 
E não é sobre mim, mas sobre coisas que eu, de alguma forma, experienciei. 
A luz vermelha, do semáforo, aguarda que eu passe. Aperto-a ao peito. 


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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Periférico


Agora, a periferia. Os salgueiros, que emolduram e zurzem 
o Vouga, guardam as suas próprias formas entre as raízes 
do ar. Por vezes, falam de salgueiros mais distantes 
e carpidores, salgueiros que os próprios salgueiros evitam. 
Encaram as paisagens húmidas com sorrisos e desconfiam 
imensamente de quase tudo o que se relacione com a cidade. 
Sabem que, à noite, as coisas se agigantam, carregadas 
de tons escuros, enquanto a linha do horizonte tende 
a turvar até à sua inexistência ao simples olhar nocturno. 
Por vezes, desperta em mim uma onda de imensa saudade 
e procuro o rumor dos salgueirais. Embora só, aqui nunca 
estou sozinho. Aqui as almas são descomplicadas e, apesar 
da minha reconversão à cidade, do meu rosto adormecido 
de cidade, absorvem-me, que é a sua forma de partilhar 
e comunicar. Em momentos de um bom acaso, as águas 
imitam toda esta paz e alentam os seus jacintos, que não 
dormem. 


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terça-feira, 25 de outubro de 2016

Passagem urbana


Em Aveiro, o outono colhe quase todos os turistas 
e faz despontar estudantes por quase toda a cidade. 
As casas transformam-se em pequenas arribas da Beira-mar, 
a ria ganha um novo hálito e o seu imprevisível caudal 
de tempo é relativo. É no outono que a relatividade 
é inteiramente exequível; o silêncio ganha uma forma 
distinta e absoluta, e pode dizer-se que é, por momentos, 
audível. Os dias adquirem a condição de magia que a noite 
intensifica e condensa. E, por vezes, embora chova, eu sou 
só eu, a espreitar a parte detrás do horizonte; a procurar 
entender a parte invisível do amor, da curva do sorriso, 
do brilho do olhar, de um suspiro, da saudade… E perco 
a noite por entre os dedos, por onde tu não vais, nem 
madrugas; nos poemas que perdem as folhas e o outono; 
consumido pela avidez da luz e da languidez do corpo imaginário. 


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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Andante


Os pássaros adoram o ulmeiro da avenida. 
Brincam, felizes, nos seus ramos alegres. 
Ele, por vezes, faz uma brevíssima pausa 
na sua caminhada em direcção à ria, 
para explicar, às suas folhas, a estrutura 
funcional de uma célula de afecto. 
Não sei porquê, mas, as suas folhas, 
teimam em cair, mesmo depois 
de o entender. Por vezes, mesmo antes 
do outono, quando a cidade se perde 
em mim, à procura dos meus ramos, 
do aconchego do meu troco e da firmeza 
das minhas raízes. Nesses momentos, 
atravessas os meus poemas, onde cai 
uma chuva vulnerada, e os nossos 
ramos tocam-se, nos soluços, quase 
corações, e quase entendemos todas 
as solidões. Depois, suspiro e já não 
está ninguém, apenas um mundo de mil 
partes, o hálito do despertar e a parte 
detrás de um sorriso luminoso: cordialidade. 


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domingo, 23 de outubro de 2016

Tempo com paisagem


O ulmeiro fala sozinho e adormece no inverno, mas 
irradia uma natural e peculiar imagem de sapiência; 
caminha na avenida, no extremo mais próximo da ria 
e ao seu encontro, cadente, circunspecto, sem garantias. 
A ria tem sussurrado mais do que o habitual. 
Aguarda pelos versos que a rasgam por dentro 
ou pelo coice de um poema, numa sofreguidão genuína, 
com a superfície espessa de um movimento congelado. 
Por vezes, desamarra-se do cais, sobe à praça e vagueia 
pelo seu movimento ondulatório, à procura do ulmeiro. 
Eu sei que saio à noite e que chego ainda mais à noite; 
que a noite, por vezes, é mais longa e com pontas 
desiguais; que os lençóis respiram a saudade e abraçam 
o corpo no escuro, alheios à ria, ao ulmeiro e a cidade; 
que, de qualquer forma, no relativo da ria e do ulmeiro, 
estamos presentes como lençóis abraçados ao corpo 
do vento, ou como desígnios que aguardam a mudança 
do sinal luminoso do seu trânsito condicionado: o amor.


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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Aprendizagem


Uma flauta chama por mim, ao longe. Tão longe, 
a melodia e a cena pungente dos abraços e dos beijos. 
Os morcegos estudam piruetas e segredam-me 
que é tarde. É tarde, a noite conquistou o seu espaço, 
o seu tempo, a sua imagem de noite; avolumou as sombras, 
que, com a sua natural avidez, tragam a cidade, que é, 
agora, apenas, um ideal de cidade, onde sou um ideal de mim. 
O ar frio, que me puxa, cheira a ar queimado e as raízes 
iluminam-se, confirmando a minha suspeita: não é o mundo, 
sou eu que ando ao contrário e piso um céu que, se calhar, não existe. 


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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

À superfície


À superfície do rosto, a triste sensação 
de estar perdido na cidade que perde 
as folhas num tédio vulnerado, sob um céu 
que derrama azuis líquidos, cheios de alegria 
e expectativa. A luz, solta, ignora algumas sombras, 
numa configuração tranquila de liberdade, 
e beija a ria, onde ela se abre desimpedida 
e exala o seu cheiro húmido a sal e a saudade. 

Os olhos não descansam, temporariamente 
ausentes, à procura não sei bem de quê. 
Talvez um quê perdido no subconsciente 
emaranhado na linha invisível que une as olaias 
descontraídas aos lódãos despreocupados, 
numa revolucionária resolução de amor. 

Deixo-me ficar, ao frio, contigo dentro de mim, 
num pacato modo de ausência que traz, à superfície 
transparente do rosto, os sinais que levam as pombas 
a pensar que me abandonei irremediavelmente; 
que fui derrotado; que me diluí no alheamento; 
que parti desafiando a loucura do tempo e do espaço. 

Encaro o medo de amar, que surge 
não sei de onde, e afasto os seus dedos, 
feitos não sei de quê, para passar pelo acervo 
solto de frases que, não sei porquê, escondem 
a pilha solta de frases que formam a ponte: 
a agradável inquietação de meditar. 

Olho a vida de frente e vejo-a em toda a parte. 
Sorrio, à superfície da actividade mental. 
Cá está a poesia que te sussurro ao ouvido, 
tão solicita e tão subtil! 
A cidade quase troca os seus personagens. 


[massivo]



segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Presença



Hoje, as gaivotas falam de céus desconhecidos de um só dia 
e cantam o ideal de beijos que cantaram nos meus lábios; 
abraçam o ar abrindo as asas e disfarçam o afecto simulando 
sacudir as gotas de água das suas penas, como se estas penas 
fossem uma fantástica representação da saudade dos meus olhos. 
Um gato, completamente imaginário, sonha com pássaros mais pequenos 
e aparenta sorrir, da sua janela oblíqua, com um desejo fascinante. 
O gato acompanha as gaivotas com o olhar, mas permanece imóvel, 
como se toda a mobilidade pudesse dilacerar a existência irreal 
das gaivotas, sob este céu que alberga inúmeras histórias de amor 
e que chama por nós e para um quarto anónimo onde poderíamos 
diluir a nossa incontida presença, na tensão de um elaborado acto 
de amor, a olho nu, entrelaçados como as trepadeiras da nossa ausência. 
Inventá-lo-ia de novo, com a sensibilidade da ponta dos dedos, 
no frenesi da tua língua, no precipício da tua pele em incandescência 
e tumulto; como um princípio de uma hora longa e insuficiente. 


 [massivo]



quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Outono, a meia voz



A minha imaginação insatisfeita. O musgo da cidade, junto ao conflito 
de águas no deambular da praia-mar da ria, dorme. E as nuvens 
ocultam o caminho da vaga astronomia de um sentimento. 
Não sei se nos cairão as folhas quando o tempo se tornar mais 
intransitável, ou na curva dos dias de vagos ou hesitantes clarões. 
Reconheço-te pelo som indelével da tua voz e da tua respiração; 
pela tua imagem disseminada na pele e no peito da paisagem, 
no âmago das coisas e no fundo das cores que fingem os teus olhos. 
Sinto o fio tenso do vazio de uma moldura absorta a dançar, desabitada. 
Mas, agora, importa a paz da luz na circulação sanguínea, vórtice 
que deforma o espaço e o tempo, e tudo se torna belo, pleno, infinito:
poesia. 


 [massivo]