segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Presença



Hoje, as gaivotas falam de céus desconhecidos de um só dia 
e cantam o ideal de beijos que cantaram nos meus lábios; 
abraçam o ar abrindo as asas e disfarçam o afecto simulando 
sacudir as gotas de água das suas penas, como se estas penas 
fossem uma fantástica representação da saudade dos meus olhos. 
Um gato, completamente imaginário, sonha com pássaros mais pequenos 
e aparenta sorrir, da sua janela oblíqua, com um desejo fascinante. 
O gato acompanha as gaivotas com o olhar, mas permanece imóvel, 
como se toda a mobilidade pudesse dilacerar a existência irreal 
das gaivotas, sob este céu que alberga inúmeras histórias de amor 
e que chama por nós e para um quarto anónimo onde poderíamos 
diluir a nossa incontida presença, na tensão de um elaborado acto 
de amor, a olho nu, entrelaçados como as trepadeiras da nossa ausência. 
Inventá-lo-ia de novo, com a sensibilidade da ponta dos dedos, 
no frenesi da tua língua, no precipício da tua pele em incandescência 
e tumulto; como um princípio de uma hora longa e insuficiente. 


 [massivo]



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