terça-feira, 25 de outubro de 2016

Passagem urbana


Em Aveiro, o outono colhe quase todos os turistas 
e faz despontar estudantes por quase toda a cidade. 
As casas transformam-se em pequenas arribas da Beira-mar, 
a ria ganha um novo hálito e o seu imprevisível caudal 
de tempo é relativo. É no outono que a relatividade 
é inteiramente exequível; o silêncio ganha uma forma 
distinta e absoluta, e pode dizer-se que é, por momentos, 
audível. Os dias adquirem a condição de magia que a noite 
intensifica e condensa. E, por vezes, embora chova, eu sou 
só eu, a espreitar a parte detrás do horizonte; a procurar 
entender a parte invisível do amor, da curva do sorriso, 
do brilho do olhar, de um suspiro, da saudade… E perco 
a noite por entre os dedos, por onde tu não vais, nem 
madrugas; nos poemas que perdem as folhas e o outono; 
consumido pela avidez da luz e da languidez do corpo imaginário. 


 [massivo]



2 comentários:

  1. O amor perturba ainda mais num cenário ferido de imensa beleza.

    Beijos,Henrique :)

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  2. É sempre na ausência, que haverá presenças que mais se fazem sentir... pela falta...
    Estamos todos de passagem, neste imprevisível caudal de tempo, em que tudo é relativo, como muito bem dizes...
    Mas as noites... sempre carregam com elas, novos dias... cheios de possibilidades... onde a vida acontece...
    Beijinhos
    Ana

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