segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Andante


Os pássaros adoram o ulmeiro da avenida. 
Brincam, felizes, nos seus ramos alegres. 
Ele, por vezes, faz uma brevíssima pausa 
na sua caminhada em direcção à ria, 
para explicar, às suas folhas, a estrutura 
funcional de uma célula de afecto. 
Não sei porquê, mas, as suas folhas, 
teimam em cair, mesmo depois 
de o entender. Por vezes, mesmo antes 
do outono, quando a cidade se perde 
em mim, à procura dos meus ramos, 
do aconchego do meu troco e da firmeza 
das minhas raízes. Nesses momentos, 
atravessas os meus poemas, onde cai 
uma chuva vulnerada, e os nossos 
ramos tocam-se, nos soluços, quase 
corações, e quase entendemos todas 
as solidões. Depois, suspiro e já não 
está ninguém, apenas um mundo de mil 
partes, o hálito do despertar e a parte 
detrás de um sorriso luminoso: cordialidade. 


 [massivo]



1 comentário:

  1. Cordialidade a apaziguamento... adorei esta serenidade que tão bem transpareceu do teu poema...
    Beijinhos
    Ana

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