quarta-feira, 19 de outubro de 2016

À superfície


À superfície do rosto, a triste sensação 
de estar perdido na cidade que perde 
as folhas num tédio vulnerado, sob um céu 
que derrama azuis líquidos, cheios de alegria 
e expectativa. A luz, solta, ignora algumas sombras, 
numa configuração tranquila de liberdade, 
e beija a ria, onde ela se abre desimpedida 
e exala o seu cheiro húmido a sal e a saudade. 

Os olhos não descansam, temporariamente 
ausentes, à procura não sei bem de quê. 
Talvez um quê perdido no subconsciente 
emaranhado na linha invisível que une as olaias 
descontraídas aos lódãos despreocupados, 
numa revolucionária resolução de amor. 

Deixo-me ficar, ao frio, contigo dentro de mim, 
num pacato modo de ausência que traz, à superfície 
transparente do rosto, os sinais que levam as pombas 
a pensar que me abandonei irremediavelmente; 
que fui derrotado; que me diluí no alheamento; 
que parti desafiando a loucura do tempo e do espaço. 

Encaro o medo de amar, que surge 
não sei de onde, e afasto os seus dedos, 
feitos não sei de quê, para passar pelo acervo 
solto de frases que, não sei porquê, escondem 
a pilha solta de frases que formam a ponte: 
a agradável inquietação de meditar. 

Olho a vida de frente e vejo-a em toda a parte. 
Sorrio, à superfície da actividade mental. 
Cá está a poesia que te sussurro ao ouvido, 
tão solicita e tão subtil! 
A cidade quase troca os seus personagens. 


[massivo]



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