quinta-feira, 12 de junho de 2014

urbe XXXVII




enquanto fico a falar sozinho à janela 
sem eternidade descobre-me a cidade 
agito e estendo a poesia molhada de onde 
escorrem as mesmas palavras sem destino 
diáfanas que completam o chão das ruas 
esparsas e deixam tantos espaços vazios 
em abraços onde não há mais nada a fazer 



quarta-feira, 11 de junho de 2014

urbe XXXVI




deambulei em mim repisando caminhos 
que reconheço dos rascunhos de versos 
e de fotografias repetidas mentalmente 
há um lugar que sinto meu e onde gosto 
de ficar e deixar o tempo à sua mercê 
onde sem querer ouvir a cidade a guardo 
em mim para que o vento me deixe escrever 
perdidamente onde nada é assim tão raso 
tão líquido e tão aparente que não se logre 
não sei quando nem como deixou de haver 
luz e ganhei vizinhos para o jantar de razões 
e de sentenças prefabricadas de outro lugar 
talvez a luz como a sombra tenha espaços 
rotos onde o poeta transfigura eternamente 



terça-feira, 10 de junho de 2014

urbe XXXV




existem vários versos no escuro da memória 
onde habitam gestos e sons do vazio dos meses 
imagens com aromas que transportam o tempo 
que as pombas já conhecem de cor e sentem seus 
numa cidade que se adapta para encaixar o ocaso 
aveiro que serena nos braços da ria ao som do mar 
não há muitas janelas que te mostrem assim 
quando ainda não é tarde e tenho que partir 
ou dias que corram da estação para a avenida 
que conduz a vida sem curvas ao canal central 
deixámos de nos ver à janela em dias quebrados 
com coisas que deixaram de nos servir no corpo 
e coisas que ficaram em desuso para a cabeça 
sem nunca termos conhecido os pés da história 
vieram as certezas que despem sentimentos 
e que vestem novas causas e contextos de fé 
como brisas que afagam a assídua preocupação 
do distanciamento que ainda assim mantém 
a pele arrepiada com o perfume da resignação 
precedido pelas convicções e decisões cabais 
que parecem convergir para fora da cidade 
mas basta a circunstância de te pressentir 
para deixar de ser verdade a simples razão 
com os mesmos personagens no palco e enredo 
não sei o que possa declarar a vigília da noite 
às ruas da saudade da esperança e dos sonhos 
que se apressam a confluir para os jardins do medo 
invadidos pelas grandes questões dos pardais 
enquanto parte de mim o moliceiro que recolherá 
e transportará o moliço que há em mim e a mim
numa cidade que se molda para encaixar a aurora


segunda-feira, 9 de junho de 2014

urbe XXXIV




também existe magia na cidade 
com travessas que contornam as rimas 
ventos fortes com alegria e vagar 
e propósitos de atalho e fuga 
interrogo-me na periferia do verão 
e pergunto aos sentidos proibidos 
porque não coincidem o tempo e os olhos 
quando escrevem a poesia do dia 
e porque parecem tão doentes as certezas 
no instante em que tudo leva a prever o amor 
ou no momento que o leva a perder 



domingo, 8 de junho de 2014

urbe XXXIII




as ruas de junho unem o céu e a terra 
à espera de serem postas em prática 
dentro de mim a cidade à minha espera 
que nunca me deixa de mãos vazias 
na partilha do vento da luz da sombra 
o momento é este de fazer sentido 
que é seguir numa direcção da rua



sábado, 7 de junho de 2014

urbe XXXII




o tempo regressa com novas formas 
sobre as portas fechadas da biblioteca 
saíram da cidade todos os pombos 
a verdade decadente ficou na rua 
a criar esperanças em corpos doridos 
os únicos que ainda habitam a noite 
os sinos abandonam a torre da igreja 
as mãos adormecem cheias de saudade 
se o amor entrar em convulsão repentina 
não há viva alma que o ampare e socorra



sexta-feira, 6 de junho de 2014

urbe XXXI




pedi a todas as frases que me acompanhavam 
para me deixarem por ali esquecido de mim 
e assim fiquei exposto no cais dos mercantéis 
que se foi distanciando do mar e da cidade 
escrito por desígnios antigos e desconhecidos 
de precipitação que se senta em esquecimento 
que se exprime no destino que não se admite 
agora cheira a cidade molhada depois de tudo 
a noite adiantou-se com o pressuposto da chuva 
que se deteve na hipótese de te encontrar 
como se o tempo fosse formado por nuvens 
que se perdem de todos os indícios da alteração 



quinta-feira, 5 de junho de 2014

urbe XXX




as palavras aparentam procurar um meio de transporte 
e simultaneamente procuram um lugar para onde ir 
querem fugir dos sofismas que se encontram à espreita 
e à deriva nas esquinas da cidade que se dobra sobre si 
obstinada em frente ao computador e presa à televisão 
mas são as ruas que se confundem quando mais correm 
e param nas entrelinhas para provar morangos e cerejas 
que entram clandestinamente nos passeios absortos 
que temem perder-se sem querer enquanto esperam 
e enquanto coleccionam verbos no infinito por delicadeza 
são os veículos que na realidade se perdem da realidade 
em fórmulas inconstantes de velocidade e progressão 
e eu despeço-me dessas palavras reflexas e de adereços 
sigo em viajem com o vento na hora certa dos noticiários 



quarta-feira, 4 de junho de 2014

urbe XXIX





existem dias em que perdemos a identidade 
e somos simplesmente substantivos comuns 
unicamente pessoas e meramente árvores 
nesses dias perdemos as horas e a viabilidade 
talvez até a perspectiva e a ingenuidade 
desabam as subtilezas que espargimos na pele 
e ainda assim é possível conceber sorrisos 
e espalhá-los pela cidade em vários destinos 
em gestos que contornam os sentidos pejorativos 
disseminados pelas calçadas que são exoneradas 


terça-feira, 3 de junho de 2014

urbe XXVIII




se escutares a cidade com atenção 
vais ouvir os sorrisos que poderás ver 
se ainda com atenção vires a cidade 
e se a sentires de olhos fechados 
ou abertos como quem procura emoção 
ou em toda a palma da mão consciente 
ou na pontinha dos dedos inquiridores 
ou em toda a extensão do pescoço aceso 
pelas costas hirtas e cintura eriçada 
num estremecimento longo e quente 
que sobe pelos pés e pernas túmidas 
repletas de viagens fulgentes e urgentes 
e pelo peito e ventre fora e dentro 
que une perspectivas e paralelos 
traduzidos em sons resgatados ao prazer 
sob e sobre nuvens que também sorriem 



segunda-feira, 2 de junho de 2014

urbe XXVII




são os nomes que deslocam os espelhos 
que podem fazer sentir os afectos populares 
daqueles que atravessam continentes e mares 
no dorso das gaivotas que vem pedir conselhos 
aos santos que murmuram nos altares 
e às estátuas estropiadas de seres desamparados 
paira sobre as palmeiras uma imagem de alegria 
ouve-se a promessa de ventos enraizados 
há pelo menos uma saudade no sal da ria 
que aveiro canta sem considerar a cronologia 
obedecendo à paz dos odores encantados 
e saí dos minúsculos canais para as minúsculas ruas 
onde simplesmente repousam as luas 
que conseguem fazer desaparecer o tempo 



domingo, 1 de junho de 2014

urbe XXVI




tudo em mim se move na mais pura morosidade e alinho 
o céu cheio de cidade e premência também não promete 
respira a cidade na verve de um hiato de cintilação febril 
e eu a mil menos um porque o tempo é de apuro e retiro 
guardo-me em anotações apinhadas de cidade e eventos 
sem cronologia predefinida ou periferia displicente e oca
não importa se foi a cidade que se esqueceu de acordar 
ou se fui eu que me esqueci de dormir nessa tempestade 
esses segundos de esperança resgatada e recta são livres 
mesmo que em duas ou três linhas obsoletas de silêncio 
que poderia ler e dar entre a multidão traída e alucinada 
revestida por rectas pontuações descartáveis e repostas 
onde por todas as formas lhes desenho sorrisos práticos 
não importa se já partiste ou se somente me fui diluindo 
se me esqueci de partir ou voltei sem me esquecer de ti 
esses monumentos de vivas memórias superam a cidade 
ultrapassam as velhas combinações binárias e arbitrárias 
e afagam a insistência doce e a existência sem promessa