terça-feira, 10 de junho de 2014

urbe XXXV




existem vários versos no escuro da memória 
onde habitam gestos e sons do vazio dos meses 
imagens com aromas que transportam o tempo 
que as pombas já conhecem de cor e sentem seus 
numa cidade que se adapta para encaixar o ocaso 
aveiro que serena nos braços da ria ao som do mar 
não há muitas janelas que te mostrem assim 
quando ainda não é tarde e tenho que partir 
ou dias que corram da estação para a avenida 
que conduz a vida sem curvas ao canal central 
deixámos de nos ver à janela em dias quebrados 
com coisas que deixaram de nos servir no corpo 
e coisas que ficaram em desuso para a cabeça 
sem nunca termos conhecido os pés da história 
vieram as certezas que despem sentimentos 
e que vestem novas causas e contextos de fé 
como brisas que afagam a assídua preocupação 
do distanciamento que ainda assim mantém 
a pele arrepiada com o perfume da resignação 
precedido pelas convicções e decisões cabais 
que parecem convergir para fora da cidade 
mas basta a circunstância de te pressentir 
para deixar de ser verdade a simples razão 
com os mesmos personagens no palco e enredo 
não sei o que possa declarar a vigília da noite 
às ruas da saudade da esperança e dos sonhos 
que se apressam a confluir para os jardins do medo 
invadidos pelas grandes questões dos pardais 
enquanto parte de mim o moliceiro que recolherá 
e transportará o moliço que há em mim e a mim
numa cidade que se molda para encaixar a aurora


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