segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Poderia


Poderia encher-vos os olhos com palavras sobre as plantas 
e as suas flores, que, por diligências, artes, engenhos e zelos 
camarários, renovaram a beleza aos jardins, aos canteiros 
e aos vasos da cidade, trazendo uma imagem, desimpedida, 
e a esperança, de primavera. Povoaria as distâncias do vosso 
imaginário com as sementes e os frutos do aroma, do som, 
da textura, da cor. Ocuparia, intensamente, o vosso frágil 
corpo, com a luxúria das raízes de uma melodia erudita, 
para vos segurar, final, firme e inevitavelmente, com e pelos 
afectos, no rodopio emotivo, já fermentado e consistente. 
Mas, pergunto-me se o homem que abrolha junto ao centro 
comercial, para aí pedir sopas, há anos, de manhã até à noite, 
bem noite, terá, por gentileza, uma sopa para mim. Os versos 
não têm. 


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Saltar da página


Nada me dói mais do que saltar da página, quase a dormir 
e a esquecer o futuro. É quando se ouvem as palavras 
a soluçar e se vê o poema a queimar o poeta, pelas costas; 
é quando os olhos ficam vazios e já não choro as lágrimas 
dos outros, ou as minhas, e apago a luz à poesia, que fica 
entregue aos seus fantasmas ocos, mas estrepitosos; 
é quando me entrego a um tempo que já não me convém. 


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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Transitivo


O vento apagou a luz, mas não levou consigo as palavras. 
Abro a alma, fecho os olhos, não sei o que fazer ao corpo, 
e deixo-me cair no abismo da espera e dos pensamentos. 
Aí, conta-se o infinito, sem dor, sem medo, sem mágoa; 
dilui-se a importância, o tempo, a própria vida e o lugar; 
despe-se a superfície espessa dos dias, toma-se a forma 
da sombra como fé, sem a luz excessiva da esperança; 
desliga-se o vento e, por algum acaso, quase sempre 
se encontra o trilho que há-de salvar a ilusão de existir 
para tragar a hipótese da escuridão irremediável. 


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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Pano de fundo


O escritório espera por mim, depois do café que não foi, e eu não 
estou muito sociável. Não quero partilhar a brevidade do espaço 
e a cubagem do tempo do elevador com a estranha árvore de saltos 
altos que me ultrapassou, há instantes, na cerimónia da calçada. 
Não por me ter ultrapassado, mas pela ramagem imaginária 
e dolorosa que se lhe adivinha e pela brisa angustiante que exala. 
Ou, talvez, por temer que esse brilho seja o meu reflexo concreto 
e conclusivo, a minha natural imagem elementar e decadente. 
Eu subo, com o meu mau feitio, com as minhas raízes enleadas, 
mas vou pelas escadas, depois destas palavras escorregadias 
se colarem ao triste e húmido papel amarrotado: a minha pele. 


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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Céu azul de palavras


Há um céu muito azul, por vezes um pouco menos, 
ou seja, há um céu azul de palavras, onde cabem 
as coisas que deixámos por dizer e que nunca diremos; 
onde cabem todas as substâncias, as grandezas 
concretas e o não concreto do que dissemos e não, 
por outras formas que não as das próprias palavras 
ou por elas mesmas, as palavras, embora diferentes; 
onde cabem todos os azuis e todas as outras cores… 
No fundo, onde tudo, tudo, cabe na pele que eu sou. 

Há dias em que o céu azul de palavras se despe à chuva, 
com um sangue frio, com o sangue quente, como se fizesse 
parte dessa mesma chuva fria e quente. É, então, uma chuva 
de céu azul de palavras a romper por trás dos olhos do espelho, 
que é a alma, e que não se cansa de disseminar o azul real, 
que tanto, tanto, tentam justificar e que escolhe as ruas à sorte. 



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sábado, 28 de janeiro de 2017

Noite nova


Passavam pessoas, nuvens e horas, com razões 
que lhes desconheço. Ambos se apressam 
a abandonar o inventário, com a sua própria 
música e matiz urgente. Sob a sintaxe do olhar, 
dir-se-ia que fogem. E talvez fujam destes seis 
graus tão frios, que há cinco minutos eram 
tão diferentes, tão quentes, de tão rentes 
ao pôr-do-sol e ao peito. 

Não sigo a tribo e não há tristeza no que sinto. 
Um pássaro nocturno explica-me a noite: 
É noite nova de um princípio de lua que tarda, 
abraçada a saudade do que sempre foi saudade, 
e a ria está tão saturada que não conseguiria 
diluir-me, ou disfarçar-me, no seu rosto. 

Naquele contrário que o mundo consente, 
há passeios e abraços que acabaram e um 
apontamento para endireitar mais tarde. 

Igualo-me à paisagem, como um seu contorno. 
Os versos aparentam ser habitáveis, parte de um 
sentido de tempo que chega de viva voz. 


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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Visitação


Tropeçou em mim, na minha parte mais 
desacompanhada, e entrou na página 
em branco, mais gonçalinho do que são, 
à luz aflitiva e incontornável do vazio. 
Evitou, pacientemente, a página anterior, 
onde, num poema, choviam, há dias, cavacas 
doces e onde eu sorria, para contrariar 
o mundo. Aninhou-se na curva de tempo 
entre as minhas incertezas que concebem 
a tentação de suprimir problemas e a dança 
dos mancos. E aí permaneceu, imprevisível, 
por acaso, para nos questionarmos, mutuamente, 
sobre quem somos, o que somos e porque o somos, 
enquanto eu sorria, agora, para desmentir a vida. 


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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

No rebordo da cidade


Em algumas noites, alguns canais da ria assemelham-se 
a profundos corredores de casas antigas, cheios de névoas 
misteriosas e intangíveis, e adquirem a dimensão do infinito. 
As madeiras, dos seus ocultos cais, rangem como os velhos 
soalhos agarrados à noite, à mercê das reticências térmicas. 
Sim, nessas horas são reticências, ou seja, um pouco depois 
do céu se repetir no espelho de água, como uma saudade 
sólida. E tudo se pode agigantar para os que assistem sós, 
ou pouco acompanhados, e à proporção dos seus próprios 
receios. A não ser que estejam envoltos ou desprevenidos 
numa qualquer saudade, porque, tudo aquele cenário é, 
não por um acaso, apenas: saudade. 



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domingo, 8 de janeiro de 2017

Nos braços da lua


Passar o fim-de-semana nos braços da lua, 
entre salinas abandonadas e pássaros distraídos, 
à luz incomparável do inverno muito alto, muito 
acima das minhas probabilidades. Vaguear, não 
volúvel, na deliciosa melancolia de ler o céu 
e o apego da ria à vida pejada de andaimes, 
na companhia compreensível de versos aéreos, 
nem por isso fáceis, e o coração na minha boca. 
Ah! O abraço inteligente de uma saudade, 
ilustre e conhecida, de olhar rigoroso. 



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sábado, 7 de janeiro de 2017

O meu infinito


Como se sentisse a resignação das árvores, 
o mar fala do caudal do frio, frio, do inverno 
e do seu incomensurável tempo, o tempo 
autêntico. Tão excessivamente real que real 
encandeia. Então, fecho os meus olhos. 
A noite nem sempre é fácil ou tão real. 
A vida segue e segue, uma vez na vida. 
Já vivo, vivo, o meu infinito no meio cheio 
de palavras. Não quero ser o que micta mais 
longe, ou o que mais, ou menos, defeca;
o meu nome não importa, muito menos a sua 
imortalidade. Se fico: fico; se vou: vou. 


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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Epifania


Sentado, com se estivesse numa fotografia, ajudo 
as palavras a dobrarem-se pelo sentido, feitas de 
outras palavras, por outras palavras, sem se dizerem 
a si próprias, propriamente. O poema absorve-as e, 
através delas ou por elas, ganha a forma, o modo, 
o estado, para habitar, primeiro, a mente e, depois, um 
qualquer ponto indistinto entre a possibilidade e a imaginação. 
Convém, ao poema, servir de trampolim ou de agente 
que proporciona o salto. O seu conjunto de palavras 
funciona, assim, como força de propulsão e fica liberto 
do salto fotográfico ou abstracto, ao qual só ele próprio 
teria acesso e ele mesmo encerraria, como uma imagem 
estática e abandonada de si ou do seu próprio sono. 
Ao poema convém que as palavras saltem, também, 
mesmo que de indiferença em indiferença, já na memória, 
que não é a sua; noutros sentimentos, noutros afectos 
noutras sensações, noutras histórias, noutras ilusões. 
O poema gosta de passar e agitar as folhas, as cortinas, 
as almas; de acordar os, ou de se enroscar nos, sítios 
mais íntimos, onde se sonham as coisas que não se dizem; 
de mostrar os momentos que sabe não se encontrarem 
em si ou fora de si, já não puramente factos ou fantasias, 
mas: poesia. 


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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Um novo ano


Um novo ano precisa de pulmões, aliás, precisa de todo um corpo… 
Pode não ter pés, mãos… Mas necessita de uma cabeça e de um coração. 
É-lhe necessário o silêncio. E a imaginação, porque: se não conseguir ver, 
conseguirá imaginar toda essa hipótese da realidade, a probabilidade 
das cores, a contingência dos espelhos, as múltiplas formas dos afectos… 
E, se não conseguir ouvir, conseguirá sonhar a invasão da possibilidade 
dos gemidos, a eventualidade de um beijo, a casualidade dos sorrisos… 
Sobre tudo, um novo ano, dispensa olhares, palavras ou gestos hostis. 
Depois, é só sentir-lhe o irresistível balbuciar de existências e cada um 
seguir com a sua própria, socorrendo, eventualmente, outras, no implícito 
e secreto negociar dos dias, dias a fio, onde, talvez nos possamos perder 
de novo. 


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