segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Poderia


Poderia encher-vos os olhos com palavras sobre as plantas 
e as suas flores, que, por diligências, artes, engenhos e zelos 
camarários, renovaram a beleza aos jardins, aos canteiros 
e aos vasos da cidade, trazendo uma imagem, desimpedida, 
e a esperança, de primavera. Povoaria as distâncias do vosso 
imaginário com as sementes e os frutos do aroma, do som, 
da textura, da cor. Ocuparia, intensamente, o vosso frágil 
corpo, com a luxúria das raízes de uma melodia erudita, 
para vos segurar, final, firme e inevitavelmente, com e pelos 
afectos, no rodopio emotivo, já fermentado e consistente. 
Mas, pergunto-me se o homem que abrolha junto ao centro 
comercial, para aí pedir sopas, há anos, de manhã até à noite, 
bem noite, terá, por gentileza, uma sopa para mim. Os versos 
não têm. 


 [massivo]



1 comentário:

  1. Passam as estações... e as realidades de alguns... não mudam... como a do homem junto ao centro comercial...
    Um poema que dá que pensar...
    Beijinhos
    Ana

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