quinta-feira, 9 de março de 2017

Algumas coisas em pequenas partes, sem paisagem


Esta coisa de rebobinar, de iniciar como quem volta a trás, 
pode gastar-se ou partir, tudo coisas de acabar ou a termo; 
coisas que, em verdade, não existem, ou são só coisas. 

Hoje, quando me vi ao espelho para decidir se aparava esta 
coisa que é a barba, encontrei uma coisa assim como um traço 
contínuo, no lugar dos lábios, e disse-me: sorri, coisinha! 
E a coisa compôs-se, mas a barba lá continuou, coisa e tal. 

Há quem procure coisas em mim, uma qualquer coisa 
para desperdiçar, uma qualquer coisa que não tenho. 
Eu não tenho coisas, as coisas não são minhas, embora 
estejam por aqui, em mim, e eu próprio seja uma coisa. 

Entre coisa e coisa, as coisas também nos dão alegria, 
ou a ilusão de o ser ou de a ter, quando não nos coisam. 

Aquela mulher não é louca. E aquele homem, também 
não! Continuam a sonhar, como eu. Somos sempre os 
mesmos a sonhar. Eu procuro coisas nas palavras, ela 
procura coisas pelo chão e ele procura coisas no ar. 
Acredita, eu, em alguns dias, muitos dias, para além 
de procurar coisas nas palavras, procuro coisas no chão, 
no ar e em todos estes loucos que não o são. 


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quarta-feira, 8 de março de 2017

Do dia


Não são falinhas tortas, palavras tatuadas ao acaso 
num papel casual, com uma tinta escura e paternal. 
Gostaria que não necessitasses de uma lei, ainda 
assim cega, para que te reconheçam como minha 
igual, para que te imponham em número, como se 
fosses apenas isso: um número, uma proporção, 
uma simetria, um gráfico… estatísticas de ocasião. 
Mas, num certo sentido de similaridade, deseja-se, 
mas não se espera, que deixem de existir homicidas, 
violadores, corruptos e corruptores… agressores, 
ou a intolerância, o sectarismo, a discriminação... 
Deverias poder estender-te pela ria, sem medo, 
a bradar felicidades em demoradas viagens salinas 
com o tempo das ruas e das marés, que não fecham 
aos domingos. Mas os senhores não mudam, não 
vacilam. Têm a urgência num repasto elaborado 
e fácil, o entendimento de uma hipocrisia milenar. 


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terça-feira, 7 de março de 2017

Dentro


Em alternativa, o dia acerta-se por uma razoável curva estatística 
mecânica, que continua a sonhar, numa intrincada rede de fé 
automática, que se precipita para o persistente sorriso sonâmbulo. 
Digo eu, com a galhardia de um poema a uivar-me na palma da mão 
quente, com estrelas a brilhar sem bússola. As estrelas de sempre, 
que continuam a beber a sede da lua, num tédio de pé, ao balcão. 
Talvez tudo se explique nesta espuma de café, colada à chávena, 
onde deixo as pegadas de uma vida, enquanto a melodia se perde 
nos olhos coalhados e a tua imagem frontal emudece gradualmente. 
Mas, se de facto assim for, é tarde; já não vou a tempo de entender. 
A funcionária já se precipitou, amável e sorridente, a levantar a mesa. 


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domingo, 5 de março de 2017

Possibilidades massivas



A chuva reimprime os pequenos espelhos onde se reflecte, 
nos intervalos, a afeição da lua, sem argumentos adicionais. 
Vê: os sentimentos, mais do que meras palavras, ostentam 
a singularidade e a pluralidade das mesmas letras obstinadas, 
mas abandonam os simulacros de sinais de um passado de 
ruídos, de tormentas de silêncio e de protestos de caminho. 

Não sei se perdi, algures, o caminho tomado no início, ou se 
esse caminho entroncou, naturalmente, neste, onde agora 
me encontro. Sei que o outono deu lugar ao inverno e que 
os seus dias já estendem os ramos azuis, numa determinada 
atitude revolucionária de luz e de conquista de espaço à noite, 
à sua parte visível, para cobrir a terra com o meu verde diurno. 

Conheço estes pássaros nocturnos que, felizes, abraçam os meus 
olhos. Mas deixemos o céu, trago na pele o mar que tirei da gaveta. 


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sábado, 25 de fevereiro de 2017

Duplo traço encarpado



Procuram-me os dedos e os medos das palavras relutantes, 
que se alinham no estertor da linha imaginária, ou lugar- 
-comum, do horizonte que a névoa ainda permite, antes 
do abraço, o seu humedecido abraço de fim de inverno. 
As palavras servem-se da névoa para, primeiro, aderirem 
ao rosto e, de seguida, se entranharem na pele e fluírem 
pela imprevisibilidade das células, percorrendo o corpo 
para florescem, talvez ao sabor de um qualquer acaso, 
capricho sanguíneo ou arrepio cerebral analógico. Mas, 
o mar abre-se aos meus olhos, que se abrem ao mar, 
e assim fica o corpo de um sorriso, num dia suspenso, 
num colossal estribilho, entre o cliché do mar, dos olhos, 
da abertura e da iminência. Outra forma serena de viver. 


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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Extrospecção


A alegria aérea da ria e a indecisão do crepúsculo 
da cidade, fundem-se e assemelham-se a um 
capricho de névoa para embalar as palavras. 
O outro poema que está no grou de papel 
e eu estou aqui (o nome do lugar nada acresce 
ao poema), a olhar para o vazio, vocês sabem 
como é, de um pacote cheio, sete a nove gramas, 
de açúcar, mas não sabem porquê ou se eu sei, sequer.


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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Latente


Aqui mergulha a cidade, onde já me confundo como parte 
desta margem indistinta e a desobedecer à solidão e ao mundo. 
Não sei bem há quantos anos-saudade percorro estes canais. 
As palavras não o dizem. Nem os meus olhos dizem a forma 
da tua boca, do teu nariz, dos teus olhos… De todo o teu rosto 
completo pela luz do luar, o brilho solto que inventa labirintos 
para o amor desvendar em várias velocidades e compassos. 
Aqui, longe das areias movediças das conjecturas, as emoções 
são lugares contínuos e habitáveis: o fermento da existência. 
E a cidade prossegue, sob a ria, por passagens subterrâneas. 


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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Moleza


Gosto de dias assim, dias em que o rebordo das palavras límpidas 
espelha a azáfama do Sol, que se multiplica em beijos meigos, 
e o brilho dos pássaros no céu aberto. Céu de um magnífico azul 
tenso. Exemplifico o azul tenso, como aquele azul que os nossos 
olhos, não muito líquidos, nem muito secos, prolongam em bondade 
humana, de um horizonte a outro horizonte diametralmente oposto 
e a todos os seus confinantes laterais e sucessivos, num céu imaculado 
e de fundo inalcançável; absoluto, quando em alto-mar e cerca do 
meio-dia de um dia perfeitamente limpo e de uma qualquer primavera. 
Eu fico imóvel, com o corpo no tempo, enquanto os lugares passam. 
O lugar, como uma medida de tempo, e o tempo, como um destino. 


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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Razões


Ria, ria, ria… Corpo emotivo de sentimentos em flor, à flor 
da pele; a sensação perene de presença e pertença inadiável; 
o subconsciente da constante partida sensível e exaustiva. 

A ria cheira a fim do mundo. Mas os seus olhos são um 
sorriso de domingo e quando diz: «Boa noite!» A poesia 
acorda em palavras que dizem o amor, numa forma 
eterna de companhia. Os seus dedos brincam nos meus 
olhos de criança entreaberta, onde não há nada a perder 
e as palavras ainda acreditam na inclusão de um abraço. 


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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Esfera


Não te lembras. Já não te lembras de mim. Lembras-te 
de uma certa imagem que constróis como absoluta, 
mais propriamente tua, onde já não sou cuidadosamente 
eu, ou onde já não vive o meu ralo reflexo, o meu olhar, 
ou a ideia que de mim tenho e existe, ao meu curto alcance 
de espectador exilado da pátria dos instintos. Sou, já, 
a imagem que o tempo guarda num inventário de tons 
legados pela acção erosiva da sua passagem e a projecção 
num aglomerado de palavras e histórias que os caprichos 
da memória redistribuíram num puzzle de ruídos e juízos. 
Talvez como a imagem que de ti guarde. 


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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Sem legendas


Por ali, os gatos gostam de se enroscar por entre as silhuetas 
floridas de moliceiros e de figuras geométricas, que desconhecem. 
Ficam alerta, nessa protecção imaginária, numa realidade suportável, 
a aguardar por uma qualquer eventualidade fora do seu alcance, 
ou da acidental visita de um belo exemplar de ave, que se adeqúe 
à sua necessidade ancestral e instintiva de saciar a fome quimérica. 

Ali (ou em qualquer outro lugar), há uma eternidade, despudoradamente, 
muitos dos homens, velhos da minha idade, sentados ou de pé, 
enroscados nos casacos inquietos de inverno, de caso pensado, 
lançam os seus olhares ávidos e aflitivos sobre as mulheres, como 
se estas fossem presas, meras mercadorias, ou, propositadamente, 
aves, adequadas ao cortejo do apetite sexual, o seu único e possível. 

Observo, com pudor, com uma escuridão nocturna no olhar. Temo lançar 
um brilho indiscreto, ainda que simbólico, antes de ser, ou ter, outra alma: 
um pássaro; entre as cicatrizes da minha visão ou dos seus sobressaltos 
fugazes. Enrosco-me no poema, presa de mim mesmo. O meu retrato 
é uma linha na minha mão e guardo-a naquilo que é, vagamente, um bolso 
ou a ilusão de o ser, mas, ainda assim, um local à disposição e repetível. 


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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O bengaleiro


Tentarão catalogar-te pela roupa que vestes 
ou deixas de vestir; pela música que ouves 
ou ignoras; pelos livros que lês ou não procuras; 
pelo riso que dás, ou não; pelo que escreves 
ou deixas de escrever; pelo que afirmas, ou 
pela maneira como o dizes… Por qualquer 
outra forma, mais ou menos fácil ou indirecta. 
Posso emprestar-te um espaço do meu bengaleiro 
de guardar classificações, ou seja, o meu descomplicado 
bengaleiro de adiar rótulos alheios por tempo indeterminado. 


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