segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O dúbio



Não havia camponeses no campo
Havia um dilúvio de emoções maduras
E memórias que caiam por terra
A cada tiro de caçadeira
Por cada latido de cão de caça
E eu de mãos ocupadas com lembranças
E de coisas simples como eu
Sem recipiente para guardá-las
Na súbita via descendente
Desejei poder corrigir o mundo
Emendar os enganos
Eliminar as dores, as guerras e os ódios
Apagar as mentiras
Com um simples desejo
Com um simples pensamento
Com uma simples palavra
Parte de um descomplicado plano pateta
Sem nunca pretender ser profeta

Um fio de afeição aparenta estar a um passo
De se desprender da teia
Tão fácil de seduzir, num semblante
Penoso de observar, enquanto se espelha
Naquilo em que se transformou
Uma memória inconfidente
Como também as palavras o são


6 comentários:

  1. Verniz Negro09/10/12, 12:15

    Olá Henrique, bom dia. Venho com muita gratidão e a natural admiração, agradecer a tua visita e congratular-me de te poder ler e te ter como amigo. Bem hajas. O poema está como sempre os fazes, belíssimo. Obrigado por tudo. Boa semana

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    1. Olá, Verniz Negro!
      Obrigado!
      Desejo-te, também, uma boa semana.

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  2. Adoro estes teus poemas mais densos, mais intrincados (difíceis) e que contêm imensos atalhos (linguísticos), pistas e sentidos. Não me vou alongar em interpretações, faço questão de transmitir, apenas, que frui cada verso e que me senti envolvida pelo, e transportada para o, universo fantástico da poesia madura e inteligente.
    Um beijo

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  3. Muitas vezes também gostava de ter uma varinha mágica, de poder fazer cair na Terra a consciência, a bondade o amor, mas não posso.

    As palavras tem um peso tão grande, mas nunca maior do que as vivências ainda assim,as duas se tocam e eternizam memórias, algumas vezes inconfidentes.

    belíssimo o teu poema que tanto pode dizer a cada um dos teus leitores eu, identifiquei-me muito com o que escreveste .
    beijinhos

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    1. Por vezes, creio que seria suficiente e, talvez, mais simples, se as pessoas fossem mais honestas, verdadeiras, e se fossem mais humildes.

      Obrigado, Luna, sempre amável.
      Beijinho

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