terça-feira, 24 de novembro de 2015

cassandra


aveiro
aveiro (rossio) | portugal



sinto-me como se fosse a música que te toca 
com a sua imagem de extensa luxúria sentimental. 
talvez o futuro se tenha esquecido de nós 
e as manchas na cama sejam, apenas, outras 
raízes, mas há um pequeno rasgo de céu 
azul nas densas nuvens de cassandra. há amor, 
para além do amor de uma primeira vida. 

a vida está fria e eu sorrio, lavrado por um fogo 
de juízos que ninguém ouve no ócio da cidade. 
a rua puxa-me para o ruído da felicidade, como 
se não fosse o amanhã um vulcão corrupto, 
onde antes existia ausência. escuta o estrugir 
dos meus passos na alfândega dos sentimentos, 
assediados pelo infinito das incertezas e questões. 
não existem braços que me impeçam de voar; 
não fico nesta cama sem lábios e resignada à solidão 
dos temporais e ao ranger da madeira. vergo o 
instante no brilho das minhas mãos assexuadas 
e o meu rosto recusa-se a ser a moldura vazia 
de horizonte: é o inventário de contentamentos. 



 [o significado do silêncio]




n.a.: cassandra, como substantivo.

2 comentários:

  1. Estou maravilhada. Foto e poema muito lindos!
    O poema tem uma carga sensual e sentimental intensa.
    Bjks, Henrique!
    :)

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  2. a foto embora a P&B está muito bem conseguida e acompanha muito bem o poema, misto de uma luta inglória e uma nesga de sensualidade.

    beijinho

    :)

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