quinta-feira, 4 de agosto de 2016

tropeção


aveiro [nas salinas] | portugal


tropeço num amor, não sei se antigo. houve um tempo em que era 
esse amor a tropeçar em mim, não sei bem há quanto tempo. 
parecia-me escrito a lápis, na memória, como que uma névoa numa 
página intensamente amarelecida, não sei se pela simples passagem 
do tempo, ou se pela acção da luz numa longa exposição, ou se 
sempre foi, naturalmente, assim: envelhecida – é um pormenor. 
não lhe encontrei qualquer etiqueta, o que é normal, não costumo 
fazê-lo. com o tempo, as classificações perdem o sentido e mesmo 
aquilo que era desespero, tende a ser, apenas, passado. e ali estavam 
as feições femininas, a crescerem num esboço e cada vez mais nítido, 
cada vez mais cheio de razões. os pontos abstractos a apontar para outros 
pontos mais abstractos, ainda, e a contarem as histórias de uma terceira 
pessoa. histórias que, já nesse tempo, eu não me recordava de terem 
sido exactamente assim. um amor que, se calhar, não era exactamente 
meu. 


 [elipse]


3 comentários:

  1. o tempo vai mudando os pensamentos, ou os pensamentos mudando no tempo, mas o amor quando é real jamais muda no coração, bjs

    ResponderEliminar
  2. Oi Henrique
    Seus poemas são lindos e eu gosto muito
    Desculpe levar um deles sem pedir autorização_ os poetas escrevem para o mundo ,não é?
    Esse 'tropeção' é tão comum!
    acontece viver esse amor distraidamente.
    um abraço grande

    ResponderEliminar
  3. E o amor é assim... o verdadeiro, pelo menos... um tropeção inesperado... sem a razão, para nos corrigir os passos...
    Adorei este tropeção...
    Bjs
    Ana

    ResponderEliminar