domingo, 27 de novembro de 2016

A invenção do poema


Colocado o amieiro a deambular pela rua, ou de um lado 
para o outro, ou seja, a vaguear exagerado, excessivo; 
inventado o poeta, numa certa definição de norte, 
ainda com as mãos transparentes, pousado de frente 
para a vida e a aguardar o fluxo das palavras férteis: 
sorrio, com um gesto rasgado, à espera da superfície 
do poema e com o corpo preparado para o provável 
impacto. A racionalização, translúcida, incorpora, solicita, 
ao sabor da corrente, uma certa projecção pessoal. 
Ocasionalmente, quando os versos avançam, mesmo 
com as palavras mais gastas ou as mais velhas, ainda 
que sem as palavras mais devotadamente perfumadas, 
o poeta toma-nos com formas quase verosímeis de ser, 
de ver e/ou de sentir e rasga-nos espantosamente a alma, 
garantido a nossa própria e única existência, já não a sua. 


 [massivo]



1 comentário:

  1. Admirável forma de criação... de um poema... impecavelmente transposta em palavras...
    Apenas admirando... e sem acrescentar muito mais... a tudo o que ficou expresso de forma tão sublime e abrangente...
    Beijinho
    Ana

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