quinta-feira, 3 de novembro de 2016

E não fosse a chuva


Um poeta, sentado, como habitualmente, no canto 
mais extremo da taberna, numa névoa sépia, 
que talvez seja a sua, bebe café e escreve o poema, 
rodeado pelos personagens habituais, que aparentam 
ter nascido na própria névoa que cresceu no estabelecimento 
e ao longo dos seus muitos anos de existência. 
Por vezes, entreolham-se, através, não só dessa névoa, 
mas, também, de uma neblina que aparenta habitar 
nos seus próprios olhos e que os torna vagamente 
reconhecíveis. Assim, o poeta difuso, escreve o poema 
sobre o horizonte do lado do mar e que lhe terá afiançado 
que a chuva não tardaria. Ao que apensa um pássaro 
numa árvore de cidade pequena e o amor sem mapa, 
repleto de distâncias, de cidades, de ruas e o seu mistério 
cheio de frio e quotidiano. O futuro segreda-lhe que alguém, 
ao ler, lhe apontará um presumível distúrbio mental 
e que, a chover, será uma chuva molha-tolos: o horizonte 
não fala. Mas o futuro também não! E todos estarão, 
seguramente, certos e com as suas razões. Contudo, 
sabe-se que a chuva, quando pode, molha qualquer um. 


 [massivo]



2 comentários:

  1. a chuva, o poeta e seus devaneios...

    bom fim de semana.

    beijinho

    :)

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  2. no meio da neblina, e entre um gole de café as palavras cantam soltas e adormecem numa folha de papel.bjs

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