segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Arquétipo estirado



     Os pequenos factos também proporcionam grandes alegrias, sem direito a reversão.

     A reunião dos seixos matizados, de várias grandezas e de vários burgos, para discutir a modelação do fundo da ribeira, decorria de forma emotiva, enquanto diferentes facções de seixos prosseguiam nas suas posições, possivelmente, na expectativa de uma oportunidade para rolar nos mesmos trajectos, mas de forma individual, ou de permanecerem imóveis.

     A concentração de peixes ornados ou uniformizados, de várias dimensões, entende que, também, tem uma palavra a dizer e em uníssono deliberam que querem viver, alguns num mundo livre e fechado, outros num mundo livre em movimento, outros, ainda, num mundo totalitário e totalmente limitado e delimitado. Certos peixes, de forma solitária e particular, opinam divididos e unificados pelas mesmas convicções e nas diferentes demarcações.

     Sempre presentes, numa reacção espontânea, as águas abafam os gritos de ordem e de desordem, que estes seixos e estes peixes não querem ocultar, e emitem sons de pranto num curso de transfiguração, ora em auxílio, ora em desamparo, à causa de uns e de outros, indiferentes, as águas, às necessidades de sentido e em respeito pela habilidade do acidente e da circunstância.

     Intervir, ou não, neste mundo, é uma questão de relevo e, por vezes, de sobrevivência para os residentes das margens, à margem ou como parte de um todo. Há quem esteja pronto a partir, enquanto outros estão determinados a agir. Há quem tenha vontade de ficar. Há quem queira unir e lançar pontes, com alvoroço ou sem perturbar a ordem do que está acima e do que está abaixo, de acordo com a convicção e a necessidade apropriada. Há quem não pondere.

     Normalmente, eu apreendo e vivo as pequenas coisas que me rodeiam, atribuindo-lhes o valor que considero proporcional e adequado. Sem esquecer a existência de betesgas frescas e de testemunhas pavimentadas, não pretendo escalpelizar, esmiuçar, aqui e agora, as origens, as motivações e a proporção desta reacção na ribeira, que é de todos; pretendo, apenas, partilha-la. Partilho, também, a convicção de que todos merecem ser felizes, ainda que feitos de pó; de brisa; de chama; de líquido.

5 comentários:

  1. As pessoas são todas diferentes...

    ResponderEliminar
  2. gostei do que li. achei essa forma de escrever extraordinaria e sim toda a gente merece ser feliz só que da maneira como está portugal eu já não sou feliz nunca,só as vezes o sou quando algo me faz rir. de resto felicidade é uma coisa que não tenho. beijinhos!!

    ResponderEliminar
  3. 2Linhas: As pessoas são todas diferentes, também o entendo assim, com traços, rascunhos e resumos que se assemelham, ou se interceptam. Sabes, assustam-me as diferenças postiças e as inclusões impostas.
    [Tenho que passar isto para um "breviário" ou para um "só para dizer"]
    ;)

    ResponderEliminar
  4. sandrafofinha: Obrigado, pelo comentário tão gentil. Estamos, de facto, a atravessar uma fase muito complicada e para a qual creio ser necessário inventar um sorriso.

    ResponderEliminar
  5. Já não me assusta nada disso, e isso sim, é assustador!

    ResponderEliminar