quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

[Em pouco tempo, ou não…] VIII – Estive aqui


     Estive aqui

     A feiticeira despiu e sacudiu o xaile, oscilando-o no ar, de cima para baixo e de baixo para cima, enquanto girava sobre si, e lançava maldições e obscenidades aos quatro grandes ventos.

     Os múltiplos engodos surgiram, primeiro, através de sonhos que se convertiam em pesadelos, íncubos, e, logo, em angústias e insónias. Depois, surgiam e assomavam-se várias entidades.

     - Onde estás? – Perguntou-me, num crepúsculo, a voz melosa e melodiosa da sedução, de quem emanavam várias temperaturas.

     - Estou aqui! – Respondi.
  
     - Onde estás? – Perguntou-me, numa noite velha, a voz de várias modelações de um mafarrico, de onde provinha um intenso e ebuliente calor.

     - Estou aqui! – Respondi.

     - Onde estás? – Perguntou-me a voz cava, arrepiante e, simultaneamente, fascinante, da morte, com uma aura fria, num amanhecer.

     - Estou aqui! – Respondi.

     - Onde estás? – Perguntou-me, num início de tarde, a voz rouca e sibilante do vento norte, gélido.

     - Estou aqui! – Respondi.

     E diversas outras vozes chegaram, invariavelmente, com a mesma pergunta, no decorrer do dia, durante vários dias, às quais eu respondi constante, sincera e simplesmente com a mesma resposta - «Estou aqui!» – E, de facto, assim era, ali estava. Até que um dia, contaram-me, não estava. Foi nesse dia que deixei de estar.
  

4 comentários:

  1. Pois este é daqueles ao meu gosto! Até no fim surpreendente. Só que espero que estejas sempre. Para lá das bruxas, demónios, ventos e até da morte. Porque a escrever assim decididamente conquistá-la-às para além da eternidade. Ficarão os teus escritos e tu em outros a que deste vida e a quem dás inspiração. Beijinho grande, adorei. espero que o fsemana seja descansado e que tudo esteja bem. Abraço.

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  2. És muito gentil, Noctívaga! Obrigado!
    Bom fim-de-semana.
    Beijinho

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  3. Agora assustei-me estiveste em coma? parece algo cá algo lá, temos de vencer tantas barreiras impostas pela vida umas criadas por nós outras que nem sabemos de onde veem
    beijinhos

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    1. Não te assustes! É todo de cá (creio eu)! É lúdico, alegórico, como uma parábola. Embora o lúdico e a parábola tenham sempre algo de sonho, de real e/ou uma verdade relevante, ou conter algum preceito moral, uma moral.
      Beijinho, Luna!

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