sábado, 17 de setembro de 2011

[Em pouco tempo, ou não…] IV – O caminho de éter

    O caminho de éter

     Era uma vez um mero caminho de éter, junção de uma nano distância entre colossos de sentimentos feridos. Uma ligação do intervalo hiato de união e, simultaneamente, vasta extensão de discórdia. Não era atalho, não havia vontade para que o fosse. Culpava-se quase tudo e, por fim, o desejo, que não era. Era tão fácil culpar quem não estava ou quem não existia; o que é invisível. É tão fácil, por vezes, mentir. Entretanto, o mero caminho, curto, de éter, não foi mantido. Inventaram-se, por sua vez, pontes, desproporcionadas, diminutas ou discretas, e outras formas de chegar, nem todas bem aceites, de A a B, de B a B, de B a A ou de A a A, para juntar colossos de sentimentos feridos, com diversos materiais e aderências. Mas, todas as obras exigiam e originavam mais buracos, prontamente fechados, alguns, outros não, é certo, mas certo era, também, que os orifícios moldavam e modificavam os colossos de sentimentos feridos. Até que um dia, os colossos de sentimentos feridos, de tão próximo que estavam, e no seu tempo, conseguiram aspirar os seus cheiros. Conseguiram cheirar-se. Uns, não se reconhecendo pelo odor, afastaram-se; outros, identificando-se pelo, e com o, aroma, uniram-se. Todos viveram, ou deveriam ter vivido, felizes para sempre. Dentro da realidade, claro está!

     De quando em vez, de longe a longe, por vezes de bem perto, continuam a ouvir-se histórias de felicidade, na união e na separação, por um mero caminho de éter. Certo é, pois, que continuaram, continuam, e continuarão, a existir caminhos de éter e uma diversidade de ligações, uniões, substituições, suposições e, até, feitiçarias e magias, para juntar colossos de sentimentos feridos. Não importa de onde, nem com quem, por quanto tempo, o tipo ou o género, o importante é, por alguma vez, por algum momento, ser, verdadeira e livremente, feliz, durante a jornada.

     O amor é um caminho de éter que só existe por força de muita manutenção. É tão verdade como um filósofo poder ser poeta e/ou um poeta poder ser filósofo.

  

2 comentários:

  1. assim é, penso muitas vezes e esta é minha verdade que pode até ser pateta, mas temos um caminho traçado e quando uma porta se fecha é porque outra se vai abrir, temos o livre arbítrio nas nossas escolhas e quem sabe se foram as correctas, só mais tarde o sabemos, então como o rio por vezes temos de subir montanhas descer vales até finalmente encontrar a felicidade no mar.
    beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Quando tudo aparenta estar traçado ou demarcado, poder fruir do livre-arbítrio é de facto fantástico, ainda que sempre, e de outro modo não poderia ser, consequente. É-me agradável essa perspectiva de passar pela vida como um rio.
      Beijinho

      Eliminar