terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

munido de lua e fadiga






o rossio está apinhado de cicatrizes
que vendem amores aos alcatrazes.
durante o dia, as ruas paralelas à ria
falam de coisas que ninguém vê
e, à noite, de coisas que só elas viram.
a ria ouve, com vontade de ser o sol
da tarde. mas é tão tarde para partir
e tão cedo para secar que dormita,
enquanto aguarda a chuva habitual.

é lua cheia e eu sinto-me simplesmente
um cão perdido e pejado de parasitas,
sem vontade ou força para um latir contido.
muito menos para um uivar perdidamente
ou mictar nas doutrinas mais tendenciosas.
não vou ver muito da noite. já despendi
o dia do outro lado da subsistência,
por força das circunstâncias, onde não cabe
a lassidão da fome lenta e do desalento.
julgo, até, que lhe devo algumas horas.
mas há, no meu semblante vago e errante,
como sempre, um sorriso terminal,
atravessado e franco.




1 comentário:

  1. La noche, la luna y la nostalgia... nos regalan una hermosa poesía.
    Un placer leerte Henrique, que tengas una excelente noche!
    Un beso.

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