terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

«até amanhã, se deus quiser!»


aveiro | portugal


fotografias adiadas. pessoas apressadas. 
fevereiro a precipitar-se longamente sobre aveiro. 

o pior é o vento que nos entranha a humidade, 
mesmo nos lugares esquecidos e inacessíveis; 
que nos procura as energias e a resistência; 
que nos remete para lugares de abrigo e reflexão. 

venho procurar a solidão entre os outros, 
palavras escorregadias, nos meus olhos cansados, 
apontam para pormenores esquivos. 
a solidão assemelha-se em qualquer lugar. 


 [palavras relacionadas]





     escrevi este poema na tarde chuvosa de sábado, 6 de fevereiro de 2016, numa pastelaria em aveiro, entre sorvos de um galão bem quente e o mordiscar de um croissant normal prensado.

     na realidade, o poema começou a desenhar-se mentalmente, na rua, entre pingos de chuva, que se intensificaram e me obrigaram a desistir de um planeado percurso fotográfico e a procurar o refúgio em entradas de prédios, beirais mais salientes, em cafés e, finalmente, numa das várias pastelarias, esta um pouco mais periférica, da zona do rossio de aveiro.

     tinha pressentido a chuva e a sua premência. havia ligeiros indícios, e uma réstia de esperança, de que poderia ter, com felicidade, algum tempo para tirar algumas fotografias com a câmara fotográfica, como fuga e redenção à obtenção esporádica, monocórdica e insatisfatória da utilização do telemóvel para esse fim, durante o corre-corre do dia-a-dia.

     à pressa, arranquei algumas folhas, quatro, de um caderno, antes de sair de casa. confesso que o gesto de arrancar folhas de um caderno me provoca algum desconforto. mas, a iminência da chuva e a inexistência de um bloco pequeno o suficiente para ser albergado num bolso do casaco, ou das calças, ou, ainda, num dos bolsos do saco da câmara fotográfica, precipitou o acto, a contragosto e, de alguma forma, forçoso. a quantidade foi extraída aleatoriamente, como se aquele fosse o volume exacto e imprescindível para satisfazer uma qualquer necessidade verborreica, que pudesse surgir num, quando muito, par de horas. nas minhas deambulações, surge, quase sempre, a necessidade de tomar algum apontamento, que pode ser um nome, uma circunstância, ou uma futilidade, coisas para as quais a memória pode não ser precisa no momento de o ser.

     foi no primeiro café que as primeiras palavras tingiram a primeira linha da primeira página da primeira dessas quatro folhas, a única folha do pequeno poema. mas ainda estava muito desperto e activo no acto de contemplação do ambiente circundante, que incluía os espaços, os seus personagens, e na degustação de um café razoavelmente bom, sem açúcar. depois, o excesso de movimento no local, e a carência de lugares sentados, compeliram-me para a evasão, num acto de benevolência e de algum apreço para com os indivíduos igualmente desafortunados. afinal, eu sabia-me capaz de encontrar um espaço onde poderia passar algum tempo de ócio, e com menos constrangimentos.


     as paragens seguintes serviram, apenas, para alimentar as minhas deambulações mentais e filosóficas, tomar algumas notas e lamentar a imprudência de ter deixado o guarda-chuva em casa, o razoável estorvo que se teria transformado num imenso conforto. chegava, assim, entretanto, à pastelaria onde escrevi o poema. era francamente menos povoada. as ruas pedonais que lhe dão acesso e a constância e circunstância da chuva, que caia com afinco, afastavam-na dos grupos de turistas. naturalmente, ainda observei o ambiente: o espaço e as pessoas. pouco depois, estavam ocupadas, apenas, duas mesas. a mesa onde me encontrava e a mesa de um grupo de senhoras, três, alguns largos anos mais à frente, creio que não tanto por terem chegado primeiro ao local. apressei-me a depositar palavras na folha para não invadir o grupo, para não escutar desproporcionalmente as conversas. por essa altura terei intensificado ainda mais a curiosidade que tinha despertado à chegada. não consigo precisar o tempo que por ali estive e com que outros gestos, durante a escrita e o lanche, mas, próximo do último trago, da última dentada e das últimas palavras, fui servido das palavras que apropriei ao título: «até amanhã, se deus quiser!» aí, sim, começou o dia. e não, eu não sei porque mistérios, mas já possuía essa certeza de antemão, não quis deus que nos tivéssemos encontrado no dia seguinte. 




1 comentário:

  1. Belíssimos poema, foto e texto. Eu estou em modo de deslumbramento.

    Não digo «até amanhã», mas desejo-te um bom fim de semana!

    :)
    Bjks

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