sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

subterrâneo




a doce e forçosa fragilidade das estalactites, 
promovidas pelas diferentes gotas de água 
que encontraram sempre o mesmo destino, 
lenta, lentamente, transformaram a gruta 
num sumptuoso palácio. abraço a alegoria, 
a primeira, num abraço fraterno e conclusivo. 

para aqui chegar: percorri vários caminhos, 
tempos vários; diversos espaços, e cores, e sons, 
e cheiros, e gostos, e texturas, e temperaturas; 
diferentes pessoas, tão distintas ou tão iguais; 
múltiplos animais e vegetais. abri e fechei tantas 
vezes os olhos, bocas, mãos, braços, portas, janelas, 
livros. vivenciei histórias, suspirei, ri, chorei, falei, 
calei, li, escrevi. amei e voltei a amar, algumas 
vezes. sou e estou diferente. muito do que escrevi, 
e que ainda existe, perdeu-se nesse trajecto. 
ajudou-me a chegar aqui. proporcionou-me 
percursos, atalhos, carreiros, avenidas, vias 
rápidas e foi transporte, abraço, sustento. 
algumas estruturas são rudimentos simples, 
e/ou ingénuas e/ou pobres e/ou frágeis. 
são memórias que não se deixam alterar, 
que alguns julgaram, por vezes, ser para si 
e outros nunca chegaram a saber-se ali. 



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1 comentário:

  1. Identificação total no poema. Poema espelho.

    Belíssimo Henrique.

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